domingo, abril 01, 2007

HISTÓRIAS BRASILIENSES

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília

Na UnB, incendiaram um alojamento de estudantes africanos. Crime racial.
Talvez a notícia só saia num canto de jornal. Mas é preciso lembrar sempre. O projeto da Universidade de Brasília foi, talvez, o mais generoso e efetivamente sul-americano que já tivemos entre nós. A idéia era de "universalidade" e de vinculação com a nuestra América. (Talvez saibamos o nome do sabonete que Madonna usa, mas não conhecemos nem um pouco os índios desta América) Darcy Ribeiro, Paulo Emílio Salles Gomes, Nelson Pereira dos Santos. Conversas com Niemeyer, Lúcio Costa: foram as cabeças que idealizaram a UnB, e outros que não lembro agora.
Quero homenagear os esquecidos, os que colocaram tijolos, cimento, prego, massa, os que "fizeram" a universidade e nunca puderam pisar (depois) os pés naquilo que construíram. Lembro de um poema de Brecht: quem colocou as pedras nas pirâmides? Não foram os faraós. Talvez fosse algo bonito demais para durar.
Houve o Golpe de 64, expurgos , prisões, torturas, mortes, exílios. Um destes mártires inesquecíveis foi Honestino Guimarães, da minha geração. Então, o que aconteceu na UnB, não foi uma piadinha de mau-gosto, divertimento. Foi mais um crime contra um dos projetos mais belos e humanísticos que já inventaram para a universidade brasileira. E num progrma jornalístico, escuto um alto burocrata da UnB, confessar sua felicidade pois a administração da UnB tinha conseguido economizar um bom percentual na conta de luz da universidade. É a metáfora do Brasil e de sua universidade: medíocre, mesquinha, individualista, estúpida.
Mas a universidade não existe só por si, está num contexto. É "contaminhada" pela sociedade que, afinal, paga os seus custos. Com os faustões, as imbecilidades domingueiras, as analfabetas enriquecidas que comandam, diversos programas que infantilizam corações e mentes (além de empobrecer o cérebro); com as xuxas da vida; com a rede do "bispo", onde "Templo"é dinheiro; com os programações que estimulam o hiperindividualismo, a lei de Gérson, o desrespeito ao próximo, como o culto ao corpo perfeito e à mente vazia- além das revistas idiotasdecelebridades -, o que queríamos?
A ficção televisiva é apenas um manual de ensinamento de trambiques. Sim, pão e circo. Toda a direita não gosta que usemos o termo, debocham quando utilizamos; afirmam que a queda do muro de Berlim acabou com tudo isso: mas a palavra é alienação! A queda do muro tem virado um álibi para velhacos e patifes de todos os gêneros, como se gostássemos de muros.... Nosso inconsciente foi colonizado. Só restaria esta paisagem melancólica, medíocre, sem projeto, onde triunfam as celebridades vãs, os autores de auto-ajuda, que vibram com a idiotice geral, e crêem (com razão) que a cada minuto nasce um otário.
Mas isso não é motivo de abdicação. A literatura, quando o mergulho é profundo, é um caminho sem volta. Mesmo com o desinteresse dos editores, dos jornalões, dos "latifúndios" literários, há que continuar. Interessante o "feminismo" de certas pessoas. Acusam os outros de "machistas", dão declarações iradas, pedem penas para os homens, "quase todos maus". Mas uma ex-sexóloga, ex-deputada, agora ministra, não quer tirar o sobrenome do ex-marido, senador, porque sabe que os votos são dele. Coerência? Ela foi "fritada" pelo Lula, que não a queria perto; outra pessoa rejeitaria; mas a sede do poder fala mais alto), plastificada, petista soberba - quase tão arrogante quanto o stalinista caipira que até há pouco "mandava" no infausto governo -, rica, cheia de botox na cara, ex-alcaide; sim, agora ministra deste governo medíocre e mesquinho - que só vive de falação e de proteção aos banqueiros e usineiros (forte com os fracos, fraco com os fortes- um governo, repita-se sempre, de direita).
