segunda-feira, março 26, 2007

HISTÓRIAS DO BRASIL

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília



O Anjo da Morte já foi embora. O Nosso Pequeno Napoleão, vestiu a roupa da sabujice, da vergonhosa adulação e da subserviência, com o seu ego inflado pelos áulicos palacianos e por parcela da mídia chapa-branca. Nosso desafortunado presidente quer porque quer que o Brasil integre o Conselho de Segurança da ONU. E ele, para "salvação" da humanidade, seria o secretário-geral... Crê-se uma figura iluminada, vindo ao mundo para salvá-lo. Numa mistura de onipotência com crassa ignorância, só vê e ouve o que quer. E se é contrariado, humilha o assessor e só diz palavrões (em particular). Suas falas diárias são cada vez piores, mais cheias de platitudes, lugares-comuns que infantilizam ainda mais a mente dos brasileiros. Enfim, discursos que beiram à idiotia. São insuportáveis com suas imagens futebolísticas ou eróticas. Tão intragáveis como o óleo de rícino, que mamãe dava na infância para limpar nossos intestinos. (E a literatura, Emanuel, e a literatura?, indaga uma voz interior.) O que Bush/Lula querem é que nos transformemos em um grande plantação de cana-de-açúcar. Como alguém detectou, o risco desse projeto é voltarmos aos primórdios do século 16, "quando a monocultura dessa mesma commodity engessou nosso crescimentos por séculos". (...) A visita do Anjo da Morte, como disse alguém, faz parte de um "road show". Marca-se presença, há declarações vazias e meramente protocolares, afagos carregados de dissumulação ("diplomacia"), declarações ocas sobre democracia, assinaturas de contratos vagos e que nunca vingarão ou serão cumpridos. Isso não é novo. É sempre assim. E Bush diz claramente: não baixará as tarifas impostas aos produtos brasileiros que chegam ao Império. Sim: é a lógica do colonizador. Outros já perceberam: o foco da visita de Bush é de natureza geopolítica. Escreve Reinaldo Gonçalves: "O primeiro fato relevante é que o Brasil ocupa posição secundária ou terciária na agenda de política externa estadunidense. A docilidade de Lula rebaixa o Brasil na agenda externa do EUA. (...) É claro. Bush sai do país sem se comprometer. No caso do Brasil, o açúcar (álcool), a soja e outros produtos primários, como complementou Gonçalves, implicam na degradação ambiental e na consolidação de estrutura de produções retrógradas. É nesse processo de expansão das exportações agrícolas que Lula - crê Gonçalves - está apostando o futuro do país. E a literatura? E Lula elogia os usineiros. Chama-os de heróis. Isso é um verdadeiro escárnio ao trabalhadores de cana, que vivem num regime de semi ou de clara escravidão. Um deboche às mãos que trabalham 14 horas por dia, sem direitos, sem garantias, humilhados, mal-pagos e, muitas vezes, espancados. Resumindo: a presença de Lula no poder é um dos maiores retrocessos que o país já teve. E um desafortunado e ultra-vaidoso ex-alcaide de Porto Alegre acha que esse é um governo de esquerda... (Esse senhor crê que é um pensador profundo, verdadeiro