terça-feira, maio 29, 2007

JORGE LUIS BORGES VERSUS WALTER SCOTT



Alberto Crusius-de Porto Alegre


Raramente ouço falar nas Obras completas en colaboración, de Jorge Luis Borges, cujo primeiro volume contém seus textos escritos em parceria com Bioy Casares. O segundo, com variados colaboradores, trata de Leopoldo Lugones, do Martin Fierro, dos seres imaginários, do Budismo, e de literaturas nacionais: Uma Breve antología anglosajona, com Maria Kodama e, com outros autores, em verdade autoras, o que é o mesmo; de literatura inglesa e de literaturas germânicas medievais.
No referido segundo tomo das obras completas em colaboração, aquela de autoria partilhada com Maria Esther Vásquez, denominada Introdución a la literatura inglesa, encontro, sobre Walter Scott, a frase em que algum dos autores, ou ambos, afirmam: “Solo podemos mencionar los nombres de SHELLEY (1771-1832), y de SIR WALTER SCOTT (1771-1832)”, que inaugura la novela histórica.”
Para o leitor, é momento de perplexidade. Noutras palavras, as obras de Shelley e de Walter Scott não mereceriam sequer menção?
Ora, como todos sabem, ou como muitos admitiram, sem Scott não haveria Balzac, e sem este a literatura contemporânea.
Assim, Jorge Luis Borges almeja, além do título de venerando e venerado narrador, o de crítico capaz de apagar todo um capítulo na ordem seqüencial da história da literatura contemporânea, onipotente como todos os contemporâneos são hoje e foram em nossos vários passados, particularmente escritores, e entre eles especialmente os do gênero da crítica.
Não é sequer o mais famoso nem o mais escandaloso insurgir-se contra outro escritor marcante por parte de Borges, posto que existem suas afirmações desdenhosas sobre Dostoievsky, mais especificamente, sobre Os irmãos Karamazov..
Mas é igualmente chocante porque, sendo Scott o inaugurador da narrativa histórica, como reconhece Borges, e este um autor que usufruiu da narrativa histórica como forma de autoria, não importa com quanta originalidade o faça, há aqui o sabor suspeito do rancor mal-agradecido.
Até o reconhecimento de Borges poderia ser um equívoco. Já havia narrativa histórica, como demonstra a existência das Mémoirs de Charles de Batz Castelmore, Comte D`Artagnan, que algumas fontes denominam Memórias do Senhor D´Artagnan, Capitão Tenente da Primeira Companhia do Rei, e que seria de 1700 – setenta e um anos antes do próprio nascimento de Scott. A melhor edição completa de uma tradução do ciclo completo dos livros sobre os três mosqueteiros de autoria de Alexande Dumas, de 1920, do Porto, em Portugal, possui dedicatória de Dumas a Sandras, em reconhecimento da criação dos personagens – os quais incluem Milady e o Cardeal – e o folheto da Editora Abril, que cita o segundo dos títulos acima, menciona Auguste Maquet, um colaborador de Dumas que lhe trouxe o livro, do qual existe uma tradução brasileira de 1955, assinada por Laurita Richards, talvez completa.
Nem de longe, este humilde navegador de primeiras águas de web que sou pretende sejam tais informações de grande alcance, e nem tenta acrescer nada a respeito do que acima consta.
O tema de momento é Scott, que o folheto acima referido menciona ter sido o modelo de Dumas como modalidade de autoria, digamos, assim como o livro de Sandras sugeriu-lhe o tema.
Se por modalidade de autoria se entender qualidade estética – e não vejo outro entendimento possível – foi Scott o criador da qualidade na novela histórica, e como a qualidade é algo que se constata nas obras, e não na personalidade ou nos temas escolhidos, a afirmativa de Borges e sua colega de autoria é um estrondoso fiasco, se não pelo menos um perfeito equívoco, e não o único (1).
Que Scott era um estilista de primeira linha é indiscutível.
Basta abrir seu Rob Roy, que nosso naturalizado Otto Maria Carpeaux considerava, na única História da literatura ocidental escrita no Brasil, como sua obra-prima, e ler aqui e ali para o perceber.
Que seja possível ler aqui e ali para fazer tal constatação é o óbvio. As partes revelam o todo, mesmo quando considerado sem a leitura final, e não vou discutir o fato de que se possa constar algo num livro sem o ter lido porque isto é matéria morta, depois de Borges ter se manifestado sobre Crime e castigo declaradamente sem o ter lido, ou da genial ironia de Fausto Cunha que em algum momento escreveu uma frase que é uma obra-prima de franqueza, para acrescer algo alguma informação: “No título de uma obra que não li...”
Nem de longe pretendo que Scott seja um destes autores que deva ser lido apenas por seu estilo. Buffon, é, afinal, um nome já esquecido porque sua mais famosa tese prescreveu, ou morreu de velha, se quiserem: “O estilo é o homem.”
E olha que Sir Walter tinha, particularmente aqui, uma prosa plenamente à altura dos tempos de origem sobre os quais escreve, e do que Borges menciona na mesma introdução à literatura inglesa: a de que nas origens de cada literatura, poesia e prosa eram o mesmo.
Claro, isso pode não ser tudo.
Não quando sabemos todos nós, os pós-existencialistas, que o todo é o que importa, e que o todo está mais além do estilo, lá onde se pode saudar respeitosamente uma Carolina Maria de Jesus como uma grande dama que, tivesse sua obra Quarto de despejo sido considerada com mais atenção, não teríamos as tragédias diárias daquele Rio de Janeiro destes dias em que escrevo isto.
Aqui também há algo mais a dizer de Scott. Nascido antes da constituição americana, da revolução francesa, ao tempo da tradução de Pierre Le Tourneur da obra de Shakespeare para o francês, e falecido antes da obra de Tolstoi, porque antes de que Tolstoi tivesse atingido os cinco anos, Scott será um contemporâneo destas grandes transformações sociais e estéticas, o primeiro grande escritor a vislumbrar tais transformações como parte da matéria-prima da ficção porque transformam o enredo das vidas.
Mais ainda, em Scott há uma consciência do que seja a história, a partir do que nela tem consistência, o passado. A importância disto reside inclusive em que o futuro nos é vedado, como reconhece o próprio Borges, e como o reconhece com insistência, aliás, em suas conferências de 1967 que se tornaram obra tão tardiamente publicada, Esse Ofício do Verso (This Craft of Verse, Harvard University Press, 2000).
Assim, se o romantismo se inicia com o reconhecimento de Goethe diante do notável poeta escocês James Macpherson (1736 – 1796), e da inclusão de textos de seu fictício Ossian que todos ainda líamos com fascínio, inclusos em seu Werther – não me cobrem todo seu longo título – o mundo literário contemporâneo se inicia com Scott, e não quando ele por sua vez traduz versos de Goethe, mas quando reconhece seu país como algo insubstituível, por uma razão comum ao homem contemporâneo: Aquilo que Carpeaux reconhece em Scott como sendo sua principal virtude, um intenso sentimento humano. É algo que em nosso Drummond de Andrade será chamado o sentimento do mundo, certamente não tão próximo ao que Unamuno chamaria Del sentimento trágico de la vida, e mais próximo a algo como um sentimento mágico, e do qual emana o que na América latina chamamos realismo mágico – em Scott algo que acredito perceber como indiscutível. Os temas de Scott não são apenas intenso sentimento humano e pátria, mas a necessidade de que uma pátria seja algo que percebe o mundo como algo a que deve estar integrado.
Logo, a batalha de Borges contra Scott estava perdida desde o início, e ele poderia ter se apercebido disso, curiosamente, se fizesse um pouquinho mais do que tanto fez na vida: leitura, aquilo que nunca se faz em quantidade suficiente.
Explico-me: Borges reverenciava Stevenson. E hoje que Borges já partiu, podemos ler ao final da eficiente nota introdutória de uma edição contemporânea de Rob Roy, em 1995, da Penguin Popular Classics a seguinte frase de Stevenson: Quando penso em Rob Roy fico impaciente com todas os outros romances, eles parecem apenas sombras e impostores; eles não podem satisfazer o apetite que este despertou (“When I think of Rob Roy I am impatient with all other novels, they seem but shadows and imposters; they cannot satisfy the apetite wich this awakened.”).
Parece-me, portanto, perfeitamente cabível também o meu sentimento humano de estar escrevendo sobre Rob Roy ainda enquanto o estou lendo, naquela um tanto miúda letra da edição popular da Penguin.
Ela responde parte da pergunta famosa que até o escondido escritor que sou já teve de responder (“O que é que você está lendo?”), e que sempre me dá vontade de responder com uma série de outras perguntas: Em que gênero? Em que língua? Com ou sem interrupção – e curta ou prolongada a interrupção? Profissionalmente, por lazer, por satisfação cultural ou por mero prazer?
E, sendo em inglês, em letra miúda, e com quinhentas páginas o meu Rob Roy, ele poderá me ocupar pelo menos todo este inverno, longo como todos sempre pareceram, mas agradavelmente longo como nem tantos foram. Para os estatísticos, pelo menos significa daí para mais, e que eu aqui já coloco como sendo daí para fora – eu não me arrependeria de ler Rob Roy pelo resto da vida.
Em tempo, e fica para outra vez, também insurjo-me, é claro, contra a outra hipótese absurda levantada por Borges, sobre Shelley, a hipótese de que dele restasse também apenas o nome. Fica para a próxima.

