sexta-feira, fevereiro 16, 2007

REFLEXÕES III

Emanuel Medeiros Vieira - Brasília
BRASIL – A farsa se repete como História; entranhados no espírito, trezentos anos de escravidão. Afora os quinhentos (e pouco) de privilégios, patrimonialismo, fatalismo, cinismo. Falta algo além do pão. Na memória, os versos de Jorge de Lima: “Há sempre um copo de mar Para um homem navegar.” Só duram no tempo, as coisas que não pertencem ao tempo. Nossas chances de sobrevivência? A do escritor: num mundo que não deseja mais ouvi-lo (só quer saber de imagens). Lógico, as imagens que circulam no mundo são fruto do impulso econômico: criar produtos/mercados de consumo, não para celebrar o espírito humano. Tornamo-nos melhores com a mercantilização? Você seduzirá bela mulher se usar tal perfume. E usa-se o nome de Deus para tanta matança. Tanta intolerância: o homem confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade. Daí: mais intolerância que traz desprezo, que gera agressividade, depois a guerra, pois cada um vive na convicção de ser o povo escolhido. E os outros? Tantos fundamentalismos: o econômico apresenta solução única para os problemas de todos os países. O que queremos para nós e o mundo? Sermos apenas acumuladores de bens e serviços? Falta algo, além do pão, mas “Há sempre um copo de mar / Para um homem navegar.”
ROMÊNIA – Os Cárpatos me levam a um Drácula já envelhecido. Atravessei o Atlântico. Inundo-me de uma Dácia mítica. Romênia, maio de 2000: é primavera. Leste europeu. Parece-me escutar Latim nas ruas de Bucareste e as mulheres são belíssimas. O grande humanista, cultíssimo, Ático Villas Boas da Mota, na época com mais de 80 anos, portador de incrível e cativante vitalidade, anda lépido comigo pelas belas ruas da capital da Romênia; andamos e andamos, fora das rotas oficiais de turismo – vamos a feiras (provo frutas desconhecidas, uma delas, esqueço o nome, com gosto de jabuticaba, outra lembra as amoras da infância) e mercados populares, praças. Conversamos e fico contemplando rostos que, certamente, nunca mais verei. Está ventando naquela manhã: sento numa praça. Caem flores amarelas. Falamos sobre a vida, a morte, a literatura, a presença e a atualidade de Machado de Assis, declamamos poemas líricos de Camões e de Fernando Pessoa. Por onde estou andando, tão longe de casa? Rostos que lembram os gregos. Outros, os latinos. Um nariz turco, as veias latinas encravadas no mundo eslavo.Uma cigana quer ler nossas mãos. O professor Ático fala, com muita fluência, dez idiomas e conversa na língua cigana com a mulher, com vistosas roupas vermelhas, pulseiras e colares. Uma típica cigana: naquela região há muitas, apesar do assassinato de muitos ciganos pelos regimes nazista e stalinista. Quero saber do futuro? Thomas Mann já advertia, em José e seus irmãos, que é muito fundo o poço do passado. O que saberemos do futuro? O professor sabe que irei à Constanza, a belíssima cidade do Mar Negro, na Romênia, onde Ovídio esteve exilado pela Império Romano, e lá morreu. E pede que contemple, numa pracinha (quer que olhe com muita calma), a estátua lá colocada em homenagem ao poeta. Vou de ônibus, com colegas (era uma viagem cultural) à Constanza, onde chego a proferir breve discurso na Universidade daquela cidade. Era um sábado de manhã. E é comovente ver no quadro negro de uma sala de aula, da Universidade de Constanza, no Leste Europeu, no Mar Negro, versos escritos com giz, de Antero de Quental e Fernando Pessoa, e moças muito belas estudando Literatura Portuguesa. O professor olha para mim, domingo à tarde tomamos água mineral com gás e café num bar que seria uma espécie de “pé-sujo”, quase no centro de Bucareste (região um tanto “pesada” e não turística), muitos jovens – somos os mais velhos: ele queria me mostrar o crescimento do uso da droga no Leste depois da queda do socialismo real (não o que antes amávamos) e do Muro de Berlim – ali mesmo, a queda de um modelo que misturava corrupção com stalinismo, comandado até a sua execução em 1989, por Nicolae Ceausescu. Com controle brutal imposto por sua polícia política, a “Securitate”. O ditador substituiu