Gramsci... Pobre homem!) Pobre Brasil! Esse atual ministro subestima a nossa inteligência. o que ele ama mesmo é o poder e os palácios.) A herança, como a anterior, herdada do "Patriarca da Dependência" (FHC), também será maldita. E a longo prazo estaremos todos mortos... Para recuperar esse tempo, novamente haverá o sacrifício de gerações, como imposto a mim e a muitos brasileiros pelo Golpe de 64. E Lula e Collor se confaternizam. Riem juntos. No fundo, são muito parecidos. Origem não significa nada. Caráter sim. Collor fala no Senado, horas a fio, teatraliza como ator de segunda, manipula emoções, engana os membros de uma das mais infelizes legislaturas que o Brasil já teve (na chamada Câmara Alta, que já teve, entre seus membros, Darcy Ribeiro). Um suplente, sem nenhum voto (outra excrescência brasileira: alguém assumir um mandato sem nenhum voto popular) - o titular é um "amigo" e antigo funcionário da Rede Globo - acredita que o "sacrifício" de Collor foi o "sacrifício" de uma geração... Parecia falar de um Che Guevara de Alagoas, amigo dos usineiros.... Meu Deus! Quanta falta de memória! E isso ocorreu há 15 anos. Cobri a chamada "CPI do Collor" para o "Jornal da Câmara." Memória eu tenho. Os inquisidores eram impiedosos. Talvez, esses "torquemadas", agora no poder e no partido dominante, tenham corado, ficado envergonhados pelo que fizeram ou fazem, e devem achar o mal feito pelo defensor dos usineiros de Alagoas, mera brincadeira de escoteiro...
E a literatura? Como consolidar nesse universo fragmentário, despedaçado, onde tudo parece descartável, vazio, mesquinho, sem memória, no qual busca-se o prazer imediato, a celebridade fácil, uma ficção forte densa, que ultrapasse o mero naturalismo? Um conto/novela/romance que não caiam no neo-paransianismo oco nem no panfletarismo fácil. Optamos por um ofício. E se o levamos a sério, como prática diária, e não opção que busque prebendas ou glórias acadêmicas, é preciso - como diziam - estar atento e forte. Sem auto-comiseração. Mas com firmeza e talento. É preciso inventar algo digno, esteticamente valioso. É um desafio. Escolhemos um caminho. Não tem sombra nem água fresca. Vamos tentar? Mesmo que o parto seja árduo, é preciso pegar na flecha. Aceitar no alvo é conseqüência. Sim, tudo isso gera cansaço, nojo, resignação ou impotência. Mas o pessimismo é desmobilizador e encolhe a iluminação criativa. Nivelar todo mundo por baixo só favorece os patifes. Mas de tudo isso - do gosto de fel e vinagre, da destruição de um país, desse ilhamento todo -, quem sabe, possa ser gerado algo belo, que dignifique a todos nós e a literatura brasileira. Peço perdões - motivos relevantes (cirurgia) - por não ter tratado mais cedo da vinda ao Brasil do Anjo da Morte, o marechal texano, o representante provisório doi Império. A reflexão pode parecer superada. Mas isso não é jornalismo. Não creio que perca a validade. "Viva a morte, abaixo a inteligência", berrava um general fascista na Guerra Civil Espanhola. Não: viva a vida e a criação! Sempre!

