segunda-feira, abril 30, 2007

Primeiro de maio, 2007

E. San Martin de Nova York.

Hoje é primeiro de maio e queria registrar na NOVAKLAXON o Canto dos Carregadores de piano de Recife. É do final da década de 30 do século passado. Foi recolhido e registrado em disco de acetato por um folclorista histórico: o escritor Mário de Andrade, que muito admiro e repito (e que foi corrigido por algum motivo antropológico ou antropofágico na própria NOVAKLAXON, mesmo sendo predra angular da Revista KLAXON dos modernistas da modernidade antiga. Ele e outros, com sua competência e independência, criaram as bases culturais para que ainda se auspire ou busque a liberdade de pensamento no Brasil, deixando alguma forma de documentação “do que faz do Brasil, Brasil”.

O importante é que hoje é Dia do Trabalhador, em grande parte do mundo. Quem trabalha é que tem razão, no entender de um malandro carioca “pedra 90” ou quilate poético aos poemas de M.A., Wilson Batista, que acrescentou: “Digo sem medo de errar. O bonde de São Januário, leva mais um operário. Sou eu que vou trabalhar”.


CANÇÃO DOS CARREGADORES DE PIANO DE RECIFE*


Foi batida no pau
Assim não foi
Foi duro p’a ti
Assim não foi
Foi lá nos pé do cachorro
Assim não foi
Foi lá nos “tadinho” dos dedo
Assim não foi
Foi corda queimada
Assim não foi
Foi chumbo derretido
Assim não foi

Tira de lado
Assim não foi
Tira de frente
Assim não foi
Tira de banda
Assim não foi
Foi duro p’a ti
Assim não foi

* Canção de trabalho dos carregadores de piano de Recife, 1938, resgistro de Mário de Andrade, transcrição incompleta e imperfeita, por limitações da fonte de audio, ou deste ouvinte que a copia.

sábado, abril 28, 2007

Vamos tirar os espinhos dessas periferias – miseráveis, fisicamente e culturalmente

Marco Celso Huffell Viola -Porto Alegre


Emanuel tocou em seu último post num assunto espinhoso, a droga.
Como havia terminado recentemente a leitura do livro Abusado[i] do jornalista Caco Barcellos resolvi falar também sobre o assunto. No livro, Caco realiza uma reportagem investigativa sobre a vida de Juliano VP, codinome de um dos “donos” do morro Santa Marta no Rio de Janeiro entre a década de 80 e os primeiros anos do novo século quando foi morto na prisão de “segurança máxima” Bangu 1, em julho de 2003.
Caco reconstitui a história desde os primeiros habitantes do morro Santa Marta, imigrantes nordestinos que se estabeleceram ali com a ajuda de don Helder Câmara e passa pelos sucessivos “donos” do morro até chegar a Juliano VP que se torna “famoso” quando consegue a presença no morro do cantor Michel Jackson para a realização de seu clipe musical, garantindo também a sua segurança, o que foi considerado uma afronta direta a Secretaria da Segurança do Rio de Janeiro.
O livro é uma reportagem longa sobre o que todos sabemos, que o Brasil vive hoje em duas sociedades distintas com leis e comportamentos completamente diversos.
No Rio de Janeiro 2,5 milhões de pessoas residem nas 400 favelas da cidade.
Esses enclaves periféricos nas grandes cidades são resultado de todos os múltiplos desacertos sociais -políticos e econômicos - dos diversos governichos que conduziram esse país nos últimos 50 anos e terminou por fortalecer a criação de sociedades paralelas, estados autocráticos tão fortes que podem enfrentar o chamado Estado de direito ou a sociedade, sem receio, com recursos e armas superiores.
A noção do Estado de direito, uma das conquista da democracia, bem como noções básicas de justiça não existe nessas realidades. A lei e a justiça é executada de acordo com vontade dos donos do morro e seus prepostos, e a ela estão sujeitos e envolvidos todos os que ali residem, homens e mulheres.Numa das batalhas travadas para devolver a liderança do morro para Juliano VP a organização da mesma ficou a cargo de mulheres ligadas a ele que se associaram a um grupo de outra favela que as apoiou com homens e armas.
As estatísticas e notícias a respeito disso são tão comuns que terminam tornando indiferente a sociedade que vive em torno dessa realidade, realidade essa que também é glamourizada pela mídia ávida de lucro atrás de “sucessos” musicais, e de novas “tendências” nessas periferias miseráveis fisicamente e culturalmente. E a mídia, também, apresenta como novidade inserção dos menores de idade no circuito da droga, que só tem a porta de entrada, não a de saída.
Mas vamos falar um pouco mais de violência. Um trecho do livro:
“Uma implicância sem fundamento ou a necessidade de provar o seu poder de perversidade também eram motivos pra Raimundinho multiplicar os tribunais. Ele chegou a executar uma mulher Irana, de 50 anos, apenas para competir com os carrascos do Cerro Corá, gerenciado pelo amigo Bruxo, que havia matado uma adolescente chamada Choquita. Raimundinho soube que o corpo fora esquartejado em trinta pedaços, postos dentro de uma mala e desovado no meio caminho no meio da floresta, ligação ente o Cerro Corá com o Santa Marta.Dias depois Raimundinho fez a mesma coisa com Irana, que alegou ser informante dos inimigos.Mas para impressionar os amigos do morro vizinho, em vez de trinta, esquartejou em cinqüenta pedaços e mandou jogarem a mala na mesma trilha da floresta”.(pág 220 )
Os exemplos de crueldade se multiplicam, não apenas no livro. Essa crueldade é diária e constante e, é apenas caricatura de uma sociedade cujos únicos valores perenes são o poder do dinheiro e das armas que o garantem.
A droga é elemento secundário em todo esse processo, pode ser qualquer uma, maconha ou cocaína, como era o álcool na década de 30 nos Estados Unidos.
Segundo o livro de Caco, em setembro 2002 a renda mensal de um desses donos do morro com a droga era de 2 milhões de dólares.É importante notar, também, que os “donos” desses morros estão a serviço de patrões que estão fora dessa periferia.No caso de Juliano VP, ele fazia parte da estrutura do Comando Vermelho.
O Comando Vermelho foi criado em 1979 no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ) a partir da relação entre presos comuns e militantes da Falange Vermelha que combatiam o regime militar.O Comando surgiu com o lema "Paz, Justiça e Liberdade" e criou o mito das organizações do tráfico do Rio.
De acordo com o ex-secretário de Segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares[ii] “esses nomes funcionam mais como linhas de demarcação que aproximam e opõem os atores coletivos, do mundo criminal do que como representação de organizações sólidas bem estabelecidas. Quanto valem, de fato, depende do contexto, da circunstância específica, do tema em foco".
Ou seja, não houve nenhuma politização ou conscientização de realidade nenhuma, apenas o fortalecimento desses grupos que já existiam.Se tivesse surgido a menor organização em torno de uma plataforma política dentro desses grupos, eles já teriam sido exterminados e provavelmente as favelas teriam se tornado terra arrasada. O estado policial (não o de direito) costuma se autoproteger muito bem.E não se sente ameaçado com esses tiroteios. Esse estado só sente ameaçado se houver política no meio, como não há, pra que intervir?
É preciso desmistificar e descriminalizar a venda e o uso das drogas.
A nova lei dos tóxicos sancionada em 2006 criando o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas, tem como objetivo “prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.”
A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa. O uso não é proibido, a venda sim, não é uma maravilha de legislação?O texto diz que são estabelecidas normas “para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas”, mas existe produção e tráfico autorizado e lícito?
A estrutura da droga é a mesma de qualquer produto, transformação, distribuição e venda.
É um processo ligado agroindústria e também a indústria química, desde de sua origem até a venda ao varejo.
Faz mal a saúde, faz, como o cigarro, como álcool. Compra e usa quem quer.Apesar de ser reconhecido o uso da nicotina nos cigarros nunca ouvi notícia do fechamento de uma única fábrica de cigarros.
O grande exemplo da década de 30 nos Estados Unidos com o álcool também não serviu para os legisladores.
Há alguns outros interesses atrás destas questões, além do lucro brutal. Certa vez escutei de um ministro da República que um dos cartéis da Colômbia aplicava dinheiro no mercado brasileiro com a devida anuência do governo (que ele representava) que buscava avidamente esses dólares.Como essa revelação já foi há algum tempo e mudaram alguns governos acredito que os que se seguiram estão mais criteriosos com relação aos capitais que atraem para o mercado brasileiro.
Será que não?
De onde saem esses grandes capitais de risco que circulam o mundo atrás de mais lucros?
Podemos somar a esses interesses, em não resolver a questão da droga, o comércio de armas, o comércio de segurança pública e privada, o suborno e alguns preconceitos religiosos. Já ouvi argumentos que a droga pode destruir a família. O mesmo argumento era usado contra o divórcio e até hoje contra o aborto.
O livro de Caco Barcelos não traz nenhuma novidade além do já sabido, da interelação de uma classe alta e média permissiva, o sofrimento dos mais pobres e desamparados.
Temos, hoje, cerca de 27% da população economicamente ativa, cerca de 24 milhões de pessoas, jovens, ou desempregados ou subempregados que ajudam a alimentar essa máquina de moer de gente.
Não há vontade política, nem econômica, nem nada, para resolver essa questão.
O exército vai para as ruas pela segunda ou terceira vez, vai resolver? Não. Vai gastar alguns milhões como já gastou nas outras vezes que saiu dos quartéis, conforme relato no livro.
Não há verdadeiro interesse em resolver isso.
Já se disparou mais tiros nessa guerra que em algumas batalhas históricas do Brasil.Segundo dados do livro de Caco um dos hospitais do Rio de Janeiro é uma dos maiores especialistas do mundo em atender gente ferida em tiros de fuzil.
Criar leis mais duras não adianta nada!
Passeatas, manifestações, menos ainda.
Se algum desses traficantes tivessem conseguido fazer acordos internacionais como o biografado de Caco Barcellos queria, ou mesmo o tal de Fernandinho a Beira Mar com as FARC, como eles chegaram a tentar, a situação ia ficar complicada para esses legisladores em causa própria e para um estado- policial, ótimo para cobrar impostos de quem trabalha e produz e não devolver nada a sociedade, quando não ajuda a engordar essas quadrilhas apoiando a impunidade com o amparo da lei e tirando proveito do status e foro privilegiado.
A única saída para toda essa questão é a legalização da compra venda e uso da droga e deixar de hipocrisia.
O Estado e o cidadão só têm a ganhar com isso, o Estado ganha mais uma fonte de renda para tapar seus eternos buracos de caixa e o cidadão, sossego para caminhar nas ruas das grandes cidades brasileiras.
O resto é bobagem eletiva ou assunto para os pregadores atrás de ovelhas para pastorear. Conversa fiada.