(1). Certa vez recebi de minha prima Maria Lívia Meyer um exemplar da Antologia personal, de Borges, com a citação que o mesmo faz de Paul Valéry, no prólogo, com a palavra puissance alterada a caneta para jouissance, sem a menor cerimônia. Diante de meu escandalizado telefonema interurbano, ela respondeu simplesmente: “Borges errou”. Tudo bem. Errar é o que nos torna não-deuses, e portanto humanos. Mas há erros que gritam, mesmo no repousante silêncio do texto impresso dum livro. E diante do erro, importa é a reparação. Mesmo quando parte, diante do silêncio oficial, daqueles que são apenas aplicados leitores.

sábado, maio 26, 2007

Porto Alegre vai parar!

Marco Celso Huffell Viola- Porto Alegre

Vai parar de ignorar a poesia que vai invadir as ruas, os becos escuros e sem saída de uma cidade pequena que se pretende grande. Vem aí o Porto Poesia, ancorando nessa cidade que também se pretende alegre e esquece que a poesia é a verdadeira fonte da alegria.Vem aí o Porto Poesia trazendo no bojo a revolução da poesia que acontece em bares nunca dantes navegados, em saraus feitos a dez graus abaixo de zero por poetas loucos, roucos, insones, insanos que gostam de uma arte que ninguém compra e ninguém vende.Vem aí o Porto Poesia que vem para aquecer,desafogar Porto Alegre, desatolar Porto Alegre do seu bem comportado marasmo cultural e, de contrabando,escondido no porão dessa nau capitânia, vem junto a primavera, aquela prima distante de todos os poetas.