segunda-feira, março 12, 2007

MEYER,MACHADO, CARROLL, BORGES...



Alberto Crusius –Porto Alegre


(...)`Such a
trial, dear
sir, With
no jury
or judge (...)

(Alice in Wonderland)


Surpreendi-me quando me solicitaram obter série de frases para uma reedição de obra do Machado de Assis, de Augusto Meyer, com o que pensaram algumas das grandes personalidades literárias brasileiras sobre o último, em obra para a qual me solicitaram ainda um posfácio.
Grande Augusto Meyer, como o chamou ninguém mais nem menos do que Monteiro Lobato. Grande poeta, acrescentou Mário de Andrade. Não só grande poeta, como grande crítico, emendou Manuel Bandeira.
A poesia de Meyer ganhou adeptos muito respeitados, tais como Vinícius de Morais, que o selecionou para uma antologia argentina com o que considerava nossos grandes nomes. Dela, Carlos Drummond de Andrade afirmou: poesia grave que tem uma doçura meditativa e busca as essências.
Literatura e Poesia, única obra de poemas de Meyer que não utilizava o verso como forma, mereceu de Mário de Andrade comentário entusiasmado: A meu ver, um dos melhores livros de poemas em prosa. Recordo ainda outra frase do admirado Mário a propósito de Meyer: O melhor poeta lírico brasileiro.
São imagens que referem uma idéia de grandeza, e também a respeito de sua crítica: A grandeza dos Leo Spitzer, Dámaso Alonso, Erich Auerbach, e, entre nós, dos Augusto Meyer e Eugênio Gomes, sentenciou Fausto Cunha. Uma das maiores figuras literárias da língua portuguesa, entusiasmava-se o Érico Veríssimo com o qual Meyer, às vezes, era bastante duro. O letrado por excelência, definia Álvaro Lins. O nosso Erasmo, extasiava-se Alceu Amoroso Lima. Não sei de quem escreva, no Brasil, com mais elegância e, ao mesmo tempo, naturalidade, afirmou Antônio Cândido.
Otto Maria Carpeaux postulava, queixoso, a respeito da obra poética de Meyer, cuja interrupção em plena década de cinqüenta freou conhecimento mais amplo por parte do público, talvez não tenha sido bastante apreciada. O alerta afinava com os apreços de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais citados. E, sobre Meyer como ensaísta, anotava, conciso, o que terminou por se tornar geral consenso: Começa nova época da crítica machadiana.
Tudo isso sem falar no estarrecido testemunho pessoal de Alexandre Eulálio, secretário pessoal de Meyer, ouvindo pessoalmente de Jorge Luis Borges em Buenos Aires, que o mesmo afirmava, literalmente, conhecer a obra de Augusto Meyer, e que ela não poderia ser ignorada, quando fora obter autógrafos de Borges para este e familiares.
Assim, sempre foi um grande impacto, para mim, ler, logo ao início de seu, desde o título mesmo, circunspecto À sombra da estante, seu primeiro livro de ensaios sobre literatura universal – os anteriores eram específicos, aquele sobre Machado e outro sobre regionalismo – o que segue, ainda na primeira página, sobre o ato da leitura: “No tapete voador, só há lugar para dois passageiros: leitor e autor.”
E praticava o que afirmava: Havia um ensaio intitulado “Do leitor”, outro “Do autor”. Do crítico? Nada. Aliás, idêntico é o comportamento em Borges, por exemplo no This Craft of Verse, de 1967, editado em 2000, de que li a tradução brasileira, Êsse ofício do Verso, de José Marcos Macedo, editada pela Companhia das Letras em 2001. Borges refere-se antes de mais nada, a “uns poucos críticos como eu...” Adiante, tenta definir-se: Tenho para mim que sou essencialmente um leitor”. Também adiante, esclarece: o que significa ser um escritor para mim? Significa simplesmente ser fiel à minha imaginação.” De passagem, aludira: “A felicidade, quando se é leitor, é freqüente.”
Só longos anos, e livros depois, o termo crítico foi utilizado por Meyer.
Hoje, entretanto, eu entendo o que me chocara quando, adulto, passara a ler o livro, que ele, Meyer, meu tio-avô, autografara para sua mãe, minha bisavó, tão intrincado para quem ainda infante vira brilhar aquele ouro de lombada na encadernação ostentando o tão sisudo título que À sombra da estante parecia para mim.
Num velho armário de livros infantis, dois lances de escada mais abaixo do mesmo casarão intacto, com ligeiras alterações, na Marquês do Pombal, mas vagarosamente se decompondo, em meus sonhos saudosos, com o pior dos terrores, o do tempo real, eu vira, ainda antes, algo que me encantara profundamente, e que nunca mais larguei como devoção e relíquia.
Era a tradução de Monteiro Lobato, de 1930, intitulada “Alice no país dos Espelhos” para o Trough the Looking Glass que Charles Lutwidge Dodgson escrevera sob o pseudônimo Lewis Carroll em 1872.
Fascinava a criança que eu era, talvez mais do que tudo, o quase final de uma só linha, quando, após Alice sacudir a gatinha, ao despertar do sonho, encontrávamos o

“Capítulo XI

Miau! Miau!

...e realmente a Rainha-boneca virou num gatinho.”

