NOVA TRADUÇÃO BRASILEIRA DA ODISSÉIA
Alberto Crusius- de Porto Alegre
Um professor universitário porto-alegrense realizou mais uma tradução da Odisséia do grego para o português em que, segundo a notícia em jornal, em 20 de junho deste 2007, uma das características foi o uso de “expressões coloquiais e termos regionalistas.”
Entre eles, ainda segundo a notícia, estariam expressões como “Guascaços de água arrombaram as paredes”, e também “forraram a pança.”
Realmente, em termos de Rio Grande do Sul, ensinava-nos o especialista em folclore Paixão Cortes, há expressões como forraram o poncho, decorrente do hábito de se colocar o poncho sobre o chão no local de corridas de cavalos, as chamadas carreiras de cancha reta, e depois se colocar sobre ele o produto da aposta.
Que são termos regionalistas legítimos, ninguém questiona.
O que se questiona é, em primeiro lugar, a originalidade. Uma tradução aqui feita de Guerra e Paz (a sugestão de que o uso do itálico para grafar títulos tenha apenas a palavra inicial com maiúscula é, para mim, inaceitável nesse caso em que as duas palavras devem ter o mesmo peso) já falava em coisas como cavalos tordilhos, e em piquetes de baios.
É muito comum encontrar nos sebos deste sul a edição de 1957, mas ela é uma de várias reimpressões. A primeira edição desta antiga tradução de Guerra e Paz feita por Gustavo Nonnenberg a partir de outra francesa, é de setembro de 1942.
Acrescente-se a informação da própria reportagem de que já existem outras traduções diretas do grego da Odisséia no Brasil.
Sem questionar, lembramos ainda que o mesmo tradutor atual da Odisséia, quando traduziu parte de Finnegan´s Wake, usou como título a palavra Panaroma, sem que pelo menos a reportagem de então mencionasse que tal “palavra” já havia sido usada por outros dois tradutores, irmãos, que haviam desbravado inicialmente o caminho em conjunto.
O que se questiona em segundo lugar é o próprio fato. Se a moda pega, um dia vamos ler, nalguma tradução nordestina, Ulisses – ou Odisseu, se preferirem a forma grega – chegando a outras praias a caminho de casa recebendo os nativos saudando desde as ondas, com uma expressão muito grata para ouvidos que apreciam nossos diversos regionalismos, mas que ficará, convenhamos, deslocada, no contexto, até o cômico:
- O, xente.
Ficaria também muito curioso se, ao sabor do nosso uso antigo daqui, nos pampas, em contrpartida recebessem Ulisses – ou Odisseu, dependendo da forma do nome escolhida, respondendo:
- Se chegue, compadre.
Então, que se faça de uma vez um Odisseu regionalista, a exemplo do Fausto gauchesco argentino, de Estanislao del Campo, ou do conto Fidêncio Quixote de nosso Darci Azambuja, ora.
Em tempo: declaro, para os devidos fins, que a expressão “saudando desde as ondas”, acima utilizada, ocorreu-me ao escrever isto. É que, em tempos de tanta liberdade tradutória, eu arresolvi também colaborar no livre-traducionismo criativo, em que se escolhe algo pela sua sonoridade, sem que ele exista, necessariamente, no original.