o modelo do Partido Comunista por uma ditadura familiar, acumulando enorme fortuna. Antes de ser executada, a mulher do ditador berrava para a população: “Eu amo vocês, vocês precisam de mim”, como uma Evita Péron do Leste europeu. De nada adiantou – ela e o marido, cruel e corrupto, foram executados em praça pública. Isso me foi relatado em Bucareste por uma romena que assistiu a execução. Essa senhora, digna, autêntica, de “esquerda” sim, tradutora, socialista, havia sido presa e torturada pela polícia do ditador corrupto. E que se dizia socialista... Conheci na viagem outros socialistas autênticos, cristãos, agnósticos e marxistas, que também foram barbaramente torturados nas masmorras do regime de Ceausescu. Exorta o professor: “Contempla a imagem do poeta: ele está de costas para o Efêmero e de frente para o Absoluto.” Fiquei intrigado e fascinado – continuo a vital conversa com ele, sobre tudo, sobre a fugacidade da vida, dos regimes, sobre o pó que seremos; sobre o ofício que escolhemos e amamos, apesar de tudo (a Literatura); sobre a loucura na arte, o mundo globalizado, as viagens, os sonhos de minha geração, da geração dele – ele vindo lá da distante Macaúbas, no sertão da Bahia, perto de onde Carlos Lamarca foi assassinado. Dos grotões da Bahia para o Leste Europeu, com seu tocante humanismo, integral, orgânico, visceral, com sua vasta biblioteca de mais de dez mil volumes – uma certa “sábia melancolia” no fim da jornada, dizendo, com outras palavras, que quando adquiríamos um certo tipo de “sabedoria” (falou com tocante sinceridade, sem nenhum ranço de pedantismo), estava na hora de “partir”, de “fazer a última viagem”, falou. Eu estava sem uma mala pequena e queria ir a Budapeste, Hungria, chamada de “Paris do Leste Europeu”, e o professor Ático, sabedor de minhas apertadas finanças, não queria que eu gastasse muito na aquisição de uma e, num mercadinho de Bucareste, compramos uma mala romena, humilde, não sofisticada, até bem popular, mas útil, pequena e barata, e alguém perguntou, em inglês, que língua estávamos falando. Em Constanza, sentado perto da estátua de Ovidio, altamente concentrado, reflexivo, não podia esquecer das palavras do sábio Ático: de costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto. Ele ficara em Bucareste. Ando, olho o mar, dou voltas na pracinha, bebo água mineral com gás – se ainda bebesse, tomaria um vinho romeno, considerado de boa qualidade; caminho mais, outras voltas pela pequena praça. Olho de novo o rosto do poeta, folhas caem na estátua, venta na cidade, contemplo sua bela arquitetura, de vários estilos misturados. Almoço com amigos e fui caminhando; amo andar sem destino pelas cidades, principalmente as desconhecidas; gosto de andar assim fora da temporada turística, fora da agitação, dos gritos, do deslumbramento, das máquinas que não param de fazer barulho, daqueles grupos enormes de japoneses, que parecem robôs, obedientes rebanhos – segundo Edgar Morin, o turista não vê, só registra; caminho assim em Salvador, fora da época dos trios elétricos, do agito turístico, do carnaval, da “macumba para turista”, aquele montão de europeus deslumbrados agarrando mulatas; prefiro a cidade “normal” (assim, amo-a muito), por exemplo em maio, vendo colegiais com seus uniformes, com seu ritmo cotidiano, pegando ônibus, pego ônibus sem destino definido, apenas para conhecer a “cidade real”; subindo até em trens para o subúrbio, indo para bairros populares e pobres, onde a prefeitura não gosta de chegar, fora da rota turística, das avenidas que dão para o mar, bem conservadas. Ando pela Liberdade, o enorme bairro negro de Salvador, talvez a maior concentração negra da América Latina – lógico que de manhã, porque à noite, em certos setores, é impossível, pela hegemonia dos traficantes; mesmo de manhã, ali todo o cuidado é pouco. Naquele bairro tive um do maiores privilégios desta vida, enorme bênção: conhecer o sábio seu Claudionor (nunca soube o seu sobrenome; ele nunca informou, e acho que ele queria ficar conhecido apenas como o “Seu Claudionor”, o amorável bruxo da Bahia). Quanta dispersão: escrevia