Alberto Crusius (Mise en scène) Oscar Kern (roteiro)- Porto Alegre
“Sois prisioneiros dos pampas”
Personagem de Emilio Salgari, em I prigioneri delle pampas
(Na coleção Terramarear, editada por Monteiro Lobato, com o título traduzido para o singular, O prisioneiro dos pampas.)
Tudo isso aconteceu há bastante tempo atrás, mas num lugar que quase nada mudou, exceto pelo fato de que a estrada está, há muito, concluída.
Afora, isto, a paisagem, como sempre quando se trata de grandes extensões de campo, permanece intocada.
O local? Ficava além de Guaíba, e quase na serra que fica à direita, onde havia aquela que foi a primeira propriedade gaúcha a criar exclusivamente búfalos, mais de uma centena deles, e que tão bem conheci porque era de meus pais.
Eu a teria chamado de Fazenda Mediterrânea, em homenagem à principal raça que criávamos, não fosse o protesto de meu pai diante do que achava ser uma extensão de terra muito pequena para ser chamada de Fazenda. Não passava de uma invernada, com denominação que homenageava nossas tradições folclóricas: Invernada Chimarrita.
Mas nossa história de hoje se passa noutra paisagem. Apesar de perto – se é que vinte ou quarenta quilômetros se pode chamar de perto – era noutra direção, na estrada que sai antes à direita, o entroncamento para Uruguaiana, como dizíamos, depois uma elevada, hoje chamada mais de trevo. O trevo para Uruguaiana. Era para lá de nossos critérios de cidade, onde os números tornam-se um nada na imensidão, vinte ou quarenta quilômetros, o dobro ou cem por cento a mais nada eram, porque era a visão que via e registrava.
É uma paisagem em que, como aquela no caminho para Pelotas, a superfície é plana: é o início do pampa, prenunciando os campos de Camaquã, aqueles que não tem elevações. Também na saída para Uruguaiana, pouco depois, o que vemos é o próprio pampa, porque as maiores elevações são, normalmente, apenas pequenos barrancos de verdes com altura pouco maior do que uma ou duas vezes um homem, e comprimento uma vez e meia maior. Falta apenas a rasura absoluta de Camaquã, onde todos os campos se fundiram no campo, o grande campo, o pampa aberto, a expressão física do que seja o conceito maior, o infinito. Minha memória excluiu as onduladas coxilhas, as suaves grandes ondas de verdes campos, como na vida excluímos as exceções que as contrariam no todo.
Eu ouvi a história – este tipo de estória é sempre, para mim, história, a verdadeira história, aquela vivida pela gente como você e eu, de vidas comuns – eu não a vivi, como no caso da Fazenda Mediterrânea.
Como eu a ouvi, bem, foi pura sorte, nada mais do que isso. Uma ida noturna ao amigo que mora no mesmo bairro, nalgum verão daqueles mágicos dos anos que, eles mesmos, falavam de amplidão, porque nos falavam de milênio novo, de história, a grande história, de numeração nova, de recomeço, duma chance para encontrar o que se perdera, o que não se sabia, e, mais ainda, aquilo que sequer se sabia perdido.
O veterano Oscar a contara para mim um pouco depois da chegada a seu escritório de aposentado cheio de álbuns de quadrinhos e livros policiais, uma estante só de livros de Machado – ele tinha aprendido como contar uma história com mestres reconhecidos, e aquele prêmio nacional como roteirista de histórias em quadrinhos confirmava o quanto ele tinha aprendido. O prêmio era dana mais nada menos do que o Ângelo Agostini! O Oscar das histórias em quadrinhos brasileiras, dissera alguém com fala jornalística. A reação do Oscar? Achava talvez imerecido, e pensava que teria sido mais adequado ele ganhar o prêmio como editor de sua revista editada em fundo de quintal, no pólo sul do mundo brasileiro, onde até revistinha de Disney só é distribuída depois de recolhida no resto do Brasil. E, no entanto, ele lançara gente dali para o resto do mundo. Eu mesmo fora editado na Europa depois de roteirizar uma tira de quadrinhos humorística para ele próprio.