[i] ABUSADO-Caco Barcellos-Ed. Record-564 pg - R$ R$ 55,00
[ii] Folha On Line-15-04-2004 Segurança

quinta-feira, abril 26, 2007

TOCANDO EM FERIDAS Consumo de drogas

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília


Alguém sobe o morro no sábado. Compra drogas. Vai se divertir.
Ou "pensa que vai se divertir." Encara traficantes armados. Sabe que os "barões" estão no asfalto, na Avenida Vieira Souto, em coberturas bem protegidos. (A degenerescência brasileira contaminou todos os poderes). Bicheiros, donos de escolas de samba, o Judiciário com venda de liminares, advogados intermediando sentenças. Nem falamos do Executivo e do Legislativo, mas a "caixa preta" da Justiça - tarda, não-cega para os poderosos e falha - era mais difícil de abrir. Está sendo desvendada? Só futuro dirá. Interesses maiores se levantam Mas é um profundo deboche, mais uma bofetada no rosto resignado do povo brasileiro.
Voltemos ao início. O bom sujeito de classe média subiu ao morro. Comprou drogas. Vai se esbaldar, dançar, varar a madrugada. No domingo, usará uma camiseta pela paz. Contra a violência. Numa manifestação, dará as mãos para outros companheiros (alguns que estiveram com ele no morro na noite anterior). Ajudará a soltar pombas pela paz. Ele pensará no que fez? Creio que serei acusado de "moralista". Disseram num debate que eu tentava culpabilizar o usuário. É o discurso do senhor Gabeira, mantendo seus votos, exacerbando sua espantosa vaidade. É um direito. O que digo, dando a cara ao tapa? Quem assim age, alimenta a indústria da morte, do horror, da banalização da vida, do sofrimento terrível das famílias. E, depois, fica espantado porque a violência assumiu proporções catastróficas. De sua parte, mesmo com a mais modesta maconha, ele está contribuindo para essa indústria. "Não, eu fico quieto no meu canto, fico sereno." Não. Não fica. Alimenta a indústria de armas, dos "aviões", dos jovens mortos dos 12 aos 24 anos, sem estudo, sem futuro. A morte na rua, a existência sem qualquer esperança. "O que tenho com isso?" Tem sim. Usuário é para ser tratado. Traficante é para estar na cadeia, não usando celular, não aterrorizando a população de dentro dos presídios. O discurso facilitário dos falsos direitos humanos é uma balela. Vamos tocar o dedo na ferida. O usuário - que precisa ser tratado e recuperado- faz a roda da corrupção policial girar mais. Não adianta botar camiseta pela paz, se indignar, soltar pombas brancas, dar as mãos aos companheiros. Camiseta, pombas, passetas, faixas, lágrimas, sempre a mesma coisa.
E a mudança na "práxis"? A mudança de vida? (Não, não poupo o álcool que gera mortos em todos os finais de semana, enquanto a mídia faz publicidade intensa de bebidas alcóolicas, com mulheres gostosas e bundudas, rapazes bonitos, todos sorridentes. Atores famosos que ganham rios de dinheiro não precisam estimular a indústria da morte. É que eles fingem não conhecer clínicas de drogados. Depois, as grandes redes de TV se espantam com a morte de moços de 19 anos, dirigindo embriagados depois de festas e baladas. Até a Rússia - do "homem dos olhos maus", herdeiro da KBG, o autoritário senhor Putin -, proibiu propaganda de bebida alcóolica antes das 9 da noite. Pois o alcoolismo por lá se encontra em dimensões alarmantes. Aqui: tudo é permitido. O lobby da cerveja é maior. É fortíssimo, quase onipotente. A vida que se dane. Podemos pensar nisso? Não aprofundei? Não. Queria apenas refletir.
Só peço isso: que meditem comigo. No fundo, queria fazer um hino em favor da esperança, da vida, tão destruída a cada dia, nas nossas cidades violentas, nas periferias favelizadas. É o reino e a hegemonia do capital, do mercantilismo, do dinheiro. É o hiperindividualismo. É essa chaga do capitalismo que temos que enfrentar: vender e matar.

segunda-feira, abril 23, 2007

ERA FHC

Emanuel Medeiros Vieira -Brasília
para Antonio Albino Pinheiro Marinho
Estimado Cacau Saudações..Brasília, 16 de agosto de 2002.
Acho que somos também a voz dos que não têm voz: sem nenhuma paranóia, creio que a mídia em geral está revelando preferência clara pela candidatura governista de José Serra e demonizando a de Ciro Gomes. Elaborei, sem rigorosa pretensão analítica ou de esgotar a abordagem do período, uma espécie de inventário da “Era FHC” Fernando Henrique Cardoso sempre qualificou seus críticos de “dinossauros”, “neobobos”, “caipiras”, porque os mesmos condenavam o desatino das privatizações sem critério e criticavam a política econômica.
Éramos ridicularizados. Diziam que queríamos um Estado forte.Certos “formadores” de opinião na grande imprensa seguiam a ladainha do “Patriarca da Dependência”.Muitos os que hoje criticam o modelo participavam, felizes, dos leilões de privatização.
Como observou Mauro Santayana, empresas construídas com o sacrifício de várias gerações de brasileiros- como é o caso exemplar da Vale do Rio Doce foram praticamente doadas aos aventureiros nacionais e estrangeiros. Alguém qualificou o empréstimo obtido do FMI de “uma prescrição de cianureto” em doses anuais: teremos que manter o superávit primário de 3,75% do PIB durante os próximos anos. Como o PIB não crescerá na mesma proporção, estaremos condenados a descer abaixo da Argentina, com mais desemprego, mais violência, mais desespero.Não teremos nem mais o que vender; seremos obrigados a entregar mais ativos e a cortar ainda mais fundo os gastos sociais, como os da educação, da saúde, da cultura – para nada porque a dívida será sempre maior, maiores os juros e menores os prazos.Por quanto tempo o País pode manter um modelo econômico fundado no financiamento externo e nos constrangimentos orçamentários? Só de juros da dívida interna e externa, entre 1999 e maio de 2002, o País pagou R$ 357 bilhões, o equivalente às receitas orçamentárias de um ano inteiro, sendo R$ 35 bilhões com títulos pré-fixados, R$ 190 bilhões com pós-fixados, R$ 112 bilhões com, papéis corrigidos pelo dólar e R$ 20 bilhões com a dívida externa. ISSO SIGNIFICA QUE, DOS QUATRO ANOS DO SEGUNDO MANDATO DO GOVERNO DE FHC, UM ANO INTEIRO DE ARRECADAÇÃO DE IMPOSTOS FOI DESTINADO AO PAGAMENTO DOS JUROS DA DÍVIDA PÚBLICA.
A sociedade pode agüentar perder um ano em cada quatro de receitas públicas que poderiam estar financiando o desenvolvimento econômico e social? “Para quem soubesse pensar estava claro, já naquele tempo, que o sistema aplaudido pelo monetaristas brasileiros era desprovido de razão essencial porque desprovido de ética”, resumiu alguém. Creio que a felicidade do indivíduo é a obra-prima do Estado. E sem ética, nenhum Estado pode aspirar à civilização.
Avalio a era tucana como quase uma década de desatino, que nos custou 30 anos de retrocesso econômico e erosão da soberania nacional, que deixou milhões de desempregados e uma guerra civil não declarada com milhares de mortos todos os anos.Um grande abraço deste teu (sempre) ilhéu, Emanuel Medeiros Vieira PS: Mas não leves a sério aquilo que não te faz rir... PS: A gente atrai o que ACREDITA e não o que QUER.

ERA FHC 2
CONFISCO

(O PT E A VITÓRIA DOS BANQUEIROS E DO FASCISMO)
(Medito sobre um tema que parece superado, mas não está: o favorecimento do governo do PT (como ocorreu anteriormente com o PSDB) aos banqueiros e às empresas de previdência privada, contra o servidor público.) A proposta de cobrança do servidor público inativo feita pelo Governo do PT - que foi vitoriosa, com o estímulo dos banqueiros, "donos” da previdência privada (digo: bancos) e da mídia chapa-branca e favorável à exploração dos pequenos e fervorosa defensora do modelo neoliberal -, representa um confisco de renda, que está sendo transferida dos aposentados para os banqueiros e credores internacionais. Além disso, revela uma estratégia covarde: é mais fácil taxar inativos do que brigar com bancos.Agindo dessa forma, o PT praticou um dos maiores estelionatos eleitorais da história do País, além de ferir um princípio jurídico elementar: o do respeito o direito adquirido. Este Governo – aparelhado, direitizado, intrinsecamente traidor dos seus princípios -, está sendo forte com os fracos e fraco com os fortes. Demonstra odiosa subserviência aos organismos internacionais e ao capital financeiro especulativo, que tanto vampirizou nossas riquezas.
Existem abusos nas aposentadorias? Sim, e deve-se corrigi-los, não sendo eticamente aceitável que, como na parábola bíblica, o justo pague pelo pecador. Enquanto isso, a sonegação continua, os fraudadores da Previdência não são punidos, e os banqueiros continuam obtendo lucros exorbitantes e pecaminosos às custas do sofrimento e da humilhação do povo brasileiro. Demonizando os servidores, o governo do PT- como fazia o seu antecessor tucano -, as grandes redes de “desinformação”, a mídia conservadora e seus colunistas “chapa-branca”, os empresários e banqueiros (interessados no próspero mercado da previdência privada), distorcem o problema e fazem vista grossa à sangria das dívidas externa e interna. Foi dito que a contribuição dos servidores inativos geraria cerca de R$ 2 bilhões por ano. Para se ter uma idéia deste montante, vale lembrar uma declaração do ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel: “Nossas empresas sonegam R$ 400 bilhões ao fisco por ano (meio PIB), além de deverem mais de R$ 4 bilhões ao INSS.” Isto sem falar que nossos maiores bancos não pagam Imposto de Renda.
Também foi dito pelo Governo do PT que a reforma economizará R$ 52 bilhões até 2033. Só no primeiro trimestre deste ano, os juros das dívidas interna e externa chegaram R$ 50 bilhões. Em três meses pagamos aos credores o equivalente ao total economizado em 30 anos com os cortes dos direitos da Previdência. E com todo esse pagamento, não foi abatido um só centavo (um só centavo, repito) do principal da dívida.
O governo FHC, a mídia, e agora o PT, têm demonizado o servidor e insistido numa mentira, visando incompatibilizar o funcionário com o povo brasileiro. Os servidores não tem privilégio algum. Eles descontam 11% de seus salários, ao contrário dos celetistas que só deduzem no máximo sobre 10 salários mínimos, o que limita as pensões. Mas o PT prefere taxar os inativos a mexer com os grandes exploradores da Pátria.
O PT prefere bater nos pequenos. O PT está com medo de brigar com os poderosos? Porque não enfrenta os grandes bancos, que têm lucros pecaminosos? Porque não pune os sonegadores? A visão do PT- quem diria... - é meramente contábil, perversa com os pequenos e de completa subalternidade àqueles que sempre nos exploraram. Os cúmplices desta crueldade (deslumbrados com os holofotes das grandes redes, com o apoio dos grandes bancos) deverão ser permanentemente denunciados e execrados em praça pública: os aposentados devem anotar o nome dos parlamentares que votarem a favor desta injusta medida para que não sejam nunca mais votados. Eu sei: o brasileiro esquece rápido. O ser humano esquece rápido. Os velhos exploradores contam com isso. Tenho me repetido? Tenho. Mas como poucos escutam, é preciso falar sempre, mesmo que seja no deserto. Mas velhos humanistas já diziam que o deserto é fértil.