sobre Bucareste e vim parar na Bahia... Nunca esqueço que, um dia, seu Claudionor chamou - sem explicitar o que queria. Não disse: “Vou morrer, Emanuel”, mas era para isso que havia “determinado” minha ida à sua casa. Ele “sabia”, sim, sabia. Queria se despedir. E fui para aquele lugar humilde. Um homem que ajudou a tantos e tantos seres, morria sem nada. Ele não deixava ninguém entrar em seu quarto. Fiquei comovido, honrado e, sim, envaidecido: ele disse para a sua mulher me deixar entrar no tão pobrezinho quarto – apenas uma cama tosca. E a mulher lhe oferece um copinho de leite e uns humildes biscoitos comprados na padaria do pobre bairro. Tão pouco. No momento, aquilo me revoltou, pois tinha conhecimentos de “místicos de butique”, enganadores, picaretas mesmo com roupagem para enganar os incautos, lá na Bahia, ou em Brasília, na Avenida W-3 Sul, videntes de fancaria enriquecendo às custas da fragilidade e do sofrimento humanos. E o seu Claudionor morrendo assim, sem nada, ele que, durante décadas, ajudou graciosamente os que precisavam, da maneira mais digna e autêntica possível. Morria assim. Mas um médium, me disse, em Brasília: “Essa era a sua missão. Ele não queria posses.” Ele só queria servir. Casa humilde, sua família não tinha como pagar a conta da luz, outras despesas e abriram uma modesta serralharia. Se ajudei? Isso não interessa, até me causa constrangimento confessar. Depois que ele faleceu, fui lá varias vezes ainda. Depois daquele encontro inesquecível, o último (nesta dimensão), nesta terra para o qual viemos; olhei para ele naquela hora “extrema”, quis abraça-lo fundamente, o abraço mais agregador, o carinho derradeiro, ele não deixou e eu sei que ele também queria me abraçar, mas alegava que não queria me “contaminar” com sua carga (disse isso com outras palavras). E “entendia”: tinha uma enorme gama de informações; era conhecedor de tantas dores e dramas humanos – tantos sofrimentos que lhe foram contados, tantas revelações e testemunhos de alta gravidade, doenças terríveis, crimes tenebrosos no sertão baiano, sobre os sofrimentos daqueles que o procuraram – ele “trabalhava” há muitos anos. Resumindo: temia que seu abraço passasse coisas ruins para este escriba. E ele gostava muito de mim. Adeus, amado mestre. Sei que me “escutas” agora. Alto, magro, chapéu na cabeça, olhar de águia, o mais profundo que já contemplei, aquele sorriso tão vasto, o terno já puído. Ter-te conhecido, apenas isso (“apenas?”, meu Deus!), já legitimaria uma vida. Emociono-me quando escrevo, neste março, nesta manhã planaltina de segunda-feira. Seu último olhar naquele dezembro me comoveu demais – os arrepios que senti naquela hora, parecem estar aqui. Me comoveu seu olhar? Mais que isso, fez sangrar o meu coração. Mas saí abençoado. Ele faleceu uma semana depois. E sabia “quando” isso ocorreria. Logo depois do Natal: 27 de dezembro de 1999. Seu Claudionor: vela por nós, de onde estiveres (onde estás? – era para teres ficado sempre conosco), ilumina a minha família, não só agora, mas quando este áspero e bobo (de tão sentimental) escriba não estiver mais aqui. Sinto-me novamente órfão. Acho que vivo cheio de orfandades, atravessando meu exílio soberano (não, não há anistia, pois há pleno divórcio entre o sonho e o universo mercantil), trabalhando lutos, um depois do outro, sem sossego. – Não reclama, seu chorão, pois recebeste muita coisa – exalta-se o promotor interno, que quer ocupar o lugar do meu anjo, São Miguel, guerreiro, portador de alta compaixão. O promotor só me dá porrada. “Seu” Claudionor, meus protetores, o velho Arcanjo Miguel, iluminem os que amo, este país. Amado mestre baiano que enxergava o que ia acontecer depois, ser premonitório, luz maior, de onde estiveres, não esquece da gente. Duas, três, quatro lágrimas escorrem. Quatro? Cinco? Embaciam os óculos de um homem quase sessentão, seguem seu curso pelo rosto, que com um lenço enxugo (o rosto). Ajuda tua sofrida Bahia – não a dos poderosos, dos oligarcas, dos cantores medíocres que enriquecem facilmente, com roupagem moderna mas sem talento, mas uma outra Bahia, daquelas ruas onde