sexta-feira, abril 20, 2007

FRAGMENTOS

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília

CABRAL (Pedro Álvares)

Depois desta terra, ele não quis mais saber de caravelas, nem Caminha (Pero Vaz) escreveu mais nada. E mais tarde: chacinas/propinas - só rimas. Nós? Ainda escrevemos, mesmo que ninguém queira mais saber da gente. Mesmo para os fúteis, bobos (só vaidade e pecúnia), haverá a hora derradeira.

MORTE

Ela sempre ganha: tem mais tempo. DEFINIÇÃO Enternecer-se sem perder a dureza. Assim, velho Che? DEMÔNIO MODERNO Ele aposta na escassez de inconformismo; consumista, desmobilizador, cínico, chic. Soará pomposo, eu sei, mas tenho que dizer: faltarão tumbas para colocar os sonhos amontoados de tantas gerações. Tão comprido o túnel. Tiro o pó das lombadas: sou mortal.

BERLIM, JANEIRO DE 1976

Inverno, dez graus abaixo de zero, neve. Vindo de Paris, estou na casa de cômodos que Alberto Albuquerque e Cleide haviam alugado (estudavam lá). Na vizinhança, muitos exilados, fugidos da ditadura de Pinochet, no Chile, de outros países, sobreviventes de tantas ditaduras; muitíssimos eram sul-americanos. Os gêmeos Carlos e Marcos, filhos da Cleide e do Alberto (dos mais queridos amigos que tive na vida e que partiu para sempre na ilha de Santa Catarina, no início de dezembro de 1991 era 12 dias mais velho que eu, nascido em 19 de março de 1945), vindos ao mundo em 5 de maio de 1973), brincamos, conversamos eu tinha trinta anos, levara cachaça brasileira, livros, um disco de Elis Regina, outros mimos. A gente se dava maravilhosamente bem. Ríamos muito. Até dos malefícios da ditadura, forma de exorcizar os fantasmas e não enlouquecer (Anos depois, insisti para que o Alberto fosse morar na ilha, batalhei por emprego para ele. A família toda foi, moramos juntos, na Lagoa da Conceição, primeiro na bela casa do André e da Martha, na Praça da Igreja que provisoriamente estavam em Londres e, a convite do casal, nós ficamos morando lá, curtindo e cuidando da casa lá em cima, com tão bela vista; depois numa casinha de madeira, que aluguei embaixo; depois Alberto e Cleide construíram a sua, bela e sólida, também na Lagoa.) Berlim: Olhávamos mapas, andávamos pela cidade, fazendo bonecos de neve, eu tentando não escorregar naquela neve toda; vivia caindo... Falamos da vida, do Colégio Anchieta, onde estudamos juntos, dos amigos, dos projetos, dos sonhos que tínhamos em relação ao Brasil, da minha literatura, de sua Ciência Política, de tudo, conversas que varavam a noite, com vinho, chucrute, salsichão, pão preto, cerveja, muito afeto.
Fomos visitar Luiz Travassos, que também já era amigo do Alberto e estava exilado em Berlim. Recebeu-nos com muito carinho, mas senti um olhar triste, uma espécie de banzo, tomamos vinho. Conversamos bastante. Com uma espécie de brilho melancólico, relemos alguns manifestos da AP, que nos energizavam tanto até há pouco tempo (já na época: esse diálogo intenso ocorreu em Berlim em janeiro de 1976). Ironia. Escapou da tortura, enfrentou a solidão e o frio de Berlim, e acabou morrendo num prosaico acidente de automóvel no verão de 1982, no Rio de Janeiro. É muito absurdo. Senti o Travassos muito saudoso do país, ele com um sorriso doce e um tanto (seria isso mesmo?) melancólico.
Já na Ilha, Alberto me mostrou um documento, acho que o passaporte, com foto, da sofrida exilada Dorinha, que não suportou tanta dar e se jogou nos trilhos do metrô de Berlim, e era tão moça ainda. Para a minha memória, esses crimes, enquanto eu estiver vivo, nunca prescreverão. A ala fisiológica do PT (espécie de Arenão contemporâneo), aliado à mídia mais chapa-branca e venal, dirá que isso é revanchismo.Não, não é. O que seria da gente sem memória? O que seria de uma nação sem essa lembrança?)
Mais tarde, em 1980, encontro Luiz Travassos no finado restaurante Coisas da Terra, de comida natural, em Brasília eu freqüentava-o para, de vez em quando, dar uma limpada no organismo e aliviar os efeitos do álcool. Já havia saído a Anistia.
Luiz Travassos estava mais quieto, mais triste. Aquele que havia sido o maior orador estudantil de minha geração (com tantos oradores de grande talento); que conseguia que uma multidão ficasse toda quieta com suas palavras, faltando uns dois anos para a sua morte, já não parecia ter a energia fundamental para suportar as asperezas desta jornada, a nossa travessia na terra num país periférico para o capitalismo hegemônico, de raiz católica, classe média baixa, pai doente, enfrentando uma das elites mais perversas do mundo, e um golpe de Estado que durou vinte e um anos, que nos deu um violento chega pra lá e feriu, como ferro em brasa, nossos anos jovens (voa, pássaro da juventude...), uma juventude toda, liquidando lideranças, destruindo sonhos. Não se passa por isso impunemente. Travassos foi um dos mais belos agitadores que conheci.