REFLEXÕES III
Emanuel Medeiros Vieira - Brasília
BRASIL – A farsa se repete como História; entranhados no espírito, trezentos anos de escravidão. Afora os quinhentos (e pouco) de privilégios, patrimonialismo, fatalismo, cinismo. Falta algo além do pão. Na memória, os versos de Jorge de Lima: “Há sempre um copo de mar Para um homem navegar.” Só duram no tempo, as coisas que não pertencem ao tempo. Nossas chances de sobrevivência? A do escritor: num mundo que não deseja mais ouvi-lo (só quer saber de imagens). Lógico, as imagens que circulam no mundo são fruto do impulso econômico: criar produtos/mercados de consumo, não para celebrar o espírito humano. Tornamo-nos melhores com a mercantilização? Você seduzirá bela mulher se usar tal perfume. E usa-se o nome de Deus para tanta matança. Tanta intolerância: o homem confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade. Daí: mais intolerância que traz desprezo, que gera agressividade, depois a guerra, pois cada um vive na convicção de ser o povo escolhido. E os outros? Tantos fundamentalismos: o econômico apresenta solução única para os problemas de todos os países. O que queremos para nós e o mundo? Sermos apenas acumuladores de bens e serviços? Falta algo, além do pão, mas “Há sempre um copo de mar / Para um homem navegar.”
ROMÊNIA – Os Cárpatos me levam a um Drácula já envelhecido. Atravessei o Atlântico. Inundo-me de uma Dácia mítica. Romênia, maio de 2000: é primavera. Leste europeu. Parece-me escutar Latim nas ruas de Bucareste e as mulheres são belíssimas. O grande humanista, cultíssimo, Ático Villas Boas da Mota, na época com mais de 80 anos, portador de incrível e cativante vitalidade, anda lépido comigo pelas belas ruas da capital da Romênia; andamos e andamos, fora das rotas oficiais de turismo – vamos a feiras (provo frutas desconhecidas, uma delas, esqueço o nome, com gosto de jabuticaba, outra lembra as amoras da infância) e mercados populares, praças. Conversamos e fico contemplando rostos que, certamente, nunca mais verei. Está ventando naquela manhã: sento numa praça. Caem flores amarelas. Falamos sobre a vida, a morte, a literatura, a presença e a atualidade de Machado de Assis, declamamos poemas líricos de Camões e de Fernando Pessoa. Por onde estou andando, tão longe de casa? Rostos que lembram os gregos. Outros, os latinos. Um nariz turco, as veias latinas encravadas no mundo eslavo.Uma cigana quer ler nossas mãos. O professor Ático fala, com muita fluência, dez idiomas e conversa na língua cigana com a mulher, com vistosas roupas vermelhas, pulseiras e colares. Uma típica cigana: naquela região há muitas, apesar do assassinato de muitos ciganos pelos regimes nazista e stalinista. Quero saber do futuro? Thomas Mann já advertia, em José e seus irmãos, que é muito fundo o poço do passado. O que saberemos do futuro? O professor sabe que irei à Constanza, a belíssima cidade do Mar Negro, na Romênia, onde Ovídio esteve exilado pela Império Romano, e lá morreu. E pede que contemple, numa pracinha (quer que olhe com muita calma), a estátua lá colocada em homenagem ao poeta. Vou de ônibus, com colegas (era uma viagem cultural) à Constanza, onde chego a proferir breve discurso na Universidade daquela cidade. Era um sábado de manhã. E é comovente ver no quadro negro de uma sala de aula, da Universidade de Constanza, no Leste Europeu, no Mar Negro, versos escritos com giz, de Antero de Quental e Fernando Pessoa, e moças muito belas estudando Literatura Portuguesa. O professor olha para mim, domingo à tarde tomamos água mineral com gás e café num bar que seria uma espécie de “pé-sujo”, quase no centro de Bucareste (região um tanto “pesada” e não turística), muitos jovens – somos os mais velhos: ele queria me mostrar o crescimento do uso da droga no Leste depois da queda do socialismo real (não o que antes amávamos) e do Muro de Berlim – ali mesmo, a queda de um modelo que misturava corrupção com stalinismo, comandado até a sua execução em 1989, por Nicolae Ceausescu. Com controle brutal imposto por sua polícia política, a “Securitate”. O ditador substituiu o modelo do Partido Comunista por uma ditadura familiar, acumulando enorme fortuna. Antes de ser executada, a mulher do ditador berrava para a população: “Eu amo vocês, vocês precisam de mim”, como uma Evita