ainda contemplo o fantasma de Castro Alves, protege os habitantes daquelas ruas escondidas, longe da orla, abandonadas, onde os turistas não passam e os alcaides desprezam; ah! premonitório pai, ajuda a restaurar o sagrado no mundo mercantilizado. Eu muito te “amei”. Mas certamente nunca te conheci. Onde adquriste tal “conhecimento”?. Não foi na academia. Foi de nascença. Não quero explicações intelectuais. Só queria saber: teus dons seriam uma bênção do Divino Espírito Santo ou não teriam nada com isso? – Tens a mania de botar em tudo a religião católica – reclama um diabinho matutino. – Como essa igreja da tua raiz (e sublinhou “raiz”), na qual foste criado e voltaste a amar, poderá sobreviver, com tantos padres pedófilos? – indaga o demônio, rindo. Monologo: torpe Cachorrão. Não sei responder. Ou sei. – Ela resistiu às outras crises – pondero, e aproveito (para ele me deixar em paz) para criticar de maneira acerba a Inquisição, a catequização forçada de indígenas, o luxo do Vaticano (ri sozinho, lembrando das orações do mano Tarcísio, que todos os dias ora pela “conversão da cúria romana”...) e de outros males praticados pela Santa Madre. O Demo Malvado não desiste: – Teus amigos, agnósticos e ateus, dirão que, com a idade, foste ficando carola, como certos segmentos de tua família, que vão à missa todos os dias. Ele não para de sorrir. Não. Não vou discutir. Ele não quer me deixar escrever. Quer me dispersar. Sabe dos meus pontos fracos: que sou emotivo, dispersivo, que sendo atacado reajo, não de maneira racional e serena, mas devolvendo com verbos fáceis, verdadeiros mísseis verbais, como bicho ferido. – Aí tua compaixão vai embora e viras também um ser bélico. Te igualas aos que te atacam – reaje o Diabo. Fico calado. Lembro que o Papa pediu perdão pela Inquisição, aos índios, aos judeus, visitou líderes islâmicos, buscou contacto com os ortodoxos.
AINDA A ROMÊNIA – Volto às reflexões sobre a viagem à Romênia. Rememorando: estamos naquela pracinha em Constanza, no Mar Negro, com a estátua de Ovídio. Tentava decifrar a charada metafísica: de costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto. Volto para Bucareste, os amigos ficam bebendo nos bares da cidade ou tentando conquistar moçoilas bonitas, “não dando bola” para a rapaziada, antibaianas, fechadas, portadoras de pouco sorriso e muita pintura. Uma das mulheres mais bonitas que já vi, fazia um show no hotel para o nosso grupo. Loira e álgida, olhar profundo. Interessante, penso enquanto olho o movimento da porta do hotel; é final de tarde: algumas mulheres são portadoras de rostos maravilhosos, mas não são calipígias... Subo para o quarto, que dá de frente para a principal e larga avenida da capital romena, arborizada e fico rabiscando num papel, tentando interpretar as palavras do digno e culto professor. De manhã cedo ligo para ele, depois do café da manhã.Conto da viagem à Contanza. Marco o encontro. Ático vem ao hotel e indago se estou certo: “De costas para o Efêmero; de frente para o Absoluto”. Sim, a estátua (imagem) de Ovídio, tento decifrar o Efêmero: o Poder, a Glória, Roma (a estátua de Ovídio está de costas para isso).O Absoluto: o mar, a Eternidade e, quem sabe, Deus. (A imagem está de frente para o Infinito, para o mar.) Ático Vilas Boas da Mota ri comovido e me beija na testa, duas vezes, como meu pai sempre fazia. Eu me emociono novamente, e choro, (três lágrimas lentas) no seu ombro. De alegria. – Você entendeu, querido Emanuel – e fico contemplando as flores que caem de uma árvore na primavera romena. Um tremor sul-americano me invade agora; neste domingo à tarde, véspera da partida. Muito andei. Sento num banco de parque e o vento novamente carrega folhas amarelas. Contemplo um casal, outros passantes, alguém rema num lago em frente. E olhando os passantes, medito: Nunca mais estarei com vocês e não será apenas o oceano a nos separar. Qual mímico desajeitado, perdido no velho Leste europeu, faço um sinal para um passante. Saúdo-o, ele retribui, sorri. Acho que é o fantasma de Ovídio, lamentando o vento, escrevendo tristes versos com saudades de casa e de Roma.