Falei do mestre maior da digressão, Machado, e parece que lhe repeti a mania. Volto ao nosso tema deste relato. A língua que falamos traz sempre a memória de seus melhores autores na tocaia. Vamos ao que me levara ao Oscar.
Eu fora lá, em verdade, porque naquele verão uma de nossas mais admiradas sagas dos quadrinhos, com tema de saga medieval mesmo, completava seus setenta anos, e eu queria lembrá-lo disso, ou sobre isso com ele conversar enquanto estivéssemos no ano da bela data.
Quando dois amigos quadrinistas se encontram, a memória acende, e, como fogo fátuo, corre atrás do pensamento, querendo voltar à vida, aproximando-se, pela garupa, do tempo atual, meio que exigindo atenção, aliás, meio que completamente, como se dizia.
Memória, teu nome é história, uma única história que seja, mas uma história boa de ouvir e boa de contar.
Oscar começava a narrar aquilo de forma exata.
“Meu pai era capataz da estrada no tempo em que ela estava sendo construída.”
Quem vai querer deixar de ouvir o resto de uma história que começa assim, com uma única frase que nos fala de tempos lançados no passado de mais de meio século, onde há um pai e um filho no meio do pampa, lá pros lados dum nome como o mero início do caminho para Uruguaiana, o que lembra Uruguai mas não ainda não é, o que faz parte da história porque construiu uma estrada pela qual hoje se passa veloz e silente, em carros que, por mais que corram, nos dão sempre a consciência de que certamente parecemos moscas vistos lá de cima, deste céu azul, em tempos de vistas aéreas, que este executivo tanto apreciava nas poucas viagens que ainda não tinha suficiente status para evitar com alguns telefonemas de palavras cuidadosamente utilizadas.
Sei hoje o quanto, lá de cima, mesmo em momentos de aproximação do solo para a ainda distante mas, no tempo, próxima aterrissagem, somos moscas que se arrastam sobre a linha preta do asfalto que lá dos altos e das nuvens altaneiras ficará certamente reduzido a um fio preto no meio do verde imenso, lá de onde os grandes açudes não brilham em grandes faíscas, mas cintilam como pequenos espelhos num presépio de grande colcha verde cuidadosamente esticada, onde poucas são as curvas do tecido, abrandadas pela visão da altura.
Pois ali, e por perto de algum daqueles grandes açudes, o velho Kern, pai do narrador que me contava a história de tempos de garoto, era o capataz da grande obra que vinha do longe e se projetava para o ainda muito mais longe, cortada no vermelho alaranjado mas mesmo assim meio sangrento de onde ia para o horizonte, e sendo recoberta pelo preto do asfalto, aliás, preta desde antes do asfalto, que aquela terra é boa, eu me enganei.
E o menino Kern olha aqueles açudes e está no pampa, vê a água grande, lisa como um espelho, mas um espelho imenso, imenso e muito manso, liso, onde se pode ver um rosto e até a alma da gente olhando daquele outro mundo que a gente não sabe o que é, feito daquilo que mais sobra na natureza, a imagem, tem imagem até do que não existe, o contra-céu refletido nos açudes, as nuvens flutuando em superfícies abissais que não existem, ilusão? Nada disso, realidade. Imagem, matéria prima do encantamento.
Quando ele está me narrando isto, uma rápida chuva bate no telhado, e na parreira ao lado da garagem para onde fica a porta aberta de seu escritório, uma chuva de verão, estalando seus pingos com selvajaria certa e faceira sobre as grandes folhas verdes balançando como pautas acolhendo o respingo das notas, e nos forçando a um pequeno silêncio, um entreato típico das narrações de histórias de campanha e grandeza de espaços, o silêncio que a assombração do tempo antigo, no retorno, faz instalar com perfeição, recortado em suas bordas sonoras pelo ruído agudo e breve dos pingos de chuva martelando seu ritmo no escuro verdor das folhas que a noite não mais nos permite enxergar.