O título original do capítulo era, em Dodgson, Waking, despertando. A linha única de conteúdo do capítulo era “...and it really was a kitten, after all”.
Da tradução de Lobato, em 1930, no belo livro encadernado originalmente, em bela capa azul escura, até uma tradução editada em 1978, da respeitável Europa-América, a licença poética em prosa não mudou muito. O título, nessa tradução portuguesa, está traduzido por O Despertar. O texto, por “...e afinal era mesmo uma gatinha.”
Mais tarde, adolescente e depois adulto, lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas, eu me deliciava, secretamente, com o final do capítulo VII, o Delírio, quando o narrador, em seu sonho, vê que “...um nevoeiro cobriu tudo, - menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era, efetivamente, um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...”
Ora, capítulo de uma só linha, como o de Dodgson, se quiserem, é, também, o CXXXVI, do mesmo Brás Cubas, intitulado Inutilidade, e que se resume a: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.”
Inútil, não, meu caro velho bruxo ápice de nossa literatura. Você sempre dava pistas.
Deu uma pista a mais sobre um dos mais atormentados e discutidos (literalmente) capítulos da nossa literatura.
Escrevi há muito tempo que o Delírio de Brás Cubas era quase uma imagem literal da concepção de Spinoza sobre a natureza, que estudávamos em aula. Meyer, que já abordara o tema Spinoza em Machado muito antes de mim, além de lembrar o poema a Spinoza concordara comigo num diálogo pessoal.
Mas nenhum de nós mencionou nunca o Trough the looking glass como fonte, e nem como semelhança. Ora, é preciso cuidado. Estamos lidando com gigantes, literariamente falando. Machado faz sua referência, ao que tudo indica, espalhada em dois momentos, como descrevi, dois capítulos diferentes. Lobato, especialista brincalhão para crianças, me deixa estupefato com sua capacidade de guardar sigilos. Talvez para sua geração, como para a minha quando criança, “miau-miau”, com o gesto de levar as mãos à cabeça, fosse sinônimo de, brincadeira plena e total – escárnio absoluto, diria um adulto. E torna o sexo do pequeno felino idêntico ao de Machado...
O mais discutido texto brasileiro seria, ao final, referência a um texto de uma obra considerada, em princípio, para crianças, embora de muita releitura adulta posterior. A montanha de textos brasileiros sobre Machado ignora o fato, se desconsiderarmos meu posfácio à citada reedição da obra em que Meyer mais trata de Machado Meyer. Naquele posfácio, abordo em nota a semelhança entre o capítulo do nosso Machado e o de Dodgson, posfácio, aliás, escandalosamente, resumido por terceiros. E sem meu consentimento, como em muitos outros casos que me tem sido narrados. Pior: há erro de português na versão resumida. Apesar do volume indicar a presença de duas pessoas em revisão. E das frases solicitadas para a última capa, nada exceto as que salvei para o meu posfácio.
Penso ter feito bem chamando a Lewis Carroll, ali, apenas “Dodgson”. É criptografia banal, mas pode ser útil, quando se trata de não confiar. Quem não é confiável para publicar um texto tal como recebido pelo autor, ou que o resume sem concordância do mesmo, e ocasionando erro, não é digno de receber o sigilo que merecem quaisquer revelações antes de estarem editadas. Pelo menos enquanto não soubermos se a semelhança entre Dodgson e Machado nunca foi apontada. Mas, seja lá quem tiver sido o primeiro a mencioná-las, precisamos começar a falar sobre isso.
Em tempo, noutra publicação de reedição do mesmo órgão editor de obra escrita por Augusto Meyer, no caso, Prosa dos pagos, menciona-se A sobra da estante (!) para citar o mencionado À sombra da estante, e aliás o erro de revisão está, mais uma vez, em texto que não era do editor, mas autoral, e não meu.
Constatar que não se trata de algo pessoal, pois outros nomes que respeito passaram pelo mesmo, em tempos recentes, não é consolo. Ouvir, intensamente surpreso, a confirmação do resumo, quando reclamávamos do fato, e, mais, pedíamos dele a reparação – e até mesmo com testemunha ocasional, é agravante.
Depois de tantos anos de tanta democracia não temos o direito de nos expressar da forma que queremos? Aliás, nos tempos em que não tínhamos as liberdades atuais, nunca tive textos diminuídos à custa de erros no conteúdo e sem minha autorização – nem mesmo quando um editor me partiu em dois um texto sobre cinema, jogando-o para dois jornais diferentes, por necessidades de tamanho em página jornalística, num deles com título não meu.
Até quando a elegância do silêncio (e o sereno horror ao bate-boca) de quem escreve vai ser usado como tranqüilidade para escarafunchar descarada e predatoriamente em seus textos, numa demonstração de profunda falta de respeito não apenas para com os mesmos textos, mas para o que seja um texto em geral?
Um texto é a expressão da idéia – a matéria-prima de que a humanidade extrai seus variados rumos, e a única forma de fixá-las para tal.

sexta-feira, março 09, 2007

CONFISSÕES

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília

(Lembrando Geraldo Vandré, Luiz Travassos, Elis Regina, Raul Seixas, Taiguara, João Antônio, Caio Fernando Abreu, Carlos Carvalho, Paulo Fontoura Gastal, Glauber Rocha e tantos outros.)