Péron do Leste europeu. De nada adiantou – ela e o marido, cruel e corrupto, foram executados em praça pública. Isso me foi relatado em Bucareste por uma romena que assistiu a execução. Essa senhora, digna, autêntica, de “esquerda” sim, tradutora, socialista, havia sido presa e torturada pela polícia do ditador corrupto. E que se dizia socialista... Conheci na viagem outros socialistas autênticos, cristãos, agnósticos e marxistas, que também foram barbaramente torturados nas masmorras do regime de Ceausescu. Exorta o professor: “Contempla a imagem do poeta: ele está de costas para o Efêmero e de frente para o Absoluto.” Fiquei intrigado e fascinado – continuo a vital conversa com ele, sobre tudo, sobre a fugacidade da vida, dos regimes, sobre o pó que seremos; sobre o ofício que escolhemos e amamos, apesar de tudo (a Literatura); sobre a loucura na arte, o mundo globalizado, as viagens, os sonhos de minha geração, da geração dele – ele vindo lá da distante Macaúbas, no sertão da Bahia, perto de onde Carlos Lamarca foi assassinado. Dos grotões da Bahia para o Leste Europeu, com seu tocante humanismo, integral, orgânico, visceral, com sua vasta biblioteca de mais de dez mil volumes – uma certa “sábia melancolia” no fim da jornada, dizendo, com outras palavras, que quando adquiríamos um certo tipo de “sabedoria” (falou com tocante sinceridade, sem nenhum ranço de pedantismo), estava na hora de “partir”, de “fazer a última viagem”, falou. Eu estava sem uma mala pequena e queria ir a Budapeste, Hungria, chamada de “Paris do Leste Europeu”, e o professor Ático, sabedor de minhas apertadas finanças, não queria que eu gastasse muito na aquisição de uma e, num mercadinho de Bucareste, compramos uma mala romena, humilde, não sofisticada, até bem popular, mas útil, pequena e barata, e alguém perguntou, em inglês, que língua estávamos falando. Em Constanza, sentado perto da estátua de Ovidio, altamente concentrado, reflexivo, não podia esquecer das palavras do sábio Ático: de costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto. Ele ficara em Bucareste. Ando, olho o mar, dou voltas na pracinha, bebo água mineral com gás – se ainda bebesse, tomaria um vinho romeno, considerado de boa qualidade; caminho mais, outras voltas pela pequena praça. Olho de novo o rosto do poeta, folhas caem na estátua, venta na cidade, contemplo sua bela arquitetura, de vários estilos misturados. Almoço com amigos e fui caminhando; amo andar sem destino pelas cidades, principalmente as desconhecidas; gosto de andar assim fora da temporada turística, fora da agitação, dos gritos, do deslumbramento, das máquinas que não param de fazer barulho, daqueles grupos enormes de japoneses, que parecem robôs, obedientes rebanhos – segundo Edgar Morin, o turista não vê, só registra; caminho assim em Salvador, fora da época dos trios elétricos, do agito turístico, do carnaval, da “macumba para turista”, aquele montão de europeus deslumbrados agarrando mulatas; prefiro a cidade “normal” (assim, amo-a muito), por exemplo em maio, vendo colegiais com seus uniformes, com seu ritmo cotidiano, pegando ônibus, pego ônibus sem destino definido, apenas para conhecer a “cidade real”; subindo até em trens para o subúrbio, indo para bairros populares e pobres, onde a prefeitura não gosta de chegar, fora da rota turística, das avenidas que dão para o mar, bem conservadas. Ando pela Liberdade, o enorme bairro negro de Salvador, talvez a maior concentração negra da América Latina – lógico que de manhã, porque à noite, em certos setores, é impossível, pela hegemonia dos traficantes; mesmo de manhã, ali todo o cuidado é pouco. Naquele bairro tive um do maiores privilégios desta vida, enorme bênção: conhecer o sábio seu Claudionor (nunca soube o seu sobrenome; ele nunca informou, e acho que ele queria ficar conhecido apenas como o “Seu Claudionor”, o amorável bruxo da Bahia). Quanta dispersão: escrevia sobre Bucareste e vim parar na Bahia... Nunca esqueço que, um dia, seu Claudionor chamou - sem explicitar o que queria. Não disse: “Vou morrer, Emanuel”, mas era para isso que havia “determinado” minha ida à sua casa. Ele “sabia”, sim, sabia. Queria se despedir. E fui para aquele lugar humilde. Um homem que ajudou a tantos e tantos seres, morria sem nada. Ele não deixava ninguém entrar