sexta-feira, abril 20, 2007

FRAGMENTOS

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília

CABRAL (Pedro Álvares)

Depois desta terra, ele não quis mais saber de caravelas, nem Caminha (Pero Vaz) escreveu mais nada. E mais tarde: chacinas/propinas - só rimas. Nós? Ainda escrevemos, mesmo que ninguém queira mais saber da gente. Mesmo para os fúteis, bobos (só vaidade e pecúnia), haverá a hora derradeira.

MORTE

Ela sempre ganha: tem mais tempo. DEFINIÇÃO Enternecer-se sem perder a dureza. Assim, velho Che? DEMÔNIO MODERNO Ele aposta na escassez de inconformismo; consumista, desmobilizador, cínico, chic. Soará pomposo, eu sei, mas tenho que dizer: faltarão tumbas para colocar os sonhos amontoados de tantas gerações. Tão comprido o túnel. Tiro o pó das lombadas: sou mortal.

BERLIM, JANEIRO DE 1976

Inverno, dez graus abaixo de zero, neve. Vindo de Paris, estou na casa de cômodos que Alberto Albuquerque e Cleide haviam alugado (estudavam lá). Na vizinhança, muitos exilados, fugidos da ditadura de Pinochet, no Chile, de outros países, sobreviventes de tantas ditaduras; muitíssimos eram sul-americanos. Os gêmeos Carlos e Marcos, filhos da Cleide e do Alberto (dos mais queridos amigos que tive na vida e que partiu para sempre na ilha de Santa Catarina, no início de dezembro de 1991 era 12 dias mais velho que eu, nascido em 19 de março de 1945), vindos ao mundo em 5 de maio de 1973), brincamos, conversamos eu tinha trinta anos, levara cachaça brasileira, livros, um disco de Elis Regina, outros mimos. A gente se dava maravilhosamente bem. Ríamos muito. Até dos malefícios da ditadura, forma de exorcizar os fantasmas e não enlouquecer (Anos depois, insisti para que o Alberto fosse morar na ilha, batalhei por emprego para ele. A família toda foi, moramos juntos, na Lagoa da Conceição, primeiro na bela casa do André e da Martha, na Praça da Igreja que provisoriamente estavam em Londres e, a convite do casal, nós ficamos morando lá, curtindo e cuidando da casa lá em cima, com tão bela vista; depois numa casinha de madeira, que aluguei embaixo; depois Alberto e Cleide construíram a sua, bela e sólida, também na Lagoa.) Berlim: Olhávamos mapas, andávamos pela cidade, fazendo bonecos de neve, eu tentando não escorregar naquela neve toda; vivia caindo... Falamos da vida, do Colégio Anchieta, onde estudamos juntos, dos amigos, dos projetos, dos sonhos que tínhamos em relação ao Brasil, da minha literatura, de sua Ciência Política, de tudo, conversas que varavam a noite, com vinho, chucrute, salsichão, pão preto, cerveja, muito afeto.
Fomos visitar Luiz Travassos, que também já era amigo do Alberto e estava exilado em Berlim. Recebeu-nos com muito carinho, mas senti um olhar triste, uma espécie de banzo, tomamos vinho. Conversamos bastante. Com uma espécie de brilho melancólico, relemos alguns manifestos da AP, que nos energizavam tanto até há pouco tempo (já na época: esse diálogo intenso ocorreu em Berlim em janeiro de 1976). Ironia. Escapou da tortura, enfrentou a solidão e o frio de Berlim, e acabou morrendo num prosaico acidente de automóvel no verão de 1982, no Rio de Janeiro. É muito absurdo. Senti o Travassos muito saudoso do país, ele com um sorriso doce e um tanto (seria isso mesmo?) melancólico.
Já na Ilha, Alberto me mostrou um documento, acho que o passaporte, com foto, da sofrida exilada Dorinha, que não suportou tanta dar e se jogou nos trilhos do metrô de Berlim, e era tão moça ainda. Para a minha memória, esses crimes, enquanto eu estiver vivo, nunca prescreverão. A ala fisiológica do PT (espécie de Arenão contemporâneo), aliado à mídia mais chapa-branca e venal, dirá que isso é revanchismo.Não, não é. O que seria da gente sem memória? O que seria de uma nação sem essa lembrança?)
Mais tarde, em 1980, encontro Luiz Travassos no finado restaurante Coisas da Terra, de comida natural, em Brasília eu freqüentava-o para, de vez em quando, dar uma limpada no organismo e aliviar os efeitos do álcool. Já havia saído a Anistia.
Luiz Travassos estava mais quieto, mais triste. Aquele que havia sido o maior orador estudantil de minha geração (com tantos oradores de grande talento); que conseguia que uma multidão ficasse toda quieta com suas palavras, faltando uns dois anos para a sua morte, já não parecia ter a energia fundamental para suportar as asperezas desta jornada, a nossa travessia na terra num país periférico para o capitalismo hegemônico, de raiz católica, classe média baixa, pai doente, enfrentando uma das elites mais perversas do mundo, e um golpe de Estado que durou vinte e um anos, que nos deu um violento chega pra lá e feriu, como ferro em brasa, nossos anos jovens (voa, pássaro da juventude...), uma juventude toda, liquidando lideranças, destruindo sonhos. Não se passa por isso impunemente. Travassos foi um dos mais belos agitadores que conheci.