ILUSÓRIA SATISFAÇÃO – A satisfação prometida, além de ilusória, quebra com facilidade, e os produtos e valores vendidos, como forma de aplacar esse desejo, são cada vez mais descartáveis e perecíveis. Como observou alguém, o discurso continuará mesmo a não dizer nada, além de que somos animais falantes. Lacan esclarece: “Esse discurso é o discurso comum, feito de palavras para não dizer nada, graças ao qual nos certificamos de não lidarmos frente a frente com o homem é (???) em estado natural, ou seja, um animal feroz.” No modelo vigente, transformou-se o prazer em regra absoluta. O sacrifício, a renúncia e o sofrimento, realidades inerentes ao cotidiano de todos, foram excomungados pelo marketing do consumismo alucinado.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

REFLEXÕES II
Emanuel Medeiros Vieira- Brasília
em memória de Myrna Bier Appel
COMPETIÇÃO – O psicanalista Eduardo Losicer observa que “a nova ordem é competir, consumir, produzir, lucrar, assistir a(???) tudo, cultuar o espetáculo. Todas estas condutas são movidas por compulsões que tentam preencher um vazio interno, seja com bens de consumo, imagens fúteis ou drogas. (...) Este vazio da alma dá origem a condutas compulsivas para preencher este vazio afetivo com dinheiro, roupas, trabalho, imagens de jornais, cinema e TV, bebidas ou drogas pesadas. Todos lutam compulsivamente para incorporar tudo o que podem. Vem daí o voyeurismo, o espetáculo por si mesmo, a obrigação do gozo, a imposição do prazer. Até hoje o prazer é uma lei. (...) O orgulho está em baixa. Pouca gente se orgulha da vida que leva. No entanto, todos sabem que a autopromoção é fundamental.” Como complementou o referido analista, a aparência de bom moço, adotada por ídolos do esporte, executivos de empresas e apresentadores de TV (poderia acrescentar: por pastores eletrônicos, atores de novelas, industriais, o diabo), encobre um sujeito dissimulado que cumpre um papel pré-estabelecido. É a nova versão do invejoso, que já não deseja ser o outro, mas algo imaginário e, portanto, irreal.
BUDAPESTE (MAIO DE 2000 – Penso no Império Austro-Húngaro e contemplo o efêmero (o Poder). Tão bela esta manhã primaveril européia (tão clara como as do Planalto Central do meu país). Finitos impérios. Giro de ônibus pela cidade – pessoas que nunca mais verei – e, num sinal de trânsito, esperando que ele abra, vejo uma moça assoando o nariz, olhando o relógio. Para onde ela vai, de onde vem? Gosta de jogar cartas, sabe cozinhar, lê horóscopo, ama alguém às escondidas? Sim, não mais a verei? Terá filhos? Nova travessia do Atlântico e ela continuará andando pelas ruas de Budapeste; abriu o sinal, a moça atravessou a rua, seguiu seu destino, o ônibus continuou. As civilizações também são mortais. Buda e Pest, a ponte Elizabeth, a bela Igreja de São Matias, a espaçosa e impressionante praça dos heróis, estátuas, as guerras, todo o sangue derramado; turista japoneses aos bandos, máquinas fotográficas. Uma folha . Penso em todos os pés que aqui pisaram. Quero dar notícias para a casa, Clarice, Cristiana, para os irmão do Sul, que estão em Porto Alegre, Florianópolis, e também em São Paulo. Folha de papel, também um guardanapo serve, uma caneta: num centenário café escrevo. Brioches, água mineral com gás, um café encorpado. Uma cigana se oferece para ler meu destino. Recuso de maneira cortês, sorrio, há tantos destinos... Sei que pude amar uma cidade bela e cosmopolita. (Penso também na revolta húngara de 1956 em favor da democracia, desafiando a União Soviética. Mas uma reflexão deste naipe mereceria uma análise profunda. Neste 2006, quando escrevo, faz 50 anos do acontecimento. Meu Deus! 50! Parece mentira. Eu estava no colégio “Menino Jesus”, na Rua Bocaíuva, na ilha natal. Uma linda professora: “dona” Alda. Mesmo que fosse uma normalista de 19 anos, a gente chamava as professoras primárias de “dona.”) BANALIZAÇÃO DE CONCEITOS – As noções próprias da cidadania (conceito fundamental que foi tão horrivelmente banalizado – na TV, qualquer mísero candidato quer “resgatar a cidadania”) vão sendo substituídas por conceitos de consumo, como a de popularidade. Como alguém observou, julga-se o potencial de uma político como se fosse