No reino da mistificadora "cordialidade brasileira" e da tremenda empulhação de todos (todos!) governos pós-ditadura, fiz um exercício de memória. Eu não quero esquecer.. Anistia? Pensei nos choques elétricos que recebi na OBAN - nas mãos, nos ouvidos, no cacete. Lembrei da "cadeira-do-dragão." Pensei nos meses passados no DOPS paulista. Os torturadores brasileiros sabim detudo. "Gosta de lamber feridas", "quer se auto-louvar", "não consegue esquecer", "vive no passado", "não sabe perdoar, "quer aparecer como nostálgico do sacrifício", "cristão das catacumbas": isso também falaram. Às vezes não diretamente, mas por terceiros que depois me contam. Pela frente são tão gentis.... Pimenta na boca dos outros... Eles foram anistiados e esquecidos. Não por mim. Me responde, de onde estiveres, amigão Luiz Travassos? Você conseguiria esquecer? "Ele anda repetitivo e redundante. É uma obsessão." Outra observação que fazem. E fiquei lembrando também dos que se diziam tão "puros", detentores do monopólio da virtude e do bem, disseminando seu assembleísmo compulsivo, suas taras por reuniões e mais reuniões - tão longas, quanto inúteis e masturbatórias. (Esse efeito patético continua nos partidos, nos departamentos universitários...) O grau de obsessão de poder pelo poder dessa gente excedeu até o pessimismo dos mais céticos. Sua taxa de traição e de podridão interna atingiram graus de ignomínia mais intensos do que o previsto pelos mais infernais prognósticos. Deslumbramento, corrupção, mediocridade, apego voraz a cargos, volúpia por prebendas, comissões, "boquinhas", vil parelhamento do Estado, não pelos melhores, mas pelos mais espertos, com ligações com a cúpula do poder e do partido. Perderam a utopia. Isso é doloroso. Mas pior ainda é perder a dignidade. Mas não abdicaram da tática do hegemonismo e da crença numa onipotência eterna. Não esqueceram também das práticas autofágicas. Para destruir o outro, todo os métodos são válidos. Poderiam repetir as palavras de um (ex) ministro justificando seu apoio ao AI-5, de 13 de dezembro de 1968: "Às favas com os escrúpulos!". Outro que assinou o referido ato - que levou à tortura e à morte tantos amigos - foi "dono" e "czar" da economia brasileira no auge da ditadura, do "milagre econômico" e da tortura -, é amigão e íntimo assessor do nosso pequeno Napoleão. (Que agora quer acabar com o direito de greve do funcionalismo...) Até quando? A ditadura caiu de podre. Mas no fundo, "nunca" acabou. Ela determinou, como num decreto imperial: "cuidem de si; se esqueçam dos outros." E foi assim que aconteceu. Foi a vitória do "salve-se quem puder". da Lei do Gerson, da praga terrível dos vis marqueteiros, do hiperindividualismo do consumismo voraz, "obrigando" os brasileiros a comprar um montão de porcarias. As porcarias continuam. A barbárie venceu, com a violência, com o narcotráfico, com a corrupção policial, com a falência dos três poderes (e com a resignação de quase todos, a mera "reclamação" sem qualquer efeito da classe média), a sede obsessiva de aparecer na TV, em programas imbecilizantes ou na edição de revistas idiotas com suas ilhas fúteis e suas cabeças oligofrênicas. Essa é a herança maior da ditadura. "Eles" foram muito astutos. A guerra não terminou com o acordo tancrediano, o colégio eleitoral, a derrota das diretas- já, com o armistício selado pela aliança "liberal" da Nova República: ficaram as seqüelas, as muletas, os retratos, as viúvas, as cicatrizes. Sim, o Haiti é aqui. E essa gente que está no poder poderá naufragar de maneira ainda mais infamante, pois ao contrário da ignorância de certos membros da caserna, eles prometeram um Brasil "ético". "limpo" e "justo". E juraram criar o partido mais digno do Brasil. E geraram um montão de stalinistas caipiras. Mas irão embora. E e a cultura? O ministro da Cultura continua sendo o bobo-da-corte do nosso Napoleão médiocre e narcísico, paródia melancólica de um sub-Macunaíma. A "Academia" não o critica, pois ele veio "de baixo". Como isso fosse prova de caráter. Sem ser adepto de teorias conspiratórias, creio que têm razão os que diziam que o astuto Golbery queria dividar a esquerda brasileira, e o PT seria a quinta-coluna do projeto. Golbery deve estar sorrindo* *Prometo voltar a falar de literatura**.
**Falando nisso, acho que o ministro da Cultura nunca leu um livro na vida. Um livro inteiro. Não falo das porcariass de auto-ajuda. Só sabe elaborar aquele discurso vazio e pernóstico, como um míistico de butique. Espremendo suas palavras, não sai nada. E consegue enganar os incautos. Tinhorão nele... Eles logo passarão. Mas como disse alguém, o pior é ficar com os herdeiros das capitanias hereditárias, que nunca deixaram de mandar. São os os donos do Brasil. Para sempre? Desse jeito... Nota final: Collor é da base aliada de Lula. O dois têm se elogiado mutuamente. Não importa o que foi dito pelo Fernandinho de Alagoas, hoje senador da República, a respeito de Lula e de sua filha na campanha de 1989. Memória?: para quê?