quarta-feira, abril 18, 2007

Tenho medo é desses amarelos. A nova neo-literatura

Marco Celso Huffell Viola - Porto Alegre


Em post recente o Emanuel propõe algumas questões simples ao presidente da República e que ele, com certeza, terá dificuldade em responder:
O senhor já leu um livro, neste ano?
O senhor já leu algum livro, no ano passado?
O senhor já leu algum livro, nos últimos dez anos?
O senhor já leu algum livro na vida?
O senhor acha que literatura é algo importante?"
Emanuel, agora existe também uma nova praga, a neo-literatura. Leitura fácil e rápida, disfarçada de paradidática.
E, ele pode ter lido, afinal, o governo compra livros desse tipo, as toneladas, todo o ano.
Essas questões lembraram-me uma entrevista que demos para a TV Educativa, Paulo Markun, Nei Duclós e eu, em 2004, durante a Feira do Livro, em Porto Alegre.
Na ocasião, nós três promovíamos nossos livros.
Nei, o seu romance Universo Baldio, eu, Poemas para Ler em Voz Alta e Paulo Markun, O Sapo e o Príncipe, onde ele, Markun, traçava um paralelo sobre as carreiras de Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. Dois presidentes brasileiros oriundos da esquerda e que chegavam ao poder, um após o outro.
Apesar de não estar participando da entrevista como jornalista perguntei a Markun que tipo de repercussão o seu livro tivera junto aos biografados.
Ele respondeu que recebera os cumprimentos de Fernando Henrique e do Lula estava aguardando que a esposa, dona Marisa, lesse o livro para ele:
-"Porque é ela quem lê”, -respondeu Markun, finalizando.
Seria cômico se não fosse trágico.
Dois presidentes que saem da esquerda e se atiram num projeto neo liberal sem escalas para governar o Brasil, afirmando que são sociais -democratas.
Um, o Sapo Barbudo (como o chamou, certa vez, Brizola) que não precisa e nunca precisou de leitura porque tem uma intuição do cão e uma percepção extra-sensorial para a oportunidade e o peleguismo, desde seus tempos de operário. "Flor estranha criada na estufa da ditadura” clamava, também Brizola, enquanto alguns outros líderes sindicais amanheceram com boca cheia de formiga ele prosperava, engordava o seu discurso e sobrevivia a tudo.
Alguém aí lembra de Manoel Fiel Filho? Preso em 1976, sob a acusação de pertencer ao PCB e que apareceu morto, enforcado em sua cela, poucos dias depois da prisão.
E, em 1980, depois de um brilhante carreira como líder sindical, Lula lança um partido com uma bandeira vermelha, em plena Guerra Fria (e o Golbery no seu Geopolítica e o Poder, dando risada).
Suassuna em sua obra prima O Auto da Compadecida, botava na boca do cangaceiro Severino, o que ele pensava sobre João Grilo:
“-Tenho medo é desses amarelos!”
Essa gente amarela, que vem do nordeste, capaz de sobreviver a qualquer coisa, não pela violência, nem pela leitura que não tem, nunca teve e até não tem nada contra, não ( é capaz até de ler um bom cordel) mas pela esperteza e sagacidade, capaz de meter medo em cangaceiro.
O outro presidente, é o príncipe, segundo identifica Markun em seu livro, Fernando Henrique. Enquanto o amarelo tem uma intuição do cão, esse tem uma formação do cão, com leitura, com vários doutorados honoris causa das mais importantes universidades do mundo.
E o país?
Bom, o país é discurso, é fazer o que todos os outros fizeram anteriormente.Transferência de recursos, etc, mas o importante não é o país e, vamos fazer uma fundação com meu nome...Afinal eu criei isso eu criei aquilo. O plano real é plano com mais mães e pais que conheço. Tem o Ciro Gomes, o Itamar, tem o Rícupero, lembram dele? Que ganhou depois da genial jogada da parabólica como prêmio a embaixada em Lisboa. E não vamos esquecer também o Fundo Monetário Internacional,verdadeiro progenitor de todos os planos econômicos anteriores e posteriores.Se não fosse assim Israel não teria realizado o mesmo plano de confisco de moeda, idêntico ao Collor, tal e qual.
Nada se inventa, tudo se copia.
Criou nada, princípe cara pálida.Obedeceu indistintamente a tudo e a todos...
Nem se deu o trabalho de se definir politicamente depois de ter abandonado a esquerda, virou o quê? Social democrata? Mas o que é social democracia, afinal? Algo que faz acordo com os liberais? Pra que se definir? Sem definições podemos fazer acordos á vontade
Deixa assim, melhor assim, ninguém entende nada mesmo..
Economia, então.
Até 1990, ninguém no governo sabia o que era dívida pública.
Isso eles afirmam num documentário feito pela TV Senado ou TV Câmera, onde os bem penteados ex-ministros Fernando Henrique, Bresser Pereira, e o hacker, ex-diretor do Banco Central, Gustavo Franco (esse Gustavo é um ET, era garoto quando assumiu a direção do principal Banco de uma das sete maiores economias do mundo, sem nenhum mérito aparente ou posterior-até agora não ganhou nenhum Nobel de economia- só posso atribuir o fato, a ele ter um padrinho maior que a mãe dele, nunca vi coisa igual no mundo) explicam o que houve em mais essa década perdida do país.
Só para lembrar:Os bancos privados vão incorporar ao seu patrimônio, até o final desse ano (2007) alguns bilhões de dólares que pertenciam aos poupadores e que foi literalmente surrupiado por um dos planos verão do senhor Bresser e et caterva.
Vejam os presidentes dos principais bancos centrais no mundo, cada um com cem anos de atividades e serviços prestados as suas nações e com 1200 pós-graduações.
Aqui eles entregam a direção desse banco pra qualquer um, agora é a vez de um ex-gerente geral do Banco de Boston, bem falante, e que deu um lucro louco pra esse tal banco, aqui no Brasil, sabe como? Só aceitava como cliente do banco (quando era gerente do mesmo), salários confirmados acima de 5 mil reais, além de emprestar dinheiro ao governo que é onde os bancos fazem muito dinheiro, melhor que isso só fabricando dinheiro por conta própria. Entrevistei o homem quando ainda dirigia o tal banco norte-americano.
Vai ver se ele também não é um amarelinho.
Mas voltando ao príncipe.
Ele sai do governo e sua missão é explicar, como o personagem de Lampesusa: “Fizemos tudo pra deixar tudo como está.Vem aí outro, com um discursinho mais à esquerda pra fazer a mesma coisa”.
E vamos aproveitar e dar algumas palestras cobrando bem caro e fazendo graça pro diabo rir.
Em país de cego.
Ninguém pergunta nada.
E, parece que agora, o partido do sapo e do príncipe são sociais democratas.
Está na hora de começar a cobrar essas definições, de verdade, dessa gente.
Apesar de não teres dirigido a pergunta a mim, entro na conversa e respondo Emanuel: leitura pra quê?
O exemplo dos dois presidentes, é bem claro, um leu o suficiente pra procurar deixar seu nominho na história, mentindo que fez um plano real, uma pirâmide com vista pro nada e o outro, um amarelinho que escapou da fome, da pobreza, da exclusão, porque tem uma esposa que sabe ler.
Pra isso, serve a leitura e também pra distinguir essa gente.
Pra apontar quem são uns e quem são outros.
E pra que serve a cultura? Goering, já dizia: me falam em cultura e puxo um revólver!
Hoje não precisa nem puxar o revólver, a cultura está tão elitista e tão sem acesso a maioria da população como estava no Quatroccento ou na baixa idade média.
Cultura virou questão de muito dinheiro.
Os livros para irem para as prateleiras de algumas livrarias, têm pagar mensalidade, senão nem passam pela porta.
Nas livrarias de aeroporto, se não for auto-ajuda, eles não querem.
E as editoras?
Essas, estão sendo adquiridas por multinacionais ou se tornando mega editoras que crescem vendendo milhões para as compras estatais de livros chamados didáticos e para-didáticos.
Nesses últimos anos as editoras brasileiros descobriram um novo veio, reciclar autores como Machado de Assis. Recentemente uma grande editora encomendou a vários autores nacionais textos sobre o personagem Bentinho, do Machado, com novos "enfoques", é claro
E quem vai comprar essa droga?
O governo.
E quem vai ler?
Aparentemente os neo-leitores do primeiro e segundo grau.
E quem paga essa nova neo-literatura?
Advinhem...
O governo, com suas maravilhosas compras anuais e cujos critérios precisam ser urgentemente reavaliados.Basta tentar entrar no site de registro dessas compras pra ver que há alguma coisa estranha acontecendo por ali.
Ninguém fala nada porque para o mercado livreiro está bom, e num país em que nem o presidente lê e, quando, havia um presidente leitor, ele também nunca deu importância ao livro, pra que alguém vai se preocupar com isso?
E o dinheiro é de quem botar a mão primeiro.E pelo jeito está sobrando pra encher as prateleiras de bibliotecas que ninguém vai consultar.
Quanto aos amarelinhos, por favor, não confundam o que disse aqui com preconceito, afinal, Suassuna falou neles primeiro, e esse povo tem sobrevivido a essa raça de cobras criadas porque também é todo ele um pouco amarelinho e resiste a tudo.
E, talvez, seja até por isso que votaram nele, até descobrirem que por baixo daquela barba ele já renegou a sua gente e mudou de cor há muito tempo, se é que algum dia teve alguma.

terça-feira, abril 17, 2007

REFLEXÕES V ("Uma Tragédia Americana e outros temas".)