uma marca de tênis ou de sabonete. Tudo vira “marquetagem”, paga a peso de ouro, tudo embrulhado ao gosto do freguês, tudo camuflado em vã retórica. Os programas partidários ficaram praticamente iguais, neutros, cheios de lugares comuns edificantes, carregados de platitudes(???). Os eleitores viraram meros clientes. Os candidatos se transformaram em massa amorfa, bonecos iguais: produtos genéricos, feitos da mesma forma, como detectou outro analista. Já perceberam que os políticos reagem cada vez menos a fatos reais e cada vez mais a eventos de mídIa. Isto é, na agenda dos políticos assume cada vez mais relevância aquilo que aparece no vídeo ou aquele que tende a merecer a sua atenção. Com isso, a política estaria sofrendo uma espécie de virtualização em relação à sua realidade efetiva. A videopolítica concebe o eleitor não como agente político, mas como paciente, consumidor de imagens que emocionam. Daí os programas políticos de TV venderem candidatos e temas eleitorais como mercadorias. “(...) Isto talvez esteja a provocar o desaparecimento definitivo da política como fenômeno coletivo. Isto coloca um ponto de interrogação quanto à sobrevivência do Estado concebido como espaço político coletivo de uma comunidade” – percebe alguém. As chamadas pesquisas qualitativas feitas com eleitores, só “vêem” o que eles querem. Vale para o afago e, no geral, para a miserabilidade de idéias, mas não para um país. E triunfam as mistificações, bem encenadas a peso de ouro, sofisticadas, mas sempre mistificações. Como observou alguém, a realidade dos fatos fica à mercê de quem sabe ludibriar melhor. – É o tipo da conduta que não se corrige com a reforma política – percebe uma analista.
GOLPE DE DE 1964 – Prendeu, torturou, matou, exilou. Já estava sendo gestado. Agosto de 54, suicídio de Getúlio Vargas; tentativas de impedir a posse de JK- Aragarças, Jacareacanga; o contra-golpe preventivo de Lott, em prol da democracia (“retorno às normas institucionais vigentes”); renúncia de Jânio; ações para impedir a posse de Jango, a Campanha da Legalidade, que postergou o golpe por três anos. O golpe: democracia rifada, bloqueada; padre Peyton, passeatas em favor da Família, Deus, Pátria e Liberdade, Ouro para o Bem do Brasil; Essa história agente conhece. Quinhentos e quatro anos, meu Deus! Milagre brasileiro, miséria interna. As responsabilidades não foram apuradas: esquecimento, perdão. Não poderia ter dado certo. Não se tem notícia de alguém ter assumido que amarrou seres humanos no pau-de-arara, seviciou-os com choques elétricos, matou-os a pauladas, sumiu com seus cadáveres e tenha requerido perdão legal. “Não há acusação e punição, inexiste anistia” – raciocina Mário Magalhães. Para ele, considerar a anistia como salvo-conduto aos torturadores poderia sugerir um direito non sense: o regime que promoveu a barbárie teria a prerrogativa de se auto-anistiar. “Estimularia o preceito segundo o qual o autor do crime pode ser também autor do perdão a si mesmo”, escreveu o jornalista citado. Na sua visão (na minha também), voltar os olhos para o que passou não é exercício de arqueologia política. Ajuda a entender o presente. Para ele, é difícil acreditar que o emprego disseminado da tortura hoje, em dependências policiais, não seja herdeiro da impunidade que amparou os torturadores de outrora. “Não basta que a história conte a tortura. É preciso conhecer os algozes e puni-los, como exemplo às gerações. Recorrer ainda ao clichê da ‘fragilidade da democracia brasileira’ para desculpar os torturadores é expediente destinado a eternizar o temor de reabrir feridas. Elas nunca cicatrizaram. (...) Ao mandar os velhos torturadores para a cadeia, a Argentina avisa: nunca mais. Ao deixar para lá os seus, o Brasil dá sinal verdade a novas tragédias” – conclui. A serpente estava no ovo. Sempre está. “Mas as telecomunicações melhoraram.” Vale a pena destruir uma geração para obter tal benefício? Só por isso? Pagamos até hoje. Pagaremos mais. Como já foi dito aqui e insisto porque acho valioso: a guerra continua. A guerra é sempre. Ela não termina com o armistício. Ficam as seqüelas, as muletas, as viúvas. Não seria o reino da democracia formal, a partir de 1985, que mudaria isso.