Esse é o feminismo tropical.
A universidade está cheia dessas pessoas com sede de poder, buscando chefias de departamento, omitindo ou desclassificando quem dela discorde. Dizem-se marxistas. Mas são pobres maquiavéis tropicais. E a prática é fascista. Não falo de toda universidade, é claro. Tem muita gente boa, trabalhadora e e digna. Vivem de teses. Um amigo meu, grande escritor, desconhecido, contou-me que uma ex-namorada, num arranca-rabo berrou: "Eu tenho tese e tu não..." E ele: "Prefiro tesão..." Capitalismo tupiniquim: sem risco para os grandes do "andar de cima":, usineiros (elogiados pelo Pequeno Napoleão, num deboche tremendo aos que sofrem nas plantações de cana- já escrevi sobre isso, mas é preciso repetir sempre, já que poucos escutam...), banqueiros (Proer) e as "oito a dez famílias", donas da mídia. esmo o pessoal dito de "esquerda" fica bem quietinho quando é convidado a escrever para os jornalões. Conseguindo uma "boquinha", se aquietam. Quem se lembra dos mensaleiros,`dos sanguessugas, da roubalheira geral?
Collor, quando passa pelos tapetes senatoriais, segue em comitiva, cheio de aduladores, é adorado, tocado, pedem autógrafos, e ele simula pose de estadista. Praticamente santificado... CPI do tráfego aéreo? O PT não quer. Um governo aéreo.
A teoria de alguns stalinistas encastelados no poder é a seguinte: o povo já sofreu muito. Vamos botar a classe média para penar. Sofrimento amplo, geral, irrestrito. (Não para eles, que viajam em jatinhos governamentais.) E uma poetisa, vaidosa, que adora holofote, que trabalhou em novelas, contrariou Cazuza e decretou:"Meus amigos estão no poder." Só se forem os dela... Perdoem o lamento: mas às vezes, nos monólogos noturnos, indago: de onde veio tanta resignação? De onde veio tanta impotência? De onde veio tanta capacidade de engolir sapos? Falo de nós todos.
O povo vietnamita enfrentou o maior exército ja visto na a terra, o mais poderoso, com arsenal enorme, o mais bem equipado tecnologicamente, dizimando com napalm tudo o que via, e ganhou a guerra. Destruíam pontes e o povo reconstruía. Todos os dias. Entendo quando um general americanano (sim, americano) comparou Giap com Aníbal. Nunca vira estrategista ou gênio igual. E tinha Ho Chi Min, Vo Giap.
Mais que isso, a luta de um povo ORGANIZADO para salvar sua pátria e seus valores da garras do império. Já haviam dado uma surra histórica nos franceses, em 1954. E lutaram contra outras invasões. Um carnaval, um futebol, uma novelinha, programas de auditório da pior espécie, uns telefonemas para palpites no programa dos "grande irmão" (aí as grandes redes simulam democratização e quem ligou acha-se muito importante...).
Alimentou o caixa da grande rede e pode dormir tranqüïlo. Brasil!!!

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Meu Querido Emanuel. Sempre te leio com carinho e amizade porque creio nas mesmas coisas que tu. Acredito nesta mesma luta. Refuto os mesmos inimigos do povo. Admiro os mesmos amigos do povo. Luto de quase igual maneira, inclusive dentro e contra os embustes dos burocratas azedos de nossas Universidades. Tambem elevo a minha indignação aos reiterados criminosos da UnB, que já queimaram Índios nas suas ruas, e agora, contra os nossos amigos africanos. Esses incendiários não diferem daqueles outros.
Espero que te chegue ou que faça parte dos comentários.
Segue, de qualquer forma, com o meu abraço fraterno.
Gerônimo (Fpolis) SC, BR.

1:04 PM  

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