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília
Mais uma tragédia americana. Alguém sai atirando numa universidade. Morrem trinta e poucos estudantes. Outros, mataram em escolas secundárias. Sobem nos correios e matam. Sobem em lanchonetes e matam. Atiram de qualquer lugar. Repulsa, análises. Depois: esquecimento. Até a próxima tragédia. É a cultura da morte, do revólver, do hiperindividualismo. Sim. Mas será só isso? O Anjo da Morte conhecido como Bush confessa-se "horrorizado". Não deveria. Pois, a cada dia, ele alimenta a indústria deste "horror" que ele, hipocritamente, condena; enriquece a indústria dos armamentos, os barões do petróleo. Não está ao lado da vida. Está contra um princípo que, na consciência civilizada, não pode prescrever: o da auto-determinação dos povos. Não, não quero pessoalizar. O presidente (vitorioso em eleições fraudadas) encarna um tipo de valor. Antes, davam golpes de estado: nossa América era mero quintal. Foram ao Vietnam. Mataram, jogaram as bombas mais potentes que o mundo já havia conhecido. Mataram, continuaram e mataram. E saíram derrotados. O Iraque é um massacre diário. Ninguém se espanta mais. Estamos jantando e o notícia informa: 60 pessoas mortas, 80, 100. Todos os dias. Sim, é a mesma cultura que gerou escritores- só citando alguns mais "recentes"- como Faulkner, Steinbeck. E cineastas da estatura de Orson Welles e John Ford. Sim, o Brasil gerou Machado de Assis, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa. E Drummond, João Cabral, Vinicíus. E Cartola, Villa Lobos, Lupicínio, e Pixinguinha. E Fleury e todos os torturadores do DOPS, da OBAN, do CENIMAR, do Estado-Novo - que levou o velho Graça para a cadeia, onde rasparam seu cabelo como preso comum. E onde Marighela teve o dente arrancado com torquês e, mesmo a direita reconheceu que poucas vezes na história do Brasil houve um homem tão corajoso como ele para enfrentar a tortura. (Só quem a sofreu - e é difícil escrever sobre ela - sabe como é difícil resistir. Às vezes, é praticamente, impossível.) Os antecessores enforcaram Tiradentes, fuzilaram Frei Caneca. Canudos! (Creio que todo o brasileiro tem a obrigação moral -nem falo da grandeza literária- de ler "Os Sertões", de Euclides da Cunha. E reler.) Os donos do Brasil sempre reprimiriam com violência os movimentos sociais, com o apoio das elites e, quase sempre, (como em 64) da classe média. (Sim, somos poucos sempre seremos. Mas parecemos muitos.) E através da enganação do mito da "cordialidade, do povo "alegre e feliz", foram nos ludibriando, nos livros da história, na falsa convivêcia fraterna. Imperou a lei do trambique, da enganação.
NÃO ESQUEÇAMOS NUNCA DOS QUASE 400 ANOS DE ESCRAVIDÃO.
Internalizada nos corações e nas mentes, no elevador de serviço para empregada, no baixar a cabeça para o doutor. E a degenerescência contaminou todos os poderes. Bicheiros compraram escolas de samba, como manipularam resultados de concursos. Tornaram o carnaval uma putaria para gringos, loiras e ricos. E o narcotráfico penetrou em todas as instâncias. Movimenta bilhões de dólares Penetram no Judiciário, no Legislativo, no Executivo. E aí estamos. São presos pela Polícia Federal. Operações espetaculares com nomes sofisticados. Depois, o "habeas-corpus". Advogados caros que se especializaram em salvar a pele dos grandes ladrões e velhacos da República. Entendo quando Lênin, desconfiado dos advogados, dizia: "Advogados? Nem os do partido..." Lógico, generalizo. Sou bacharel e conheço as entranhas do que chamam de "Justiça": não acredito na prática de um Direito formal que só está preocupado com os rito (e os ricos...) e não com a verdade. A herança maior do Existencialsmo - que muito me marcou, e ajudou a aderir ao movimentode "esquerda" que achava mais digno- foi a "autenticidade". Falam muito nela. Praticam pouco.
PARA QUE SE QUEIRA QUE O OUTRO ACREDITE EM MIM, NO QUE DIGO E NO QUE FAÇO, EU PRECISO ACREDITAR PRIMEIRO. Isso é Bachelard. Isso se chama autenticidade. Teoria e pática. Sim, não basta que nossas idéias sejam justas e boas. E foi nos "contaminando" a cultura da trapaça, das pequenas às grandes: ultrapassar sinal vermelho,falar ao celular no trânsito, furar fila do banco, do mercado, tentar subornar o guarda, quando estacionamos em lugares proibidos, e puxar o tapete alheio. "SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?" A casa grande, a senzala. Vamos germinando a grande tragédia brasileira. Da patifaria institucionalizada. Não, não me importam pesquisas que colocam o presidente nas alturas. Consultas feitas a um povo que recebe um bolsa-esmola, de uma cultura resignada, massacrado por uma midia televisiva dia e noite, que não dorme nunca, colonizando corações e mentes, não me desaninam (antes, me entristeciam- percebia vitória da máquina tenebrosa dos marqueteiros e publicitárioa). E o movimento neo-petencostal de direita entrou em todas as tribos índigenas. Sem teoria conspiratória, fontes confiáveris, dizem que é um projeto da CIA. Tudo fica normal. Um Cristo alineado, um Deus punitivo. Tudo é pecado. E os "bipos universais" enriquecem, compram tevês, rádios, invadem a África. Todos ficamos resignados. Que nos devolvam o Cristo não mercantil que nos foi roubado! O Vaticano acabou com a Teologia da Libertação. Restou a Teologia da Prosperidade. A violenta mídia direitona (como certas revistas semanais, notoriamente sionistas-não herdeiras do humanismo judaico- isso é outra coisa), beirando o fascismo na abordagem da política internacional) colocou ajudou a enterrar o evangelho libertador. E achincalhou padres, missionários e bispos que deram sua vida em busca de um Cristo do povo. E a matança de nossos jovens, nas favelas, nas periferias, continua. Pobres, jovens, negros, vindos de famílias desestruturadas. Diária, anônima, constante. Segundo pesquisa, morreram mais jovens brasileiros que americanos- que viveram em guerras -, desde a de Secessão até a do Vietnam. A morte banalizada. Preto, pobre, descartável, jovem. (Mas a novela mostrando uma elite trambiqueira, feliz, seduz a platéia, como os programs infames como o do "grande irmão", com seu tipos idiotas, beirando à imbecilidade, mas que se acham o máximo, com corpos malhados nas academias da moda. Que seduzem "pistoleiras", quase prostitutas de luxo de mente vazia. Afora as idiotices domingueiras, os programas religiosos, os "milagres". Um povo carente e miserável aceita tudo. (Numa igreja de "bispo" aqui em Brasília, onde "templo é dinheiro",disseram que um homem não tinha diabetes, mas sim o demônio, e determinaram que ele parasse de tomar insulina. Morreu pouco tempo depois. Quem fala? Quem se lembrará? Quem chorará por ele? Anônimo, descartável.) Como captar esse "insconsciente coletivo"? Para um romance ou novela. Não, nem peço um romance-cadetral. Nessa miséria mental, hoje talvez ele se impossível. Não, não sai "Guerra e Paz", não sai "Vidas Secas", não sai "Dom Casmurro", não sai "Grande Sertão: Veredas", nem "Quarup". Teremos trágicos como Dostoievski? Por-que a filosofia não prosperou nos trópicos? Mas poderia sair um romance/novela forte, bem escrito, denso. Material temos. Desistimos? Há uma grande fonte para a literatura que queremos inventar. Lógico, literatura de qualidade, plural, sem querer destruir o outro, respeitando os estilos, as gerações. Convergindo. Mas que tenha valor. Não, não tem Adão literário em nosso ofício. Acredito mais em "confluências" que "influências." Reinando a intriga, a "panelinha", o "latifúndio literário", as grandes editoras publicando sempre as mesmas vacas sagradas, não poderemos ir para frente. Mesmo os ditos suplementos literários não enriquecem o debate: consolidam os latifúndios, publicam, sempre os mesmo- que, ocupam espaço como ele fosse usucapião literário, numa vaidade desvairada, contando com contactos na imprensa ou por filiação. Pais na academia, pais na política, pais no exército ou "esquerdistas profissionais"- filhos de nomes ilustres e honrados, que tergiversam até para chamar "mensaleiros" de ladrões. Até a "unanimidade" Chico Buarque tergiversou, mudou de assunto. Defende Lula e pronto. Vaca sagrada não pode se questionada. Mas vamos questionar. (Prefiro ler Kafka mesmo e não epígonos.)
Há muita covardia e oportunismo. E nas editorias dos suplementos, há jovens que acreditam que a literatura começou com eles. Precisamos - não desistir-, mas lutar, mesmo com eventuais desânimos de maneira mais forte ainda Romper a crosta do pessimismo imobilizador e segura as pontas das eventuais depressões (normais). Não somos deuses. Somos de carne e osso, num país, no começo de um novo século e, repito, com quase 400 anos de escravidão nas costas. Vamos ler. Vamos escrever. Vamos nos ajudar. Sempre: mal rompe a aurora, parodiando a expressão de Drummond.

sábado, abril 14, 2007

REFLEXÕES IV

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília

Para Clarice - sempre claridade: minha filha.
Para Paulão, Pieri e Bailon

POBRE PDT! O engenheiro Leonel mexe-se no túmulo. Os herdeiros do trabalhismo honrado quando percebem que o PDT- criado pela entrega do PTB, perpetrada por Golbery, às mãos da não-saudosa Ivete Vargas - entrega-se ao governo, em busca de prebendas, "boquinhas" e carros oficiais, devem ficar corados. De vergonha. Na cerimônia de posse, Lula (o rei do lugar-comum e dos discursos vazios), o Napoleão do ABC conseguiu ironizar o "pobre" (para não chamá-lo de despreparado) presidente do PDT (presidente!), dizendo que ele, apesar de indicado para o ministério da Previdência Social, fora transferido para a pasta do Trabalho (que já teve Jango à sua frente!), porque o partido, em suas linhas programáticas, era contra a reforma da Previdência. O novo ministro, com ar de paspalho deslumbrado, só soube sorrir. Parecia Cantinflas (lembram-se do humorista mexicano?), doido para segurar a "boca", o osso carnudo do suor do trabalhador brasileiro. Carro oficial, poder..... o Maquiavel nordestino, reconheça-se, sabe como "ganhar" (o verbo era outro, mas para não parecer ofensivo...) a consciência de muitos seres humanos. Sem amargura, mas infinita tristeza, percebo: são poucos os que se salvam. Em 35 anos de casa política, não consigo contar nos dedos de uma mão, os que não ficaram deslumbrados, os que não mudaram, os que não renegaram as suas origens. O PTB, para quem não sabe, teve (não falo desse arremedo de partido que anda por aí) uma longa tradição de lutas nacionalistas, e quando ocorreu o funesto Golpe de Estado, sua bancada parlamentar era a que mais crescia. Um partido que teve um orador da estirpe de Doutel de Andrade, tem hoje um ministro e alguns quadros que parecem pobres de espírito, desorientados, carentes de leituras básicas, analfabetos funcionais. E onde a ética parece mercadoria a ser negociada. O engenheiro também tem culpa: era um sol que não queria sombra à sua volta. Não conseguiu formar lideranças. E o inventário é tenebroso. Quem ficou? Tal veredicto não invalida a luta de Leonel Brizola pela democracia no Brasil. A única vitória "social" (do povo) que vi no Brasil no meu tempo de vida foi a Legalidade, em 1961. Por resistência. Não acordo. A nobre luta pela anistia, da qual participei intensamente, por mais empenho, não deixou de ser um pacto das elites, um acordo com a grande rede de TV,- percepção. que não desmerece a luta de todos nós, de todos que trouxeram de volta os brasileiros para a casa. LEMBRO DA ESTAÇÃO DE TREM EM BERLIM, NO INVERNO EUROPEU (dez graus abaixo de zero!) DE 1976, E UMA MOÇA, AMIGA DE LUIZ TRAVASSOS, PEDINDO - CHORANDO E ABRAÇANDO-ME: "EMANUEL, LUTA PELA ANISTIA! POR FAVOR, LUTA". Eu já podia voltar. Modestamente, mas diariamente, de manhã, de tarde e de noite, CUMPRI MINHA PROMESSA.
MINISTRA
A ministra da Igualdade Racial A apagada senhora escolhida para o cargo de ministra da Igualdade Racial, deu declarações desastrosas e o pior não foi isso. Mas a retratação. A desculpa de sempre:"Estava fora do contexto." Ninguém se assume! Todos se desculpam! Esta república perdeu a vergonha? Mas por-que a pouca ilustrada senhora se retrata? Para o bem do Brasil? Nada. Para não perder o carro oficial, as beneses, o motorista, o poderzinho, o círculo de "aspones" e aduladores. É preciso informar à ministra que, no abjeto tráfico de seres humanos, havia uma enorme cumplicidade de reis africanos. Insisto: no tráfico, sabe-se,. houve enorme cumplicidade (ler Ronaldo Vainfas) dos reis africanos. (E não me venham com "notas de solidariedade" encomendadas. Conheço de longe, e não vim do PFL, hoje "Democratas".... Minha origem é outra.) Mas o partido no poder só quer saber de reuniões, assembléias, plenárias, uma masturbação eterna, inútil. E a UNE, de tantas lutas, virou um apêndice do PT, uma entidade neo-pelega como a CUT. Qure tristeza! Participei do CPC da UNE, militei ativamente no movimento estudantil de esquerda, estive na frente das passeatas de 68 (e depois) - a AP tinha fibra, coragem, dignidade. E seus membros sempre leram muito. (Entardece e escuto Mozart.)
ÁFRICA
O historiador Ronaldo Vainfas afirma: "Essa história de vitimizar a África, ocultando que a África se envolveu no tráfico, é descabida, mistificadora e historicamente frágil. Havia uma cumplicidade enorme dos reis africanos."
"O GRAMSCI DOS PAMPAS"
O ministro da Justiça, tenta camuflar sua vaidade. Podemos ler suas palavras. Espremendo, apesar do tom pedante e pernóstico, cheio decitações, não fica nada. É um discurso,vazio, meloso, vaidoso e medíocre. Agora, renega Lênin. É de bom tom para o momento. Mas Lênin pensava mais... (Mesmo reconhecendo que a semente dos crimes stalinistas possam estar embutidos no seu pensamento e na sua prática.) Mas, reconheça-se, que o partido do "intelectual orgânico" (!) conseguiu criar aparelhos subleninistas tropicais, em que o talento e a ética valem pouco. Importa a filiação partidária. Para essa gente, os fins justificam os meios. Sempre. E não leram Maquiavel...
LULA
O SENHOR JÁ LEU ALGUM LIVRO NOS ÚLTIMOS ANOS?
O senhor já leu um livro neste ano?
O senhor já leu algum livro no ano passado?
O senhor já leu algum livro nos últimos dez anos?
O senhor já leu algum livro na vida?
O senhor acha que literatura é algo importante?"
(Não falo da porcariada ignóbil da dita auto-ajuda.) Mesmo não lendo, o senhor não poderia incentivar o hábito da leitura?
Porque algumas leis de incentivo à cultura, só favorecem os que não precisam, e parecem só ajudar os sobrenomes famosos? E quem vive mamando nas tetas do Estado, mesmo dizendo-ser "marxista" (ah, é muito sofrimento!), bajula o rei para não perder os benefícios, as "bocas polpudas", os incentivos, ah santa Petrobrás, telefônicas privadas que gostam de adular o presidente... sempre os mesmos. Não, nada de parecer inimigo dos prazeres do povo. O churrasco, a pinga, a cerveja, o Corinthians, a música sertaneja (de butique, nunca de raiz).
Mas estudar seria um patrimônio que ninguém tiraria do senhor. Os áulicos passam. Seu cinzento segundo governo logo passará. Seu ministério - um dos mais medíocres da historia republicana- logo irá embora. Triste Brasil! Cinzas e pó. O patrimônio é outro. Não há um só assessor que tenha coragem de sugerir alguma leitura? Uma visão de mundo um pouco mais profunda que o reino sindical de negociações eternas? Todos têm medo? Dos palavrões, dos chiliques, das broncas em público? Que república de puxa-sacos! A imprensa chapa branca e alguns professores universitários, dirão que é preconceito. Nada disso. Insisto. O problema não é de origem. Mas de caráter. Há senhoras colunistas de página 2 que parecem escrever um diário oficial do PT. Camuflam, mas são petistas de carteirinha, fanáticas disfarçadas, e recebem o magnífico "estadista" para rega-bofes em suas confortáveis casas no Lago. E foram comunistas na juventude... Mas Mozart me eleva. E penso que toda luta vale a pena. Penso nos amigos mortos- plantados no meu coração -, alguns nas masmorras da ditadura miliar. A palavra acesa celebra a vida.