Não a campanha não é apenas Santana do Livramento e Uruguaiana, a campanha, a terra dos grandes campos, começa muito antes. Só quem, como eu, viu nossa capital do alto da serra de Guaíba, dos altos do Matias, sabe isso com perfeição, porque viu o branco dos edifícios de Porto Alegre tornados minúsculos pela distância, a cidade reduzida a um brinquedo de criança, capaz de caber em nossos braços, senão em nossas mãos, o rio um contorno cheio ao seu redor, pelo menos enquanto não se tratar de uma vista aérea, porque o rio Guaíba lá embaixo se agiganta quando a cidade está à mesma distância da aeronave que baixa em demanda do solo e do pouso, não é a mesma coisa que a visão da serrinha de Guaíba (“Seio das águas”, em língua dos antigos habitantes do mapa, índios).
Certa vez, achei que a cidade, lá longe, os edifícios brancos como lápides a brilhar no meio dos campos da eternidade, era o pequeno cemitério onde, formigas, nem aparecíamos vistos do alto dos gigantes deitados, adormecidos, que eram os cumes verdes e calmos da serrinha.
Nosso pensamento está, todo ele, ainda lá no longe, perdido das verdes canhadas, verdes mares bravios do campo quase sem ondulações, que os temporais mesmo não acirram em fúria. Sempre a calma, a calma para sempre e para nunca que os pequenos por vezes detestam, o enjôo do pampa, o sono imemorial dos sentidos, que precisam do espoucar selvagem da caçada, da carreira de cancha, ou pelo menos da pescaria de algo grande, do alarido do peguei, da exclamação diante do tamanho do bicho fisgado. Nem sempre um peixe...
E num dia de calor, o pequeno Oscar sai com pequenos pedaços de pulmão de gado como isca, comprados em açougueiro.
Porque aquilo que o garoto vai procurar pescar é aquilo que comparece em nossa linguagem e nossas narrativas em palavra por si mesma um alerta surpreendido: jacaré.
2
Jacaré, gente.
Jacaré de verdade.
Caçava-se jacaré a laço nos banhados, comentava meu falecido pai, narrando coisas lá de Cachoeira, da fazenda do velho Noca, onde passava o verão como em sonho, o sonho que a narrativa do Oscar agora adulto contém, transformado mais uma vez em realidade, o sonho de todo menino gaúcho, de uma aventura, de qualquer aventura, mas de uma aventura no pampa. Uma queda do cavalo, uma cascavel de que se escapou por pouco, uma jararaca que se matou a relho, batendo firme e rápido para que ela não tenha o tempo para se enroscar e dar o bote, um laço de couro que carregava o irmão mais jovem coxilha abaixo e que conseguimos deter, uma lida desastrada qualquer de que se saiu ileso.
Quem diria, mais ainda, a aventura de pegar um jacaré. Um jacaré que se laçou, ou que se pescou.
Como se pesca jacaré?
Ora, mas que presunção, como assim, “se pesca”, não existe isso, um hábito de pescar jacaré, uma conduta social, um comportamento partilhado e transformado em tradição ou ritual.
O menino teve que pensar em como fazer.
Os pedaços de pulmão flutuam na água. A linha, ora, a linha é amarrada numa árvore.
“Porque assim, quando o jacaré morde a isca, e procura se afastar, a árvore o puxa para fora.”
Sim, mais uma vez e sempre aqui aspas, nada de travessão, pois são palavras literalmente transcritas. Leia sempre um texto até o fim antes de reclamar dele.
Sônia (“a patroa”, costuma dizer, ridente, brincando com a tradição, e, claro, efetivando o afeto), sua mulher, entra neste instante com benvindas pipocas e refrigerante.
