LEÃO DE FORMOSA
Marco Celso Huffell Viola- Porto Alegre
Tenho aqui um livro raro. Um exemplar único de um poeta que poucos escritores/poetas no Brasil tomaram conhecimento: o mineiro Altino Caixeta de Castro (1916-1990) ou Leão de Formosa. Affonso Romano Santa Anna escreveu sobre ele no Suplemento Literário de Minas Gerais, já há alguns anos, há também um texto sobre ele na Revista Agulha da poeta Maria Esther Maciel, que vale ser lido por quem quiser conhecer um pouco mais sobre a poesia dele. O título do livro: Cidadela da Rosa:Com Fissão da Flor- Ed. Horizonte Editoral, de Brasília(1980).Altino é natural de Lagoa Formosa- Minas Gerais- cidade cujo brasão ostenta o dístico criado pelo poeta: “Formosa - Terra do Libertapovo. O que é uma sensível homenagem ao poeta que canta a sua aldeia e, é universal como quer e, é citado por ele Tolstoi.
O exemplar que está sob minha guarda é de José Fonseca é raro porque além de estar revisado pelo poeta, certamente não será encontrado nas boas livrarias do ramo. Leão de Formosa editou dois livros, esse, que é uma antologia de seu trabalho e “Diário da rosa errância e prosoemas”.O fato de ter publicado apenas dois livros, além de colaborações a jornais é uma boa demonstração que não é o volume de publicações que faz um bom poeta, mas a essência do que ele escreve.Escolhi alguns trechos e poemas do livro que talvez possam dar a dimensão da obra de Altino,que pouco saiu das fronteiras de sua cidade, mas as transcendeu com sua poesia.Entre os poemas escolhidos alguns mostram as ligações com o arcadismo(imagens relacionadas ao pastor, sempre presente em sua obra, como as cabras,ovelhas), sem deixar de ser contemporâneo.Leão de Formosa trafegou por praticamente todos os gêneros da poesia, do tradicional soneto as radicais experiências com palavra, mas sempre fazendo poesia, só poesia e boa poesia.
O poeta ser em caminho
dos descampados ali se embosca
se embrusca fauno faminto
em cinzas fezes flores
pastor do labirinto.
( Pastor do Espanto IV- fragmento)
Morada
Eu não preciso do tempo
porque sou eterno.
Necessito apenas
os mínimos espaços
que demoram
entre mim e teus braços
Cura de Aldeia
Aquele cura de aldeia
andava pelas almas e andava pelas noites
sabendo que as capelas andavam cheias de estrelas.
Aquele cura de aldeia
andava de homem em homem
matando a fome da última ceia.
Aquele cura de aldeia conhecia as aldeias e conhecia
os caminhos de todos os lados,
mas o que ele queria mesmo era guardar
os cordeirinhos tresmalhados.
Aquele cura de aldeia só tinha uma loucura;
nas noites de lua cheia
nas noites de lua escura, subir montanha, andar planuras,
e no coração de sua aldeia
realizar a última cura.
Anáforas de minha cartola
Você tirou o pombo do meu adejo
Você tirou a face de minha aurora
Você tirou a ganga de minha lavra
Você tirou o umbigo do meu beijo
Você tirou o gume de minha espora
Você tirou a boca de minha palavra
Você tirou o punho de meu ensejo
Você tirou a face de minha estória
Você tirou o galo de minha garganta
Você tirou o trigo de meu despejo
Você tirou o lume de minha glória
Você tirou a boca do meu espanto
Oferta:
Há tâmaras furadas de sombras
Há pérolas furadas de areia
Há rosas furadas de rezas
Há ramas furadas de lágrimas
Há faces furadas de facas
Há sonhos furados de azul
Há pólos furados de sul
Há éguas furadas de tacas
Há risos furados de frisos
Há cachorros furados de couros
Há falas furadas de anil
Há redes furadas de verde.
É preciso dizer mais alguma coisa sobre a poesia do Leão de Formosa?Sim, só devolvo o livro para seu legítimo dono, sob ameaça, ou no caso de ficar sabendo o que está acontecendo atualmente com ele em Pequim. Caso contrário ele não o terá de volta.
Tenho aqui um livro raro. Um exemplar único de um poeta que poucos escritores/poetas no Brasil tomaram conhecimento: o mineiro Altino Caixeta de Castro (1916-1990) ou Leão de Formosa. Affonso Romano Santa Anna escreveu sobre ele no Suplemento Literário de Minas Gerais, já há alguns anos, há também um texto sobre ele na Revista Agulha
O exemplar que está sob minha guarda é de José Fonseca é raro porque além de estar revisado pelo poeta, certamente não será encontrado nas boas livrarias do ramo. Leão de Formosa editou dois livros, esse, que é uma antologia de seu trabalho e “Diário da rosa errância e prosoemas”.O fato de ter publicado apenas dois livros, além de colaborações a jornais é uma boa demonstração que não é o volume de publicações que faz um bom poeta, mas a essência do que ele escreve.Escolhi alguns trechos e poemas do livro que talvez possam dar a dimensão da obra de Altino,que pouco saiu das fronteiras de sua cidade, mas as transcendeu com sua poesia.Entre os poemas escolhidos alguns mostram as ligações com o arcadismo(imagens relacionadas ao pastor, sempre presente em sua obra, como as cabras,ovelhas), sem deixar de ser contemporâneo.Leão de Formosa trafegou por praticamente todos os gêneros da poesia, do tradicional soneto as radicais experiências com palavra, mas sempre fazendo poesia, só poesia e boa poesia.
O poeta ser em caminho
dos descampados ali se embosca
se embrusca fauno faminto
em cinzas fezes flores
pastor do labirinto.
( Pastor do Espanto IV- fragmento)
Morada
Eu não preciso do tempo
porque sou eterno.
Necessito apenas
os mínimos espaços
que demoram
entre mim e teus braços
Cura de Aldeia
Aquele cura de aldeia
andava pelas almas e andava pelas noites
sabendo que as capelas andavam cheias de estrelas.
Aquele cura de aldeia
andava de homem em homem
matando a fome da última ceia.
Aquele cura de aldeia conhecia as aldeias e conhecia
os caminhos de todos os lados,
mas o que ele queria mesmo era guardar
os cordeirinhos tresmalhados.
Aquele cura de aldeia só tinha uma loucura;
nas noites de lua cheia
nas noites de lua escura, subir montanha, andar planuras,
e no coração de sua aldeia
realizar a última cura.
Anáforas de minha cartola
Você tirou o pombo do meu adejo
Você tirou a face de minha aurora
Você tirou a ganga de minha lavra
Você tirou o umbigo do meu beijo
Você tirou o gume de minha espora
Você tirou a boca de minha palavra
Você tirou o punho de meu ensejo
Você tirou a face de minha estória
Você tirou o galo de minha garganta
Você tirou o trigo de meu despejo
Você tirou o lume de minha glória
Você tirou a boca do meu espanto
Oferta:
Há tâmaras furadas de sombras
Há pérolas furadas de areia
Há rosas furadas de rezas
Há ramas furadas de lágrimas
Há faces furadas de facas
Há sonhos furados de azul
Há pólos furados de sul
Há éguas furadas de tacas
Há risos furados de frisos
Há cachorros furados de couros
Há falas furadas de anil
Há redes furadas de verde.
É preciso dizer mais alguma coisa sobre a poesia do Leão de Formosa?Sim, só devolvo o livro para seu legítimo dono, sob ameaça, ou no caso de ficar sabendo o que está acontecendo atualmente com ele em Pequim. Caso contrário ele não o terá de volta.