ESPÍRITO DA ÉPOCA – Superlativa exasperação; cinismo; rostos duros; vastos medos/descrença; o sol nasce, o sol se põe; todos parecem mais contraídos, contrafeitos, as relações parecem duras, áridas, cada passo mais penoso; só colhemos fragmentos da complexidade; o mundo tal como estudávamos (e que os antigos conceberam nas aulas de Filosofia do extinto Curso Clássico (que pena e que burrada terem acabado com ele!) e na Universidade, não existe mais; desapareceram as referências iluministas e humanistas. Salve-se quem puder. Antes, no pôr-do-sol, na “Hora do Angelus”, às seis da tarde, queria-se paz; e dormir pacificado, abraçado a Deus, orando: hoje predomina nos morros das grandes cidades o ruído de balas; gente morrendo a todo momento; a hegemonia é dos traficantes, pastores eletrônicos, corretores da Bolsa, políticos profissionais, loiras oxigenadas apresentando programas de TV; quase ninguém quer mais ler, é muito demorado; tudo é instantâneo e logo se dissolve; é preciso buscar outro prazer, outro ídolo, outra moda, e depois outro, outro, sem parar, numa ansiedade permanente, sem fim, onde não há mais presente, nem passado, nem futuro. Nos programas vespertinos, quase só baixaria, propaganda de porcaria, exploração dos desvalidos. A aventura acabou no mundo? (Minha velha indagação.). Não haverá mais nada digno de luta? Entre mortos e feridos, todos perdidos? Estaremos sempre confinados? A História é um pesadelo: tudo será sempre caos?
HISTÓRIA DO BRASIL – Tiradentes enforcado,Frei Caneca fuzilado, Maringhela tocaiado. (Não apenas rimas, Carandiru, Candelária, Carajás, Vigário Geral, Diadema – todos os dias, sempre, nos fins de mundo deste país. Para a classe dominante, o enraizamento do mito da gente sempre alegre, feliz, bem disposta, não poderia ser de mais utilidade.
SAMBA DO CRIOULO DOIDO – Mais Golpe de 64: pesquisa com jovens mostra que 72% não sabem que o golpe militar ocorreu no Brasil há 40 anos. O ditador Franco foi apontado o general mais importante e Tiradentes um dos torturados no período. Professores atribuem o resultado à má qualidade do ensino. Numa redação, um rapaz escreveu que Tiradentes foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury... Não se estranha quando um jovem universitário (universitário!) afirma que Rimbaud é a versão francesa do Rambo. (É errado dizer que o modelo perdeu a parada. Seus formuladores não queriam isso? Não desejaram a destruição do bom ensino, do talento, da inteligência? Conseguiram. Isso não muda com uma geração. Foram anos de destruição. Perdoem a sinceridade: acho que isso não tem mais volta. Hoje (embutido no que foi escrito acima): a pessoa entende o que ouve, mas não o que lê, pois para ela, apenas a audição está associada ao significante.) DOPS – Natal de 1970, paulicéia, Largo General Osório. Pela minha Cela 6 passou Flávio Império, já falecido. Vi em outra o arquiteto Sérgio Ferro. E tanta gente anônima. Numa noite de dezembro, algemado, chegou Augusto Boal. Levaram-no direto para a solitária, que ficava no final do longo corredor. Uma fria cela. Fazendo uns sinais (que a longa vivência na cadeia política havia inventado), por intermediário e um modesto suborno de um carcereiro (maço de cigarros), ofereci um paletó para que o teatrólogo pudesse enfrentar a cela gelada, apesar de ser dezembro. (Anos depois, quando saiu a Anistia, em agosto de 1979, depois de assistir em Brasília a um espetáculo teatral de sua autoria, procurei-o, lembrando do episódio. Naquela cela, quando cheguei no Dops, em 19 de dezembro de 1970, estava uma senhora do PCdoB, que tossia muito à noite, arrebentada pela tortura. Na cela 5, ao lado da nossa, de manhãzinha vi chegar um frade franciscano, magro, que havia sido torturado toda a noite pelo delegado Fleury e sua equipe. Ele chegou carregado. Não sei se agüentou. Acho que não. Nunca soube o seu nome. Nunca mais o vi. Na cela, quando cheguei, havia um grupo que formava uma célula operária do Partido Comunista de uma cidade do ABC, acho que de Santo André. As pessoas que formavam a célula eram muito pobres. Quando recebiam algo dos seus familiares, que vinham de madrugada de trem, era apenas pães e bananas. Como os outros, haviam sido muito