Quando sai, Oscar prossegue sereno sua narrativa, o olhar um pouco para cima, como uma foto de Jorge Luis Borges, olhando para nada e portanto para aquilo que é tudo, o que está dentro de nós e volta, assomando e vencendo as décadas passadas, vindo de remotos dez, vinte, trinta, quarenta, quem sabe sessenta anos atrás, o que paira um pouco acima de nós, por estar acima do agora, e faz o olhar ficar neutro porque voltado para dentro, para a luz real que anima e dá contornos ao que se narra porque se enxerga com a nitidez daquelas manhãs cristalinas e meio-dias modorrentos, em algum açude afastado da gritaria, dos ruídos, e do cheiro do betume que será asfalto sendo vertido quente, fumaçento e líquido, para a estrada já empedrada na base.
“E quanto mais ele morde e engole, mais é puxado para fora da água pela árvore que se inclina para a frente e de repente dá aquele salto para trás.”
E assim, em meio aos maricás cheios de espinhos cortantes, o bicho, aos poucos, emerge, as patas enlameadas escorregando sobre o verde das margens quase sem areias, como é comum nos açudes, e o menino avança com uma grande pedra.
Respiração diminuída, ouço o resto sem poder falar. O jacaré é morto a pedradas.
Tudo isto estaria terminado, não estivesse o melhor da festa ainda a caminho.
Sim, senhor, a caminho, a caminho de casa.
O menino se dirigiu para casa levando sobre o ombro o jacaré caçado e morto.
Já em casa, a mãe do menino o interpela.
A razão é óbvia. Horrorizada com o bicho, apavorada com o risco, recorre à melhor figura de linguagem para encontrar um diálogo entre a velha senhora pacata e o guri criado em meio aos campos, banhados e horizontes, cheios de nuvens:
“Pode se saber porque é que trouxeste um bicho como este para casa?”
O menino alça mais os ombros quando fala, com voz calma, segura e orgulhosa como a de um adulto:
“Mãe, este jacaré fui eu que matei.”
Alguns xingões depois, e o menino leva o jacaré morto e o joga fora.
Quando termina sua narrativa, adulto e uns sessenta anos depois, tudo é silêncio. Sua família já foi dormir, como a minha provavelmente também terá ido quando eu chegar em casa. A chuva agora é fina, como se compreensiva, não quebra o silêncio nem o ritmo lento dos gestos que se rendem ao ritmo das recordações, o mesmo ritmo respeitoso com que nos despedimos e sob o qual saio guiando o carro debaixo do céu oculto por ruas vazias duma cidade que é a capital do estado dos pampas, um lugar ao sul da própria América do Sul, em que certas narrativas que fazemos uns aos outros nos reconduzem para o ânimo certo, o estado de espírito atento, a consciência do mundo abrandada, as angústias serenadas, ou até dispersadas pelo contato com algo que somos nós e que nos ultrapassa, a grande noite, o horário, o prelúdio de sono satisfeito, tudo um pouco como palavra apaziguante e derradeira, salmo pacífico e oração interior.
Um calmo e ameno final, apenas e nada mais que amém, um meio sorriso à espera de aurora, o sono aureolado pelo silêncio dos demais aposentos, amaciado pelo sono familiar coletivo, nosso sono outra vez criança de quem frui – porque recorda.
Um meio sorriso à espera de aurora na grande cidade que sabemos cercada de campos ainda maiores, ponto em meio ao que é vasto, parte da paisagem maior, integrante de todo maior, em tempo e espaço adequado, memória de sentinela de suas histórias, que são as histórias de sua gente, e que até me fizeram esquecer de falar na velha história em quadrinhos do Príncipe Valente, ficando mesmo com a do menino valente, a história de uma aventura no pampa. Um verdadeiro título. Algo como aquele velho volume 3 da Coleção Terramarear, a qual, apesar dos desaparecimentos temporários, foi editada durante meio século, a última vez ainda nos anos oitenta.
(Escrito em Fevereiro/Março de 2007).