quinta-feira, maio 24, 2007

HERCULANO FARIAS POR AÍ NO MUNDO



Alberto Crusius - de Porto Alegre


Durante muito tempo, foi o primeiro mandamento do leitor que se preza: Não lerás orelhas de livro. E, como qualquer mandamento, largamente descumprido. Mais ainda hoje em dia, quando, freqüentemente, ali constam verdadeiras apreciações literárias sumuladas.
Porém, quando recebi, em 1997, as 13 narrativas, de Herculano Farias com dedicatória, nem pensei em prestar atenção à orelha, uma vez que já conhecia seu livro de estréia, Força bruta, editora Movimento, 1979, em que ainda assinava Herculano Farias Júnior, e também Sagrada família, editora Lavras, 1985, no qual a violência sexual incestuosa nas condições desumanas da miséria na qual vivia parcela do povo brasileiro então como agora, assomava como forte denúncia.
Sendo uma seleção, 13 narrativas supriria, pelo menos em parte, suponho, meu desconhecimento de O tambor, editora Thesaurus, 1992, como o anterior editado em Brasília – a edição do primeiro fora em Santa Catarina.
Mas a leitura das 13 narrativas, uma antologia da obra de Herculano numa apresentação gráfica de memorável beleza e qualidade, levou-me muito mais longe do que pensava.
Havia pelo menos duas obras primas no livro de 68 páginas, O tambor, conto que a abria, e Por aí, no mundo.
Falei para muitos amigos meus a respeito do livro, e de meu entusiasmo por ele, mas foi numa releitura, em que, já curioso pelo livro como um todo, e portanto também como objeto, que percebi, na orelha, elogio de Fausto Cunha justamente a estes dois contos. Fausto Cunha foi incisivo: “Admito a segurança de sua linguagem, a perfeição de um texto como Por aí, no mundo, o velho em O tambor, a noção dos detalhes, a frase fincada no verbo concreto, quase sem adjetivos.”
Ou, como afirma Emanuel Medeiros Vieira também ali, Herculano Farias tem “espantosa obsessão pelo descarnamento, pela secura, pela palavra essencial.”
Herculano, suponho – não o conheço – como Emanuel, ou como o gaúcho Lourenço Cazarré, faz parte do grande e meritório grupo de escritores brasileiros que, em algum momento de sua vida se deslocaram para Brasília por razões profissionais, onde fervilha uma inquietação intelectual que parece confirmar a vocação política da literatura brasileira, e que tem na preocupação social e política uma característica de escola, e principalmente de escol.
Brasília pôde contar inclusive com o poeta Domingos Carvalho da Silva, que Fernando Ferreira de Loanda incluiu naquelas duas antologias que talvez sejam as mais famosas e meritórias de poesia da fase recente do Brasil, e conta, desde longe, com o jornal literário da União Brasileira de Escritores, num país em que esse tipo de iniciativa desapareceu, e quando existe é esporádica, e com qualidade também desaparecida.
Assinale-se, ainda, que, ao falar na perfeição de um texto como Por aí, no mundo, o admirável Fausto Cunha estava absolutamente despreocupado com uma espécie de acumulação da palavra “se” lá para a parte final do conto. Eu também estava, e ainda estou. É o começo do final da mesquinharia crítica, da rabugice do policiamento palavra-por-palavra, o início da consideração ao que dá a uma obra sua condição mesma de obra: o todo.
É também o começo da consagração de um autor, aquele em que o todo, a existência de um conceito filosófico primordial da obra, se impõe por sua estética competente no narrar fenomenologicamente. E, como sempre quando não há tese anterior ao texto, e sim despertada por ele, uma fascinante matéria-prima para teses, paradoxo e fascínio ao qual vou resistir optando pela brevidade do texto para meramente noticiar, apontar e sugerir.
Por aí, no mundo, com seu bar no meio do descampado, gerido por um casal de velhos que acha até curioso aparecer um freguês, pela rudeza de seus personagens, por sua vez rude e descarnadamente narrada, é um dos meus contos de favorita leitura, por tudo que nele consta, desde o incomum e belo título do bar, repito, incomum, inclusive como tema. Ele torna o conto uma das raras peças contemporâneas que escapa ao Mal estar na cultura a que se refere uma das derradeiras obras de Freud, que é ainda um dos mais famosos enfoques contemporâneos sobre a cultura.
Acrescente-se que Herculano Farias recebeu prêmios literários entre os quais menciona-se, nas 13 narrativas o Prêmio Otávio de Faria e Prêmio Graciliano Ramos, ambos da União Brasileira de Escritores – mais uma vez percepção a ser feita da movimentação literária em Brasília – e o Prêmio Othon Deça da academia catarinense de letras, além da participação em várias antologias catarinenses, todas elas conhecidas e respeitadas inclusive fora de Santa Catarina: Panorama do Conto Catarinense, Assim Escrevem os Catarinenses, Esse Mar Catarina, Esse Amor Catarina, e de uma Antologia Nacional de Contos, editada em Minas Gerais.

domingo, maio 20, 2007

CELEBRIDADE

Emanuel Medeiros Vieira - de Brasília

O desejo intenso de obter sucesso na sociedade globalizada é um tema do qual não consigo me afastar. Alain de Botton, que escreveu, entre outras obras, As consolações da filosofia, busca a popularização da mesma. No fundo, pretende oferecer aos leitores “ferramentas para lidar de forma mais consciente com os problemas cotidianos.” Seguiria, na visão de um analista, o conselho milenar de Epicuro, segundo o qual, qualquer argumentação filosófica que não tenha como preocupação fundamental “abordar terapeuticamente o sofrimento humano é inútil.”
Para que serve a filosofia? Tiraram a matéria do Segundo Grau.
A ignorância escolar, que já era enorme, cresceu mais ainda. Mas esse é outro assunto.
Fugi do tema da busca da fama, a “obsessão” do homem de hoje pela ascensão social a qualquer preço, já abordado neste livro.
Luciano Trigo detecta que o diagnóstico de Botton é simples: a sociedade nos trata conforme o nosso status. “Até a imagem que construímos de nós mesmos depende dos sinais de respeito do mundo: nosso ego é como um balão que precisa de aprovação externa para continuar inflado e, é vulnerável aos menores sinais de negligência”, interpreta Trigo, que analisa mais: “Além da estrutura meritocrática da sociedade, Botton aponta mais quatro causas para o desejo de subir, a qualquer preço, na hierarquia social: a falta de amor, o esnobismo dos outros, as expectativas demasiado elevadas que temos e a dependência de fatores externos para a conquista do sucesso profissional.”
Então, “a ânsia por status está hoje pior do que nunca, porque as possibilidades de sucesso parecem cada vez maiores”. Assim, escreve o autor: “Estamos rodeados de histórias de quem venceu. Mas é claro que é altamente improvável que possamos chegar ao topo. É tão difícil ser um Bill Gates hoje, quanto era ser um rei no século XVII.” Arremata: “Mas, infelizmente, somos levados a crer na ilusão de que isso é possível. E, dependendo da revista que se leia, pode até aparecer um absurdo não se chegar lá.” Quase todos ficam à margem, e a “celebridade” dura cada vez menos; até abaixo dos famosos quinze minutos de fama.