quarta-feira, abril 11, 2007

Uma aventura no pampa


Alberto Crusius (Mise en scène) Oscar Kern (roteiro)- Porto Alegre


“Sois prisioneiros dos pampas”
Personagem de Emilio Salgari, em I prigioneri delle pampas
(Na coleção Terramarear, editada por Monteiro Lobato, com o título traduzido para o singular, O prisioneiro dos pampas.)

Tudo isso aconteceu há bastante tempo atrás, mas num lugar que quase nada mudou, exceto pelo fato de que a estrada está, há muito, concluída.
Afora, isto, a paisagem, como sempre quando se trata de grandes extensões de campo, permanece intocada.
O local? Ficava além de Guaíba, e quase na serra que fica à direita, onde havia aquela que foi a primeira propriedade gaúcha a criar exclusivamente búfalos, mais de uma centena deles, e que tão bem conheci porque era de meus pais.
Eu a teria chamado de Fazenda Mediterrânea, em homenagem à principal raça que criávamos, não fosse o protesto de meu pai diante do que achava ser uma extensão de terra muito pequena para ser chamada de Fazenda. Não passava de uma invernada, com denominação que homenageava nossas tradições folclóricas: Invernada Chimarrita.
Mas nossa história de hoje se passa noutra paisagem. Apesar de perto – se é que vinte ou quarenta quilômetros se pode chamar de perto – era noutra direção, na estrada que sai antes à direita, o entroncamento para Uruguaiana, como dizíamos, depois uma elevada, hoje chamada mais de trevo. O trevo para Uruguaiana. Era para lá de nossos critérios de cidade, onde os números tornam-se um nada na imensidão, vinte ou quarenta quilômetros, o dobro ou cem por cento a mais nada eram, porque era a visão que via e registrava.
É uma paisagem em que, como aquela no caminho para Pelotas, a superfície é plana: é o início do pampa, prenunciando os campos de Camaquã, aqueles que não tem elevações. Também na saída para Uruguaiana, pouco depois, o que vemos é o próprio pampa, porque as maiores elevações são, normalmente, apenas pequenos barrancos de verdes com altura pouco maior do que uma ou duas vezes um homem, e comprimento uma vez e meia maior. Falta apenas a rasura absoluta de Camaquã, onde todos os campos se fundiram no campo, o grande campo, o pampa aberto, a expressão física do que seja o conceito maior, o infinito. Minha memória excluiu as onduladas coxilhas, as suaves grandes ondas de verdes campos, como na vida excluímos as exceções que as contrariam no todo.
Eu ouvi a história – este tipo de estória é sempre, para mim, história, a verdadeira história, aquela vivida pela gente como você e eu, de vidas comuns – eu não a vivi, como no caso da Fazenda Mediterrânea.
Como eu a ouvi, bem, foi pura sorte, nada mais do que isso. Uma ida noturna ao amigo que mora no mesmo bairro, nalgum verão daqueles mágicos dos anos que, eles mesmos, falavam de amplidão, porque nos falavam de milênio novo, de história, a grande história, de numeração nova, de recomeço, duma chance para encontrar o que se perdera, o que não se sabia, e, mais ainda, aquilo que sequer se sabia perdido.
O veterano Oscar a contara para mim um pouco depois da chegada a seu escritório de aposentado cheio de álbuns de quadrinhos e livros policiais, uma estante só de livros de Machado – ele tinha aprendido como contar uma história com mestres reconhecidos, e aquele prêmio nacional como roteirista de histórias em quadrinhos confirmava o quanto ele tinha aprendido. O prêmio era dana mais nada menos do que o Ângelo Agostini! O Oscar das histórias em quadrinhos brasileiras, dissera alguém com fala jornalística. A reação do Oscar? Achava talvez imerecido, e pensava que teria sido mais adequado ele ganhar o prêmio como editor de sua revista editada em fundo de quintal, no pólo sul do mundo brasileiro, onde até revistinha de Disney só é distribuída depois de recolhida no resto do Brasil. E, no entanto, ele lançara gente dali para o resto do mundo. Eu mesmo fora editado na Europa depois de roteirizar uma tira de quadrinhos humorística para ele próprio.
Falei do mestre maior da digressão, Machado, e parece que lhe repeti a mania. Volto ao nosso tema deste relato. A língua que falamos traz sempre a memória de seus melhores autores na tocaia. Vamos ao que me levara ao Oscar.
Eu fora lá, em verdade, porque naquele verão uma de nossas mais admiradas sagas dos quadrinhos, com tema de saga medieval mesmo, completava seus setenta anos, e eu queria lembrá-lo disso, ou sobre isso com ele conversar enquanto estivéssemos no ano da bela data.
Quando dois amigos quadrinistas se encontram, a memória acende, e, como fogo fátuo, corre atrás do pensamento, querendo voltar à vida, aproximando-se, pela garupa, do tempo atual, meio que exigindo atenção, aliás, meio que completamente, como se dizia.
Memória, teu nome é história, uma única história que seja, mas uma história boa de ouvir e boa de contar.
Oscar começava a narrar aquilo de forma exata.
“Meu pai era capataz da estrada no tempo em que ela estava sendo construída.”
Quem vai querer deixar de ouvir o resto de uma história que começa assim, com uma única frase que nos fala de tempos lançados no passado de mais de meio século, onde há um pai e um filho no meio do pampa, lá pros lados dum nome como o mero início do caminho para Uruguaiana, o que lembra Uruguai mas não ainda não é, o que faz parte da história porque construiu uma estrada pela qual hoje se passa veloz e silente, em carros que, por mais que corram, nos dão sempre a consciência de que certamente parecemos moscas vistos lá de cima, deste céu azul, em tempos de vistas aéreas, que este executivo tanto apreciava nas poucas viagens que ainda não tinha suficiente status para evitar com alguns telefonemas de palavras cuidadosamente utilizadas.
Sei hoje o quanto, lá de cima, mesmo em momentos de aproximação do solo para a ainda distante mas, no tempo, próxima aterrissagem, somos moscas que se arrastam sobre a linha preta do asfalto que lá dos altos e das nuvens altaneiras ficará certamente reduzido a um fio preto no meio do verde imenso, lá de onde os grandes açudes não brilham em grandes faíscas, mas cintilam como pequenos espelhos num presépio de grande colcha verde cuidadosamente esticada, onde poucas são as curvas do tecido, abrandadas pela visão da altura.
Pois ali, e por perto de algum daqueles grandes açudes, o velho Kern, pai do narrador que me contava a história de tempos de garoto, era o capataz da grande obra que vinha do longe e se projetava para o ainda muito mais longe, cortada no vermelho alaranjado mas mesmo assim meio sangrento de onde ia para o horizonte, e sendo recoberta pelo preto do asfalto, aliás, preta desde antes do asfalto, que aquela terra é boa, eu me enganei.
E o menino Kern olha aqueles açudes e está no pampa, vê a água grande, lisa como um espelho, mas um espelho imenso, imenso e muito manso, liso, onde se pode ver um rosto e até a alma da gente olhando daquele outro mundo que a gente não sabe o que é, feito daquilo que mais sobra na natureza, a imagem, tem imagem até do que não existe, o contra-céu refletido nos açudes, as nuvens flutuando em superfícies abissais que não existem, ilusão? Nada disso, realidade. Imagem, matéria prima do encantamento.
Quando ele está me narrando isto, uma rápida chuva bate no telhado, e na parreira ao lado da garagem para onde fica a porta aberta de seu escritório, uma chuva de verão, estalando seus pingos com selvajaria certa e faceira sobre as grandes folhas verdes balançando como pautas acolhendo o respingo das notas, e nos forçando a um pequeno silêncio, um entreato típico das narrações de histórias de campanha e grandeza de espaços, o silêncio que a assombração do tempo antigo, no retorno, faz instalar com perfeição, recortado em suas bordas sonoras pelo ruído agudo e breve dos pingos de chuva martelando seu ritmo no escuro verdor das folhas que a noite não mais nos permite enxergar.
Não a campanha não é apenas Santana do Livramento e Uruguaiana, a campanha, a terra dos grandes campos, começa muito antes. Só quem, como eu, viu nossa capital do alto da serra de Guaíba, dos altos do Matias, sabe isso com perfeição, porque viu o branco dos edifícios de Porto Alegre tornados minúsculos pela distância, a cidade reduzida a um brinquedo de criança, capaz de caber em nossos braços, senão em nossas mãos, o rio um contorno cheio ao seu redor, pelo menos enquanto não se tratar de uma vista aérea, porque o rio Guaíba lá embaixo se agiganta quando a cidade está à mesma distância da aeronave que baixa em demanda do solo e do pouso, não é a mesma coisa que a visão da serrinha de Guaíba (“Seio das águas”, em língua dos antigos habitantes do mapa, índios).
Certa vez, achei que a cidade, lá longe, os edifícios brancos como lápides a brilhar no meio dos campos da eternidade, era o pequeno cemitério onde, formigas, nem aparecíamos vistos do alto dos gigantes deitados, adormecidos, que eram os cumes verdes e calmos da serrinha.
Nosso pensamento está, todo ele, ainda lá no longe, perdido das verdes canhadas, verdes mares bravios do campo quase sem ondulações, que os temporais mesmo não acirram em fúria. Sempre a calma, a calma para sempre e para nunca que os pequenos por vezes detestam, o enjôo do pampa, o sono imemorial dos sentidos, que precisam do espoucar selvagem da caçada, da carreira de cancha, ou pelo menos da pescaria de algo grande, do alarido do peguei, da exclamação diante do tamanho do bicho fisgado. Nem sempre um peixe...
E num dia de calor, o pequeno Oscar sai com pequenos pedaços de pulmão de gado como isca, comprados em açougueiro.
Porque aquilo que o garoto vai procurar pescar é aquilo que comparece em nossa linguagem e nossas narrativas em palavra por si mesma um alerta surpreendido: jacaré.