em seu quarto. Fiquei comovido, honrado e, sim, envaidecido: ele disse para a sua mulher me deixar entrar no tão pobrezinho quarto – apenas uma cama tosca. E a mulher lhe oferece um copinho de leite e uns humildes biscoitos comprados na padaria do pobre bairro. Tão pouco. No momento, aquilo me revoltou, pois tinha conhecimentos de “místicos de butique”, enganadores, picaretas mesmo com roupagem para enganar os incautos, lá na Bahia, ou em Brasília, na Avenida W-3 Sul, videntes de fancaria enriquecendo às custas da fragilidade e do sofrimento humanos. E o seu Claudionor morrendo assim, sem nada, ele que, durante décadas, ajudou graciosamente os que precisavam, da maneira mais digna e autêntica possível. Morria assim. Mas um médium, me disse, em Brasília: “Essa era a sua missão. Ele não queria posses.” Ele só queria servir. Casa humilde, sua família não tinha como pagar a conta da luz, outras despesas e abriram uma modesta serralharia. Se ajudei? Isso não interessa, até me causa constrangimento confessar. Depois que ele faleceu, fui lá varias vezes ainda. Depois daquele encontro inesquecível, o último (nesta dimensão), nesta terra para o qual viemos; olhei para ele naquela hora “extrema”, quis abraça-lo fundamente, o abraço mais agregador, o carinho derradeiro, ele não deixou e eu sei que ele também queria me abraçar, mas alegava que não queria me “contaminar” com sua carga (disse isso com outras palavras). E “entendia”: tinha uma enorme gama de informações; era conhecedor de tantas dores e dramas humanos – tantos sofrimentos que lhe foram contados, tantas revelações e testemunhos de alta gravidade, doenças terríveis, crimes tenebrosos no sertão baiano, sobre os sofrimentos daqueles que o procuraram – ele “trabalhava” há muitos anos. Resumindo: temia que seu abraço passasse coisas ruins para este escriba. E ele gostava muito de mim. Adeus, amado mestre. Sei que me “escutas” agora. Alto, magro, chapéu na cabeça, olhar de águia, o mais profundo que já contemplei, aquele sorriso tão vasto, o terno já puído. Ter-te conhecido, apenas isso (“apenas?”, meu Deus!), já legitimaria uma vida. Emociono-me quando escrevo, neste março, nesta manhã planaltina de segunda-feira. Seu último olhar naquele dezembro me comoveu demais – os arrepios que senti naquela hora, parecem estar aqui. Me comoveu seu olhar? Mais que isso, fez sangrar o meu coração. Mas saí abençoado. Ele faleceu uma semana depois. E sabia “quando” isso ocorreria. Logo depois do Natal: 27 de dezembro de 1999. Seu Claudionor: vela por nós, de onde estiveres (onde estás? – era para teres ficado sempre conosco), ilumina a minha família, não só agora, mas quando este áspero e bobo (de tão sentimental) escriba não estiver mais aqui. Sinto-me novamente órfão. Acho que vivo cheio de orfandades, atravessando meu exílio soberano (não, não há anistia, pois há pleno divórcio entre o sonho e o universo mercantil), trabalhando lutos, um depois do outro, sem sossego. – Não reclama, seu chorão, pois recebeste muita coisa – exalta-se o promotor interno, que quer ocupar o lugar do meu anjo, São Miguel, guerreiro, portador de alta compaixão. O promotor só me dá porrada. “Seu” Claudionor, meus protetores, o velho Arcanjo Miguel, iluminem os que amo, este país. Amado mestre baiano que enxergava o que ia acontecer depois, ser premonitório, luz maior, de onde estiveres, não esquece da gente. Duas, três, quatro lágrimas escorrem. Quatro? Cinco? Embaciam os óculos de um homem quase sessentão, seguem seu curso pelo rosto, que com um lenço enxugo (o rosto). Ajuda tua sofrida Bahia – não a dos poderosos, dos oligarcas, dos cantores medíocres que enriquecem facilmente, com roupagem moderna mas sem talento, mas uma outra Bahia, daquelas ruas onde ainda contemplo o fantasma de Castro Alves, protege os habitantes daquelas ruas escondidas, longe da orla, abandonadas, onde os turistas não passam e os alcaides desprezam; ah! premonitório pai, ajuda a restaurar o sagrado no mundo mercantilizado. Eu muito te “amei”. Mas certamente nunca te conheci. Onde adquriste tal “conhecimento”?. Não foi na academia. Foi de nascença. Não quero explicações intelectuais. Só queria saber: teus dons seriam uma bênção do Divino Espírito Santo ou não teriam nada com isso? – Tens a mania de botar em tudo a religião católica – reclama um diabinho matutino. – Como essa igreja da tua raiz (e sublinhou “raiz”), na qual foste criado e voltaste a amar, poderá sobreviver, com tantos padres pedófilos? – indaga o demônio, rindo. Monologo: torpe Cachorrão. Não sei responder. Ou sei. – Ela resistiu às outras crises – pondero, e aproveito (para ele me deixar em paz) para criticar de maneira acerba a Inquisição, a catequização forçada de indígenas, o luxo do Vaticano (ri sozinho, lembrando das orações do mano Tarcísio, que todos os dias ora pela “conversão da cúria romana”...) e de outros males praticados pela Santa Madre. O Demo Malvado não desiste: – Teus amigos, agnósticos e ateus, dirão que, com a idade, foste ficando carola, como certos segmentos de tua família, que vão à missa todos os dias. Ele não para de sorrir. Não. Não vou discutir. Ele não quer me deixar escrever. Quer me dispersar. Sabe dos meus pontos fracos: que sou emotivo, dispersivo, que sendo atacado reajo, não de maneira racional e serena, mas devolvendo com verbos fáceis, verdadeiros mísseis verbais, como bicho ferido. – Aí tua compaixão vai embora e viras também um ser bélico. Te igualas aos que te atacam – reaje o Diabo. Fico calado. Lembro que o Papa pediu perdão pela Inquisição, aos índios, aos judeus, visitou líderes islâmicos, buscou contacto com os ortodoxos.
AINDA A ROMÊNIA – Volto às reflexões sobre a viagem à Romênia. Rememorando: estamos naquela pracinha em Constanza, no Mar Negro, com a estátua de Ovídio. Tentava decifrar a charada metafísica: de costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto. Volto para Bucareste, os amigos ficam bebendo nos bares da cidade ou tentando conquistar moçoilas bonitas, “não dando bola” para a rapaziada, antibaianas, fechadas, portadoras de pouco sorriso e muita pintura. Uma das mulheres mais bonitas que já vi, fazia um show no hotel para o nosso grupo. Loira e álgida, olhar profundo. Interessante, penso enquanto olho o movimento da porta do hotel; é final de tarde: algumas mulheres são portadoras de rostos maravilhosos, mas não são calipígias... Subo para o quarto, que dá de frente para a principal e larga avenida da capital romena, arborizada e fico rabiscando num papel, tentando interpretar as palavras do digno e culto professor. De manhã cedo ligo para ele, depois do café da manhã.Conto da viagem à Contanza. Marco o encontro. Ático vem ao hotel e indago se estou certo: “De costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto”. Sim, a estátua (imagem) de Ovídio, tento decifrar o Efêmero: o Poder, a Glória, Roma (a estátua de Ovídio está de costas para isso).O Absoluto: o mar, a Eternidade e, quem sabe, Deus. (A imagem está de frente para o Infinito, para o mar.) Ático Vilas Boas da Mota ri comovido e me beija na testa, duas vezes, como meu pai sempre fazia. Eu me emociono novamente, e choro, (três lágrimas lentas) no seu ombro. De alegria. – Você entendeu, querido Emanuel – e fico contemplando as flores que caem de uma árvore na primavera romena. Um tremor sul-americano me invade agora; neste domingo à tarde, véspera da partida. Muito andei. Sento num banco de parque e o vento novamente carrega folhas amarelas. Contemplo um casal, outros passantes, alguém rema num lago em frente. E olhando os passantes, medito: Nunca mais estarei com vocês e não será apenas o oceano a nos separar. Qual mímico desajeitado, perdido no velho Leste europeu, faço um sinal para um passante. Saúdo-o, ele retribui, sorri. Acho que é o fantasma de Ovídio, lamentando o vento, escrevendo tristes versos com saudades de casa e de Roma.
ILUSÓRIA SATISFAÇÃO – A satisfação prometida, além de ilusória, quebra com facilidade, e os produtos e valores vendidos, como forma de aplacar esse desejo, são cada vez mais descartáveis e perecíveis. Como observou alguém, o discurso continuará mesmo a não dizer nada, além de que somos animais falantes. Lacan esclarece: “Esse discurso é o discurso comum, feito de palavras para não dizer nada, graças ao qual nos certificamos de não lidarmos frente a frente com o homem é (???) em estado natural, ou seja, um animal feroz.” No modelo vigente, transformou-se o prazer em regra absoluta. O sacrifício, a renúncia e o sofrimento, realidades inerentes ao cotidiano de todos, foram excomungados pelo marketing do consumismo alucinado.