terça-feira, maio 15, 2007

O Haiti é aqui

Marco Celso Huffell Viola - Porto Alegre


Esse país não precisa de heróis, precisa de homens de verdade

A canção Caetano Veloso e Gilberto Gil é uma acerto inegável sobre esse país.Ela se justifica plenamente.Completamente.
No dia 7 de maio 2007) a RBS (Rede Brasil Sul, a principal rede de comunicações do Rio Grande do Sul) exibiu uma reportagem feita no Haiti pela repórter Rejane Schultz onde ela mostra os brilhantes resultados obtidos pelo exército brasileiro no Haiti na sua missão de paz junto aquele país.
Na reportagem, ela diz que é agora é possível caminhar pelas ruas de Port Príncipe com tranqüilidade e exibe alguns rostos riscados um painel como sendo os dos marginais que atormentavam as populações indefesas que hoje dançam nas ruas com algumas bandeiras brasileiras.Surge também no meio da reportagem um jovem general brasileiro, muito simpático, dizendo que está lá apenas cumprindo a sua missão e que o exército brasileiro quando não está combatendo, está auxiliando a população do Haiti.
Fui ao delírio!
Ao ver uma reportagem assim, a minha antiga profissão de repórter (de repórter policial) baixa como um espírito maligno e começa a querer melhorar a reportagem. E, na verdade, como a profissão de repórter é uma função onde existem mais perguntas que respostas, surge a primeira questão: Porque uma tv do extremo sul do Brasil vai ao Haiti fazer uma reportagem sobre aquele país?
É incomum.
Raramente, pra não dizer nunca, eles fazem reportagens internacionais.
Talvez porque o general que dirige as tropas brasileiras seja oriundo do Rio Grande do Sul, pode ser uma resposta.
Afinal, do Rio Grande do Sul teve por hábito, alguns anos atrás, fornecer generais para governar esse país, bem como civis. E, essa rede de tv não faz reportagem gratuita.Tudo nela é pago, hoje ou amanhã.Seguem a filosofia de que não existe almoço grátis.
Mas isso é apenas uma ilação, sugiro apenas aos leitores que procurem saber e guardar o nome do general, pode ser importante no futuro, o anterior que estava lá, morreu, suicidou-se, parece, em situação muito estranha. Mas quem quer saber a verdade sobre um assunto como esse? Só os arapongas desses departamentos secretos das organizações militares, o respeitável público está se lixando para isso. E os repórteres que passaram por lá, depois disso, não mencionam o fato.
Outra questão: Missão de Paz não é um eufemismo?é uma expressão forçada, pois para conseguir essa paz é necessário guerrear, Missão de Guerra seria mais adequado.
Agora o Haiti.
É um país tão miserável que povo anda comendo barro, (barro com sal, tortas de barro com sal) isso mesmo, barro, aquele coisa que dizem que todos nós somos feitos, de tão miserável que é.
Um povo pobre, autofágico, que não possui nenhuma riqueza significativa, nada, nem em terras, nem em recursos naturais, nada, vezes nada.Só gente faminta e espoliada, desde que os franceses saíram de lá.A colonização francesa teve essa característica, deixar a terra arrasada atrás de si.
E o Haiti só perpetuou o modelo colonialista extrativo.

Ah! Mas porque o grande irmão iria se incomodar em apaziguar um lugar assim? Onde não existe nada para explorar?O país faz fronteira com a República Dominicana que é mais um estado informal norte-americano. E, ali, na República Dominicana está tudo tranqüilo, é possível aos norte-americanos, canadenses e os mais ociosos cidadãos do mundo com muitos dólares na conta aproveitarem o sol fazendo turismo, naturismo, ou simplesmente sendo hedonistas.
Pra que se preocupar com o outro lado da fronteira que só tem vodu?
O grande irmão tem mais o que fazer.Tem que cuidar da paz do mundo, tem que cuidar dos interesses do petróleo, tem que cuidar dos interesses das empresas multinacionais sejam quais forem, esses haitianos...isso é uma África, aqui na América Central, nem consumidores são ah! Pega um exército qualquer sobre a bandeira da ONU e bota lá.
Port Príncipe é menor, aliás, o Haiti inteiro é menor que a grande São Paulo.
Agora vem outra questão, levantada recentemente na Tv Cultura quando foi entrevistado o jurista Hélio Bicudo no programa Roda Vida, quem é o comandante em chefe das forças armadas? Não é o presidente da República? A minha nova pergunta, como repórter é: porque ele, o comandante em chefe das forças armadas não desloca esse exército, esse que apaziguou o Haiti, com experiência em conflitos desse tipo( de rua, dentro de cidades) para resolver o problema das grandes e belas cidades brasileiras onde balas rascantes riscam a noite?Precisa pedir licença pra ONU?Sugiro que nós brasileiros façamos um abaixo assinado para a ONU para conseguir trazer essa força de paz apaziguadora aqui para o Brasil, já que não há vontade política de ninguém para fazer isso.
Basta deslocar esse exército, com esse bonito e generoso general que é guerreiro quando é preciso- como ele afirmou na reportagem- para tomar conta, acabar com as balas perdidas que derrubam mais brasileiros num ano que todos os haitianos que morreram desde que os Ton Ton Macoute largaram aquele lugar esquecido por Deus e feio por natureza.
E, agora perco toda a elegância e mando pra longe a reportagem e chamo esse general as falas, armado, assim, no Haiti, até eu cumpadi, quero ver se neguinho é da porrada mesmo e sobe a Rocinha até o topo, a pé, com a mão na cintura fingindo que está segurando um trinta e oito.
Hoje, não amanhã.
Mas eu não devo entender mesmo de geopolítica e muito menos de relações internacionais para considerar o Haiti mais importante que o país em que vivo. E não conseguir entender que varrer o quintal alheio seja mais fácil que varrer o próprio quintal.
Triste o país que precisa de heróis, já dizia Bertold Brecht. Esse país não precisa de heróis, precisa de homens de verdade.

sexta-feira, maio 11, 2007

ISRAEL: EXÉRCITO OU GOVERNO?