2


Jacaré, gente.
Jacaré de verdade.
Caçava-se jacaré a laço nos banhados, comentava meu falecido pai, narrando coisas lá de Cachoeira, da fazenda do velho Noca, onde passava o verão como em sonho, o sonho que a narrativa do Oscar agora adulto contém, transformado mais uma vez em realidade, o sonho de todo menino gaúcho, de uma aventura, de qualquer aventura, mas de uma aventura no pampa. Uma queda do cavalo, uma cascavel de que se escapou por pouco, uma jararaca que se matou a relho, batendo firme e rápido para que ela não tenha o tempo para se enroscar e dar o bote, um laço de couro que carregava o irmão mais jovem coxilha abaixo e que conseguimos deter, uma lida desastrada qualquer de que se saiu ileso.
Quem diria, mais ainda, a aventura de pegar um jacaré. Um jacaré que se laçou, ou que se pescou.
Como se pesca jacaré?
Ora, mas que presunção, como assim, “se pesca”, não existe isso, um hábito de pescar jacaré, uma conduta social, um comportamento partilhado e transformado em tradição ou ritual.
O menino teve que pensar em como fazer.
Os pedaços de pulmão flutuam na água. A linha, ora, a linha é amarrada numa árvore.
“Porque assim, quando o jacaré morde a isca, e procura se afastar, a árvore o puxa para fora.”
Sim, mais uma vez e sempre aqui aspas, nada de travessão, pois são palavras literalmente transcritas. Leia sempre um texto até o fim antes de reclamar dele.
Sônia (“a patroa”, costuma dizer, ridente, brincando com a tradição, e, claro, efetivando o afeto), sua mulher, entra neste instante com benvindas pipocas e refrigerante.
Quando sai, Oscar prossegue sereno sua narrativa, o olhar um pouco para cima, como uma foto de Jorge Luis Borges, olhando para nada e portanto para aquilo que é tudo, o que está dentro de nós e volta, assomando e vencendo as décadas passadas, vindo de remotos dez, vinte, trinta, quarenta, quem sabe sessenta anos atrás, o que paira um pouco acima de nós, por estar acima do agora, e faz o olhar ficar neutro porque voltado para dentro, para a luz real que anima e dá contornos ao que se narra porque se enxerga com a nitidez daquelas manhãs cristalinas e meio-dias modorrentos, em algum açude afastado da gritaria, dos ruídos, e do cheiro do betume que será asfalto sendo vertido quente, fumaçento e líquido, para a estrada já empedrada na base.
“E quanto mais ele morde e engole, mais é puxado para fora da água pela árvore que se inclina para a frente e de repente dá aquele salto para trás.”
E assim, em meio aos maricás cheios de espinhos cortantes, o bicho, aos poucos, emerge, as patas enlameadas escorregando sobre o verde das margens quase sem areias, como é comum nos açudes, e o menino avança com uma grande pedra.
Respiração diminuída, ouço o resto sem poder falar. O jacaré é morto a pedradas.
Tudo isto estaria terminado, não estivesse o melhor da festa ainda a caminho.
Sim, senhor, a caminho, a caminho de casa.
O menino se dirigiu para casa levando sobre o ombro o jacaré caçado e morto.
Já em casa, a mãe do menino o interpela.
A razão é óbvia. Horrorizada com o bicho, apavorada com o risco, recorre à melhor figura de linguagem para encontrar um diálogo entre a velha senhora pacata e o guri criado em meio aos campos, banhados e horizontes, cheios de nuvens:
“Pode se saber porque é que trouxeste um bicho como este para casa?”
O menino alça mais os ombros quando fala, com voz calma, segura e orgulhosa como a de um adulto:
“Mãe, este jacaré fui eu que matei.”
Alguns xingões depois, e o menino leva o jacaré morto e o joga fora.
Quando termina sua narrativa, adulto e uns sessenta anos depois, tudo é silêncio. Sua família já foi dormir, como a minha provavelmente também terá ido quando eu chegar em casa. A chuva agora é fina, como se compreensiva, não quebra o silêncio nem o ritmo lento dos gestos que se rendem ao ritmo das recordações, o mesmo ritmo respeitoso com que nos despedimos e sob o qual saio guiando o carro debaixo do céu oculto por ruas vazias duma cidade que é a capital do estado dos pampas, um lugar ao sul da própria América do Sul, em que certas narrativas que fazemos uns aos outros nos reconduzem para o ânimo certo, o estado de espírito atento, a consciência do mundo abrandada, as angústias serenadas, ou até dispersadas pelo contato com algo que somos nós e que nos ultrapassa, a grande noite, o horário, o prelúdio de sono satisfeito, tudo um pouco como palavra apaziguante e derradeira, salmo pacífico e oração interior.
Um calmo e ameno final, apenas e nada mais que amém, um meio sorriso à espera de aurora, o sono aureolado pelo silêncio dos demais aposentos, amaciado pelo sono familiar coletivo, nosso sono outra vez criança de quem frui – porque recorda.
Um meio sorriso à espera de aurora na grande cidade que sabemos cercada de campos ainda maiores, ponto em meio ao que é vasto, parte da paisagem maior, integrante de todo maior, em tempo e espaço adequado, memória de sentinela de suas histórias, que são as histórias de sua gente, e que até me fizeram esquecer de falar na velha história em quadrinhos do Príncipe Valente, ficando mesmo com a do menino valente, a história de uma aventura no pampa. Um verdadeiro título. Algo como aquele velho volume 3 da Coleção Terramarear, a qual, apesar dos desaparecimentos temporários, foi editada durante meio século, a última vez ainda nos anos oitenta.

(Escrito em Fevereiro/Março de 2007).




segunda-feira, abril 09, 2007

HIERARQUIAS, GOLPES E APAGÕES:

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília

Há muita hipocrisia no debate a respeito do apagão aéreo.
O buraco,creio, é mais embaixo.
Não, nem falarei da incompetência governamental.
Todos falam em “quebra de hierarquia”.
Governo e oposição se unem (oposição?).
Subjacente a tudo, camuflado, está um tremendo medo da caserna, pânico das botas-militares.
Todos falam de modo subserviente e “cheios de dedos.”
Lula, dos Estados Unidos, determina que se faça um acordo (assinado!) com os controladores de vôo, subordinados à Aeronáutica.
Volta, percebe a cara feia dos militares, e muda tudo.
Joga no lixo os acordos feitos, como despreza sua biografia.
Suas gestões, também pararão lá, nos entulhos da vida brasileira.
Ele é, constitucionalmente, Chefe Supremo das Forças Armadas.
Ele sabe disso?
O Ministro da Defesa, hierarquicamente, determina ordens aos comandantes militares.
Tais comandantes nunca absorveram a criação do ministério da Defesa.
O ministro, com medo, não enfrenta e não enquadra seus subordinados.
Homem de biografia honrada, poderia preservá-la: deveria renunciar ao cargo.
Nada disso. Aéreo, perde-se em declarações inócuas, não consegue verbalizar o que sente.
Mas quem, hoje, zela por biografias?.
Ele foi consultor-geral da República do governo de Jango.

QUEBRA DE HIERARQUIA
A mídia impressa chapa-branca e reacionária só toca nessa tecla. Os jornais televisivos também.
“Quebra da hierarquia.”
Ninguém exercita a memória.
QUEM QUEBROU A HIERARQUIA EM 64?
Quem derrubou o presidente João Goulart, o Jango, constitucionalmente presidente do Brasil com a renúncia do Jânio?
Foram os militares.
(A revolta dos sargentos, na época, foi mero pretexto.)
O General Mourão Filho, começando a quartelada em Minas (sempre ela...) definiu-se como uma “vaca fardada.”
Lendo os documentos na época e tendo vivido o momento como estudante de 20 anos, tentando resistir ao golpe, vejo que se alguns escalões militares tivessem reagido, mesmo moderadamente, até com um susto, um “pum”, o golpe não teria ocorrido. Mas são suposições. A História, como um pesadelo, não volta atrás.
O golpe ocorreu, durou 21 anos e seus esqueletos estão nos armários.