torturados. Eu seria o único naquela cela que recebia regularmente “carinhos” e oferendas dos meus irmãos, irmãs: doces, pães, chocolates, cigarros, coisas gostosas (depois de um período, quando os interrogatórios já haviam sido realizados, isso era possível; ainda mais para a gente, que havia vindo da Operação Bandeirantes – Oban, o lugar mais próximo do inferno que conheci em minha vida). Uma vez me disseram (um delegado que não torturava que se passava por intelectual, que eu poderia trocar de cela. Poderia ir para uma onde estavam alguns universitários. Acho que haviam planejado o seqüestro de um embaixador (Qual? Essa memória dos 60 anos agora falha). Nessa cela, lembro, estava o Sérgio Ferro. Podiam ouvir rádio, receber alguns livros. Haviam apanhado muito. É verdade: foram barbaramente torturados. Naquele período, os algozes já os haviam deixado sossegados. Não aceitei o convite. Se saísse da cela em que estava, os pobres membros daquela célula não receberiam o que minhas irmãs e irmãos traziam. Gesto cristão? Sim. Não deveria contar? Não há, acreditem, qualquer auto-exaltação. Apenas a verdade. Sim: é impossível viver sem compaixão. Os universitários presos naquela cela tinham que escrever muito, a caneta ou numa máquina de escrever portátil, o que os homens da Oban e do Dops, chamavam de “Crítica da Revolução Brasileira”. Em quase todas as madrugadas, escutávamos o tilintar de chaves, levando alguém para interrogatórios (onde a tortura corria solta) no 3º andar (as celas ficavam no subsolo) ou de volta (o pavor maior) à Oban. Por incrível que pareça, alguém havia deixado num canto, um volume de Franz Kafka, O Castelo. A capa estava rasgada, edição antiga, já amarela. Não é folclore: é verdade. Eu pedi e a mana Cida comprou (deixaram entrar), A Ilhado Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Propositalmente, colocaram na nossa cela um preso comum de apelido Tarzan. Às vezes botavam agentes, alcagüetes (que se diziam pertencentes a grupos armados de esquerda, para contar aos policiais o que conversávamos na cela). O apelido havia sido dado porque ele era fortíssimo e, segundo me contaram depois, fora brutalmente torturado em delegacias (havia matado o patrão para o qual trabalhava numa fazenda – acho que foi isso) e não abrira o bico. Apanhou violentamente e ficou calado. De extrato humilde, ele estranhava o fato de eu receber cigarros, doces, pães, chocolates, comidinhas gostosas e de distribuir irmãmente, e ele estava incluído. Um dia, ele me disse: – Falaram (os policiais) que vocês eram maus, que queriam matar muita gente, que comiam criancinhas, que roubavam nossas mulheres, que eram comunistas malvados. Então, porque você me deu cigarros e chocolates e não distribuiu só para seus amigos? – Ele estava absolutamente surpreso. Ele era semi-analfabeto. Um grupo de colegas deu algumas aulas para ele. Na noite em que fui embora definitivamente do Dops, 17 de fevereiro de 1971, cantaram para mim (“Minha jangada vai partir pro mar...”). Todas os presos cantavam, formando uma espécie de coral. O regulamento era esse: quem entrava pela Oban, como eu, tinha que sair por lá; então, tive que dormir mais uma noite, sem tortura, na Rua Tutóia e, no dia 18 de fevereiro de 1971, voltei para casa. Não disseram que eu iria embora, mas eu sabia, porque alguém me falara secretamente. E nessa noite de despedida, Tarzan perguntou se eu tinha algum inimigo. Queria retribuir o que eu havia feito por ele.– Você me tratou bem. Na vida, ninguém me tratou bem – disse. – Se você tiver algum inimigo, você pode me dar o nome que, quando sair daqui, eu vou mata-lo – complementou. E deu o endereço de algumas mulheres, “caso eu precisasse”, me olhando com sorriso malicioso. Ele falava com muita sinceridade. Antes, escrevera com um canivete (não sei como entrara lá) meu nome numa pilastra que havia na cela. Se não foi demolida, o nome ainda deve estar lá. Quando saí, ele havia dado seu endereço, eu e a mana Cida, com auxílio de outros familiares, fizemos um rancho para a sua família e fomos levar na sua casa. Acho que o bairro se chamava Casa Verde. Não, Tarzan, não precisas matar ninguém por mim, e ele me deu um abraço que quase quebrou os meus ossos.