Emanuel Medeiros Vieira- de Brasília


“ANTI-SEMITISMO” OU DEFESA DA AUTO-DETERMINAÇÃO DOS POVOS?

A moça universitária que foi vítima da bala perdida, no final de abril no Rio de Janeiro, na guerra entre traficantes e policiais, procurou atendimento médico por 5 horas. Isso num país de mensaleiros, sanguessugas, de alguns magistrados que não honram a toga, que vendem liminares, de advogados que não cumprem o juramento e fazem a intermediação de sentenças, no vale-tudo geral em que entrou a sociedade brasileira. Mais uma morte que vai para as estatísticas. Até a próxima bala perdida, o próximo velório, a próxima lágrima de um pai, de uma mãe, de um amigo, de um marido ou namorado.




ISRAEL: EXÉRCITO OU GOVERNO?

Em memória de Jarbas Benedet Para Urda Alice Klueger e Fernando Evangelista Vieira

Com o governo de Israel unido à extrema-direita americana, qualquer crítica a violência praticada pelo exército daquele país em relação ao palestinos, é tachada de anti-semitismo. É o argumento mais facilitário, mais gasto, lugar comum cheio de cupins: é arma dos que não têm argumentos.
Qualquer crítica a Israel vira anti-semitismo. Não suporto mais essa mistificação, esse engodo, esse desrespeito à nossa inteligência. Sempre tiram da manga. Mas não convencem ninguém: só iludem os fanáticos de sempre. Israel, no fundo, não parece Estado, mas um Exército.
Essa lenga-lenga acusatória vem desde os tempos de faculdade, desde a Guerra de 67. O sionismo não é um humanismo. Em verdade, é uma afronta ao verdadeiro humanismo humanismo judaico. Mas fechar os olhos para as atrocidades desse Exército, como faz a mídia mais parcial, mistificadora, reacionária ao extremo, alinhada aos setores fascistas do governo norte-americano; essa mídia - porta-voz do capital financeiro internacional – fecha os olhos às piores atrocidades cometidas contra o povo palestino, é de doer na alma, é uma negação do próprio humanismo judaico. (Minha combativa amiga e colega de ofício (a quem dedico estas meditações), Urda Alice Klueger, conhece profundamente o tema – bem mais que este escriba -, e foi vítima de duríssima injustiça por verbalizar o que sentia em suas inesquecíveis crônicas em jornal de nossa querida terra- Santa Catarina. Mas manteve a altivez, a espinha dorsal e não se calou, mesmo às custas da perda de uma coluna em conhecido jornal do Sul do Brasil.)
A maioria fica calada. Tem medo. Sabe onde o Poder está. O verdadeiro: do dinheiro. Do capital, do mercantilismo. Sabe com quem estão os bancos, as grandes redes de TV, de jornais, de rádios. E onde estão as armas mais mortíferas. Tem consciência da montanha de dólares que o Império manda para Israel. Dizem que é apenas um lugar-comum- mas verdadeiro: Israel não virou um enclave imperialista no Oriente Médio? Não? Onde está dinheiro, onde estão as armas mais poderosas? Nas mãos de quem estão os jornais mais influentes? De quem a chamada opinião pública recebe a chamada informação – diária, intensa, massiva? Manipulada, parcial, reacionária? De quem? Se tentasse dizer o que escrevo aqui, por exemplo, na mídia hegemônica, duvido que os maiores jornais permitiriam. Publicariam? São realmente democratas ou me incluiriam no index dos chamados “anti-semitas”? Creio que gostariam de me enfurnar atrás do muro que o Exército de Israel está está construindo na região. O Muro de Berlim não pode. O de Israel pode.
O Irã não pode enriquecer o urânio. Só Israel pode, e é o Estado militarmente mais poderoso da região e um dos mais fortes do mundo. Suas bombas reduziriam a região e parte do mundo a pó. Quero deixar claro (e não por medo de me chamarem de “anti-semita”, mas de rir -, mas por esclarecimento), que me repugnam igualmente as ditaduras árabes, no geral aliadas dos EUA, corruptas, feudais ou medievais. Como não defendo a corrupção que existente em segmentos da Autoridade Nacional Palestina, enquanto seu povo vive na miséria e sob os tanques de Israel. Para quem vive em Israel, a democracia pode existir. Existe. Mas não para “os outros”. Para os outros povos, não. É a diplomacia do cacete. Defesa prévia? Defesa prévia eterna? Defensor das bombas? Eu? Como seria a favor da destruição da vida? Defendo sim a auto-determinação dos povos. Quando alguém oferece a própria vida é porque não tem mais nada a perder. É porque não tem mais esperança no cumprimento de tratados (como os de Oslo), em negociações, em nada. E são meninos aindas os que não se submetem ao cruel exército de ocupação. O que foi a revolta dos jovens palestinos? A Intifada? Época da pedras contra os tanques. Quem oferece a própria vida, não tem mais nada a perder.
Ao governo (“Exército”) de Israel interessa REALMENTE a paz? Israel sempre arruma um pretexto. Sim, pretexto camuflado em retórica vazia. A opção preferencial é pela truculência, pela brutalidade, pelo assassinato em massa. Conversem com jornalistas independentes e imparciais que estiveram por lá, como Fernando Evangelista. Perguntem sobre o tratamento dispensado pelo Exército de Israel a esses profissionais? Estariam repetindo, de certa maneira – a indagação perturba certa parcela da mídia, que logo parte para a agressão verbal - as práticas infames sofridas por seus honrados seus ascendentes nas mãos dos nazistas? Enquanto não for resolvido conflito no Oriente-Médio e o povo palestino não viver “soberanamente” num Estado realmente seu, sem as botas da ocupação, o banho de sangue continuará. Não tem jeito Um povo que não lute pela sua soberania, um povo que não lute para ter seu “lar” – e um lar que já foi seu- não merecerá ser lembrado com respeito pela História. Palavras anti-semitas? Por favor: arrumem outro argumento. Não subestimem nossa inteligência. E que novamente é preciso repetir: nenhum povo tem o monopólio da dor, do sofrimento, da humilhação. Na Segunda-Guerra mundial TAMBÉM foram mortos, ciganos, comunistas, cristãos e diversos povosa. Ou não? O sofrimento só atingiu um povo? A mídia hegemônica quer dizer que sim* *Uma pergunta que não quer calar: A resistência francesa que combateu heroicamente a invasão nazista seria chamada hoje de “terrorista” pela mídia hegemônica?