O BURACO DE QUE FALEI ESTÁ AÍ.
O acordo brasileiro sempre partiu de cima.
As “soluções” sempre vieram de cima: puro acordo das elites.
A aliança-democrática, o acordo tancrediano, o Colégio Eleitoral com a derrota das “Diretas Já”, a Nova República, fazem parte deste contexto.
Não mexer em nada, não tocar nos esqueletos, tentar estancar o sangue com simulacros de esparadrapos.
“Não pode! É revanchismo!”
É UMA ESPÉCIEDE UDENISMO TARDIO OU EPIGONAL.
Os torturadores não foram punidos. Os arquivos militares não foram abertos.
A Guerrilha do Araguaia parece ficção, como a do Vale da Ribeira.
A Argentina que teve – junto com o Chile – o Golpe mais sanguinário do Continente, enfrentou seus esqueletos: prendeu torturadores, puniu generais, revogou a lei da “Obediência Devida”, elaborada pelo governo corrupto de Menen.
Ela enfrentou seus fantasmas.
Aqui, como sempre: o faz-de-conta. Jogar a sujeira para debaixo do tapete.
Alguns presidentes, preferiram o beletrismo, escrevendo livros medíocres e gordurosos.
Era a Academia unida à ditadura.
Fardões, jaquetas, prebendas, bigodes.
Deu no que deu.
A impunidade triunfou.
O que acontece na delegacias desse Brasil é fruto dessa impunidade.
Não se toca mais os filhos da classe média branca.
Mas os danados da terra brasileira continuam apanhando.
Os negros, os desvalidos, os que não têm república que zele por eles.
Continuam sendo açoitados como na escravidão.
Nas humilhações de todos os dias, nos ônibus, nos postos de saúde, na filas do INSS, sofrendo nas mão de policiais e de traficantes.

Lógico, no apagão aéreo quem sofre é o passageiro.
Um senador paulista, com bigodes vastos, ar de galã de subúrbio, filho de militar, reforça: “A hierarquia não pode ser quebrada.”
Ele é do PT.
(Esse mesmo senhor dirigia o carro em que, depois de uma batida, no verão de 1982, morreu o grande líder estudantil e meu amigo querido, Luiz Travassos.)
A hierarquia sempre foi quebrada.
Sempre a favor dos mais fortes, dos donos do Brasil, desde as capitanias hereditárias.
O que faz o governo Lula é manter ou piorar o o legado da brutalidade, da desigualdade e da concentração de renda.
Não, não pedimos revolução.
Reivindicamos o arraigamento de valores éticos, semeando o terreno para que a impunidade não prosperasse mais. Para isso ele foi eleito. E não para ficar deslumbrado por encontrar reis e rainhas, em avião luxuoso, que não enfrenta apagões.
Sem tocar na ferida, sempre com truques, como os governos anteriores, só poderia piorar o dantesco quadro brasileiro.

SEMÂNTICA: Falta de memória?
O PFL mudou de nome. Agora é “Democratas.”
Crêem seu dirigentes e marqueteiros que, mudando o nome, mudarão a sua História?
Que todos esquecerão que foi o partido (ainda não com esse nome, mas Arena, PDS, foi zeloso serviçal da ditadura e fechou os olhos para todos os horrores cometidos contra os que a combateram.

Crêem que todos esquecerão.
Com programas imbecilizantes, em que o povo alimenta (fazendo ligações telefônicas) o caixa da maior rede televisiva (em uma ocasião, chegou a quase 40 milhões), segue a roda.
Crêem os marqueteiros e publicitários - que continuam “impondo” porcarias ao povo -, que nasce um otário a cada instante?
Sim, nasce.
Mas nem todos.
Marqueteiros e publicitários que, ganhando muito dinheiro, se acham gênios, pois fazem filmezinhos, com truque de câmera. Que o grande Orson Welles fazia há com muito mais talento há 60 anos, e Godard há uns 40.
Alguém lembrou Noam Chomsky e sua obra Manipulação dos Media – Os Efeitos Extraordinários da Propaganda” (Editorial Inquérito, 2003), onde ele diz:
“A PROPAGANDA ESTÁ PARA UMA DEMOCRACIA COMO CASSETETE ESTÁ PARA UM ESTATO TOTALITÁRIO.”

domingo, abril 01, 2007

HISTÓRIAS BRASILIENSES

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília

Na UnB, incendiaram um alojamento de estudantes africanos. Crime racial.
Talvez a notícia só saia num canto de jornal. Mas é preciso lembrar sempre. O projeto da Universidade de Brasília foi, talvez, o mais generoso e efetivamente sul-americano que já tivemos entre nós. A idéia era de "universalidade" e de vinculação com a nuestra América. (Talvez saibamos o nome do sabonete que Madonna usa, mas não conhecemos nem um pouco os índios desta América) Darcy Ribeiro, Paulo Emílio Salles Gomes, Nelson Pereira dos Santos. Conversas com Niemeyer, Lúcio Costa: foram as cabeças que idealizaram a UnB, e outros que não lembro agora.
Quero homenagear os esquecidos, os que colocaram tijolos, cimento, prego, massa, os que "fizeram" a universidade e nunca puderam pisar (depois) os pés naquilo que construíram. Lembro de um poema de Brecht: quem colocou as pedras nas pirâmides? Não foram os faraós. Talvez fosse algo bonito demais para durar.
Houve o Golpe de 64, expurgos , prisões, torturas, mortes, exílios. Um destes mártires inesquecíveis foi Honestino Guimarães, da minha geração. Então, o que aconteceu na UnB, não foi uma piadinha de mau-gosto, divertimento. Foi mais um crime contra um dos projetos mais belos e humanísticos que já inventaram para a universidade brasileira. E num progrma jornalístico, escuto um alto burocrata da UnB, confessar sua felicidade pois a administração da UnB tinha conseguido economizar um bom percentual na conta de luz da universidade. É a metáfora do Brasil e de sua universidade: medíocre, mesquinha, individualista, estúpida.
Mas a universidade não existe só por si, está num contexto. É "contaminhada" pela sociedade que, afinal, paga os seus custos. Com os faustões, as imbecilidades domingueiras, as analfabetas enriquecidas que comandam, diversos programas que infantilizam corações e mentes (além de empobrecer o cérebro); com as xuxas da vida; com a rede do "bispo", onde "Templo"é dinheiro; com os programações que estimulam o hiperindividualismo, a lei de Gérson, o desrespeito ao próximo, como o culto ao corpo perfeito e à mente vazia- além das revistas idiotasdecelebridades -, o que queríamos?
A ficção televisiva é apenas um manual de ensinamento de trambiques. Sim, pão e circo. Toda a direita não gosta que usemos o termo, debocham quando utilizamos; afirmam que a queda do muro de Berlim acabou com tudo isso: mas a palavra é alienação! A queda do muro tem virado um álibi para velhacos e patifes de todos os gêneros, como se gostássemos de muros.... Nosso inconsciente foi colonizado. Só restaria esta paisagem melancólica, medíocre, sem projeto, onde triunfam as celebridades vãs, os autores de auto-ajuda, que vibram com a idiotice geral, e crêem (com razão) que a cada minuto nasce um otário.
Mas isso não é motivo de abdicação. A literatura, quando o mergulho é profundo, é um caminho sem volta. Mesmo com o desinteresse dos editores, dos jornalões, dos "latifúndios" literários, há que continuar. Interessante o "feminismo" de certas pessoas. Acusam os outros de "machistas", dão declarações iradas, pedem penas para os homens, "quase todos maus". Mas uma ex-sexóloga, ex-deputada, agora ministra, não quer tirar o sobrenome do ex-marido, senador, porque sabe que os votos são dele. Coerência? Ela foi "fritada" pelo Lula, que não a queria perto; outra pessoa rejeitaria; mas a sede do poder fala mais alto), plastificada, petista soberba - quase tão arrogante quanto o stalinista caipira que até há pouco "mandava" no infausto governo -, rica, cheia de botox na cara, ex-alcaide; sim, agora ministra deste governo medíocre e mesquinho - que só vive de falação e de proteção aos banqueiros e usineiros (forte com os fracos, fraco com os fortes- um governo, repita-se sempre, de direita).
Esse é o feminismo tropical.
A universidade está cheia dessas pessoas com sede de poder, buscando chefias de departamento, omitindo ou desclassificando quem dela discorde. Dizem-se marxistas. Mas são pobres maquiavéis tropicais. E a prática é fascista. Não falo de toda universidade, é claro. Tem muita gente boa, trabalhadora e e digna. Vivem de teses. Um amigo meu, grande escritor, desconhecido, contou-me que uma ex-namorada, num arranca-rabo berrou: "Eu tenho tese e tu não..." E ele: "Prefiro tesão..." Capitalismo tupiniquim: sem risco para os grandes do "andar de cima":, usineiros (elogiados pelo Pequeno Napoleão, num deboche tremendo aos que sofrem nas plantações de cana- já escrevi sobre isso, mas é preciso repetir sempre, já que poucos escutam...), banqueiros (Proer) e as "oito a dez famílias", donas da mídia. esmo o pessoal dito de "esquerda" fica bem quietinho quando é convidado a escrever para os jornalões. Conseguindo uma "boquinha", se aquietam. Quem se lembra dos mensaleiros,`dos sanguessugas, da roubalheira geral?
Collor, quando passa pelos tapetes senatoriais, segue em comitiva, cheio de aduladores, é adorado, tocado, pedem autógrafos, e ele simula pose de estadista. Praticamente santificado... CPI do tráfego aéreo? O PT não quer. Um governo aéreo.
A teoria de alguns stalinistas encastelados no poder é a seguinte: o povo já sofreu muito. Vamos botar a classe média para penar. Sofrimento amplo, geral, irrestrito. (Não para eles, que viajam em jatinhos governamentais.) E uma poetisa, vaidosa, que adora holofote, que trabalhou em novelas, contrariou Cazuza e decretou:"Meus amigos estão no poder." Só se forem os dela... Perdoem o lamento: mas às vezes, nos monólogos noturnos, indago: de onde veio tanta resignação? De onde veio tanta impotência? De onde veio tanta capacidade de engolir sapos? Falo de nós todos.
O povo vietnamita enfrentou o maior exército ja visto na a terra, o mais poderoso, com arsenal enorme, o mais bem equipado tecnologicamente, dizimando com napalm tudo o que via, e ganhou a guerra. Destruíam pontes e o povo reconstruía. Todos os dias. Entendo quando um general americanano (sim, americano) comparou Giap com Aníbal. Nunca vira estrategista ou gênio igual. E tinha Ho Chi Min, Vo Giap.
Mais que isso, a luta de um povo ORGANIZADO para salvar sua pátria e seus valores da garras do império. Já haviam dado uma surra histórica nos franceses, em 1954. E lutaram contra outras invasões. Um carnaval, um futebol, uma novelinha, programas de auditório da pior espécie, uns telefonemas para palpites no programa dos "grande irmão" (aí as grandes redes simulam democratização e quem ligou acha-se muito importante...).
Alimentou o caixa da grande rede e pode dormir tranqüïlo. Brasil!!!