quarta-feira, maio 09, 2007

Cultura não é entretenimento- ou então vamos criar o ministério do entretenimento

Marco Celso Huffell Viola - Porto Alegre

Sou fã de carteirinha de Gilberto Gil há muitos anos, compositor e músico sensível como raros no Brasil, não fiquei admirado com a sua aproximação com o atual governo. Gil sempre foi um artista engajado nas lutas sociais, sofreu com a censura no período da ditadura e mesmo depois continuou atuando politicamente, além de manter a sua carreira de músico e compositor. Atitude incomum nos artistas brasileiros, contemporâneos, que preferem ignorar o seu em torno ou então, mantém atitude de alienação, como se o artista estivesse fora do mundo,quando não têm atitudes meramente reativas ao noticiário da mídia, porque perderam a capacidade de refletir sobre a realidade adjacente.
Não sei se Gil precisou assinar ficha em algum partido para atuar como ministro da cultura, o que não chega a ser relevante. Também não achei inadequada a sua indicação, li várias entrevistas onde ele dizia acreditar ser possível atuar dentro do governo e auxiliar a melhorar a realidade do país.
Houve ocasião em que ele foi vaiado por estudantes insatisfeitos com o seu ministério e do da educação.Pensei que depois disso ele iria se afastar do governo já que como artista popular nunca havia sofrido uma vaia ou condenação do seu trabalho pelo público. A ligação entre política e a arte quando se torna muito presente na obra do artista, acaba prejudicando a arte do mesmo.Fica mais difícil separar os dois, quando o artista põe a sua arte a serviço da política.E, nessas ocasiões, raramente o público separa o artista do político que exerce um papel momentâneo na vida do país.
Minha admiração pelo seu status de político aumentou depois disso, mesmo sabendo que o Estado que ele representa quase nada tem feito de importante para a cultura, é possível contar nos dedos as novidades surgidas nesse governo na área cultural.As leis de incentivo continuam a mesma droga de sempre, a do livro, não afetou em nada o preço final do livro, teatro, música clássica, todas as artes e artistas, todos, invariavelmente, continuam correndo atrás de patrocínio privado, não existe realmente uma política pública real de apoio à cultura nesse país.Não posso condenar o ministro por esse quadro que vem de longa data e não sei mesmo o quanto de novo ele tem feito para modificar essa situação ou apenas segue apagando incêndios.
No dia 8 de maio ele deu uma entrevista ao Observatório da Imprensa sobre as novas políticas para tv e internet.Durante a entrevista mostrou todo o seu entusiasmo com a criação desse novo sistema que começa a ser apoiado pelo atual governo e que pode realmente possibilitar a democratização e a pulverização da cultura no país, através da facilidade do acesso ao uso maciço da tv e internet, se tudo o que se diz sobre o assunto for realmente verdade.Na longa entrevista que o ministro deu a Alberto Dines, na minha opinião, resvalou em apenas um assunto: Confundiu cultura com entretenimento.
Mas essa não é uma confusão só dele, o repórter Dines, mesmo com larga experiência que tem, entrou na do ministro e pareceu acreditar que cultura é sinônimo de entretenimento ou as duas são a mesma coisa.Se alguém tem alguma dúvida sobre isso basta ir atrás do dicionário para conhecer a distância abissal entre as palavras e o significado de cada uma.
A noção que cultura é entretenimento (ou diversão, para usar um sinônimo mais adequado) começa a partir da segunda guerra mundial com o predomínio cultural norte-americano sobre a arte. E nenhum segmento artístico ficou imune a isso e, a televisão brasileira, que era o assunto em debate do ministro com o jornalista, seguindo o mesmo padrão da tv americana tornou-se sinônimo de diversão ou entretenimento.
Mas é preciso que alguém diga ao ministro, que também, até onde se sabe, ele não é um ministro do entretenimento e sim da cultura, que a cultura está acima, além e também subjacente ao entretenimento.
Você pode ver um programa de televisão na Bósnia, cópia de um programa de televisão americano que, mesmo assim, os bósnios vão se comportar como bósnios e falar como bósnios, ou seja, cultura é o que faz um sujeito ser bósnio ou não bósnio.Entretenimento é o que os bósnios fazem pra se divertir, ocupar seu tempo ocioso como bons bósnios que são.
O entretenimento é um aspecto da cultura e não a cultura em si.Será preciso ser mais específico que isso?
Se a arte, a filosofia ou a educação, por exemplo, fossem feitas apenas para entreter talvez vivemos no melhor dos mundos e a nossa vida fosse um show permanente onde passaríamos cantando e abanando os braços para cima, feito idiotas, ou num filme hollywoodiano onde viveríamos iluminados pelos holofotes.
Continuo fã do artista, do ministro nem tanto apesar da confusão sobre esse assunto não ser só dele.Agora, que esse país está precisando muito de cultura isso está.

domingo, maio 06, 2007

PRAGA DO DIA DAS MÃES

Emanuel Medeiros Vieira- de Brasília


É como a chegada do verão, do outono. De cada dia. O mercantilismo não pára. Agora é a praga do "Dia das Mães". (Entendam: a praga não é a mãe. É o mercado do capitalismo tapuia.) Nada que eleve o espírito humano. Nada que dignifique o ser. A impressão é que todas as mães querem um celular. Que todas mães querem "coisas". (Talvez, na internalização desses valores, queiram mesmo.) Muitas são fúteis, tratam melhor seus cachorros que os meninos de rua; pagam pessimamente as domésticas, mas não deixam de lado a jóia e o vestido novo, além da plástica anual. (Não adianta, senhora: ficará velha de qualquer jeito.)
E as empresas privadas de telefonia (protegidas por gente graúda do "país cordial"), privilegiadas no reinado de privatização do "príncipe" FHC - o dia em que forem abertos os arquivos das privatizações do reinado tucano será descoberto um dos mais profundos e tenebrosos escândalos de corrupção e favorecimento da República -, onipotentes, cobrando caro, apenas "respeitando" o consumidor em propagandas maciças na TV, se dão bem às custas da ignorância ou da sede de consumo. "Troquem seu celulares e sejam felizes". Ou as duas coisas juntas: infinita ignorância e enorme vontade de consumir. (Tente reclamar de uma conta errada, de algum, engano. Mergulhe no inferno tecnológico. Disque 3. Disque 4. Disque para o inferno. Escute uma musiquinha, a voz mecanizada, plastificadamente erotizada de uma moça terceirizada. A ligação cai. Se conseguir outra, terá que novamente passar todas as informações que já deu, identidade, endereço, CPF, o diabo.)
É o inferno refrigerado, de que falava Henry Miller. Tenha o seu carrinho, o seu empreguinho, faça amor 3 vezes por semana com sua mulherzinha. Tudo no diminutivo... Dê-se bem na vida às custas da desgraça de todos os danados do Brasil. E vá levando sua vidinha; veja a novela das 9, o "Jornal Nacional"- espremendo, ele também faz jorrar sangue. Como entende-se a angústia de um Nietszche diante da mediocridade humana! Quem se lembra? Transamazônica (que o mato comeu), Capemi, Proer, Grupo Delfin, Anões do Orçamento, República de Alagoas, sanguessugas, mensaleiros, correios, compra de votos para a reeleição de FHC, o abafamento de CPIs, concessão de canais de rádios e de tevê o perdão de um "impoluto senhor do Pará", hoje deputado federal, pelo governo Lula- cada vez pior, cada vez dizendo mais baboseiras, cada vez mais incompetente e narcísico. E, gravíssimo: a contaminação de parcela de altos escalões do Judiciário nas teias de uma corrupção, que parece cada vez maior. Sim: quem se lembra? Compre uma TV e seja feliz! Não pense! Dê um celular para a sua querida mamãe e faça um mulher feliz! Livro não. A vista da genitora ficará cansada. "Livro é caro": o álibi dos que não suportam ler. (É caro sim, mas não pelas razões dos analfabetos funcionais.) E vá à tripa forra no espeto-corrido do domingo das mães ou no macarronada com a sogra, antes do Faustão. E eleve seu espírito com o grande humanista! Cresça mais um pouco com o "Fantástico". Parabéns.

AINDA SOBRE DROGAS:

A postura de passar a mão na cabeça de viciados, não é humanista, não ajuda o dependente. É uma maneira de exorcizar culpas: pela ausência, pelo egoísmo, pelo desinteresse real em relação à educação do filho, pela desustruturação familiar, celebrando casamentos às pencas como se o ritual fosse um piquenique. A hegemonia absoluta do meu prazer é sempre a negação do outro. Sim, uma geração foi brutalmente reprimida. Uma outra, pegou o rescaldo. É essa, talvez, a que mais me entristece, que viveu muito tempo num purgatório existencial, sem projeto, impotente, calada, restando o "consolo" das drogas, do vazio e da poesia neo-parnasiana, conretista (essa é o horror dos horrores!), realmente ruim e alienada. Essa geração - que tem hoje, arredondado, uns 50 anos -, pela impotência, me parece mais sofrida que a minha, a que nasceu no final da guerra, em 1945. (Sim, viveu na clandestinidade, foi torturada, foi para o exílio, mas - para o bem ou para o mal - tinha um projeto para o Brasil.) "Mas perderam", dirão. Sim. Perdemos. Mas isso faz parte da vida. A anterior à nossa, gerou epígonos do concretismo, professores universitários medíocres mas presunçosos, e uma gigantesca massa de vis imitadores de Guimarães Rosa ou adeptos de um psicologismo que pensam ser herança de Clarice Lispector. Ah, existem também os imitadores de Osman Lins e João Cabral. Pobre Clarice, tão maior que essa gente presunçosa e, literariamente, tão ruim. (Uma das experiências mais dolorosas é ler um imitador de Guimarães Rosa. Talvez seja pior que ler uma tese de mestrado...) Voltemos ao pai que foi reprimido e quer "compensar" o filho: crê que exorcizará a dura educação que recebeu, fazendo tudo o que o filho quer ou "manda". Dá presentes, faz agrados, aumenta a mesada, é pai complacente, idiotizado, sem autoridade. Ou tem medo do filhote. (Sim, autoridade. Não falo de autoritarismo, não estou falado de Médici.) O que este perdido pai está deixando? Uma geração desfibrada, covarde, "corajosa" só em gangues ou grupos; o guri crê que é muito "macho" se beijar 100 mulheres numa festa. (Não sabe que quem beija 100, não beija nenhuma..) Sim, houve uma ditadura. Mas isso não é alibi para pais,- que fumaram "baseados", acharam que Florianópolis era um paraíso (foi um lugar bom para se viver, mas há muito tempo, antes de ser loteado pelos ricos de todos os lugares, inclusive meus conterrâneos, não só gaúchos e paulistas e a praga dos argentinos - que nunca leram Borges, mas sabem invadir terrenos de vizinhos); e acenderam "incenso", internalizando um misticismo de araque, lendo idiotices de auto-ajuda. De calças ou de saias: estas são supostamente mulheres mais profundas, mas que só escrevem platitudes, lugares-comuns sentimentais, melosos, enriquecendo e dando palestras a peso de ouro às custas da burrice geral brasileira. Posso e devo ser amigo de meu filho. Mas ANTES sou pai. Para agradar, os chamados modernosos, permitem que a filhinha durma em casa com o namoradinho. Tudo no diminutivo. É obrigado a ver o garotão andar de cuecas pela casa, abrir a geladeira, refastelar-se no sofá. E agüentar calado. Sem trazer o chicote... Nada disso. Và à luta, rapaz! Não moraram em repúblicas, ganham mesadas, não fazem um trabalho de voluntariado, têm o seu carrinho e não conseguem tirar uma nota digna na escola. É preciso, tendo consciêntica ética e não sendo um sepulcro-caiado, remar contra a corrente, mesmo recebendo pauladas à direita e à esquerda. É o preço a pagar pela nossa autenticidade. É essa complacência que gera esse conformismo propício à germinação de formas novas de fascismo. A rapaziada vira uma massa amorfa. Podem vestir uma camiseta com a foto do Che, como fosse sinal de inconformismo. Como se o guerrilheiro fosse um moleirão passivo e não renunciasse à vida fácil. Pobre Che, incorporado ao mais sórdido capitalismo. Enternecer-se sem peder a dureza. Nunca. Cada governo tem o povo que merece...

quinta-feira, maio 03, 2007

Um textinho de Cecília Meireles-e um pouco de tv aberta

Marco Celso Huffell Viola- Porto Alegre

Pedro Bial em um dos últimos episódios da série BBB7, para criar um clima na despedida de mais um participante, resolveu ler um “textinho de Cecília Meirelles”, os participantes que não tinham a mínima idéia de quem é/ou foi Cecília, ficaram sem entender a razão da leitura do “textinho”, o respeitável público também não entendeu, porque também não conhece uma da maiores poetisas da língua portuguesa e sem exagero da poesia ocidental.
Bial que foi um dos jornalistas importantes desse país, parece que resolveu jogar o seu currículo de grandes reportagens e entrevistas como as realizadas com Darcy Ribeiro, João Cabral de Mello Neto, entre outras, no lixo da comunicação imbecil e rasteira. E tem surtos como esse, onde tenta aparentar algum aspecto de intelectual e acaba atirando na banalidade o nome de Cecília Meireles em um programa realizado para 50 milhões de semi analfabetos ou analfabetos culturais, com participantes semi-analfabetos apresentado por um jornalista que esqueceu ou nunca teve a noção entre o importante e o fácil.
É fácil enganar um povo como o nosso, carente de tudo.
Basta brincar com a esperança daqueles que nada tem, constranger mulheres de poucos recursos a mostrar seu corpo e o diabo dá risada feliz a cada domingo que os índices de audiência empatam entre as mais importantes emissoras do país.
E, essas emissoras, sem nenhum compromisso com nada a não ser com o seu faturamento, exploram a credulidade, empurram pseudomúsica, pseudocantores, pseudo-atores guela abaixo dessa multidão de miseráveis.
E vamos rir do sujeito que caiu no chão, que caiu do telhado, que caiu, que caiu de algum lugar, que levou uma pancada, tudo narrado por um apresentador mal educado e grosseiro.
Aliás, a grosseria é marca registrada de alguns programas, onde a grosseria intitucionalizada tenta aparentar independência dos valores mínimos de convivência social e respeito físico pela integridade do próximo quando na realidade demonstra é falta de inteligência em fazer algo melhor.
E o resto da programação segue num ritmo de gincana, de todo o tipo, cada uma mais infantil que outra.
Quando não aparece um padre cantor, numa emissora católica, travestido de padre, usando um sobrepeliz vermelho que canta rebolando em cima do altar em meio a uma missa, cantando canções que ofendem a mínima noção do que seja música e letra. E outro, na mesma emissora católica, oferece à venda uma jóia em forma de cruz com terra recolhida em Israel.O clip da busca dessa tal “terra santa” pelo padre nada fica a dever aos clipes mais bregas da MTV, é de arrepiar, chega a ser pornográfico, o padre caminhando descalço, olhando para o infinito, entre as águas do Rio Jordão.Repulsivo.
Enquanto isso, a igreja diz que faz, esse ano, a campanha da fraternidade sobre a Amazônia e essa emissora de tv não realiza um documentário, uma notícia, uma pesquisa sobre a Amazônia e, depois da missa, volta o padre cantor a repetir ladainhas para uma imagem de um santo pregada na parede.E repete suas frases com tanta veêmencia, que só sendo santo pra aguentar um chato daquele tamanho.
Mas, enquanto a tv católica ignora a Amazônia, a outra, para enfeitar a sua grade de programação, gasta alguns milhões para produzir uma série sobre da Amazônia com veleidades sociais, utilizando uma mistura de textos que a autora não credita a ninguém a não ser a sua genialidade. Mas isso é para ser exibido às 23 horas, quase proibido para os menores em inteligência e percepção que podem interpretar mal aquelas questões de conflitos agrários que terminam por glamourizar e mitificar a luta de Chico Mendes e tantos que morreram naqueles conflitos que continuam ocorrendo, tornandos palatáveis e de fácil assimilação, tirando desses conflitos agrários o que tem de importante em troca de uma maquiagem mal feita, mas de aparente bom gosto.
Em nome da audiência criada e forjada pela estrutura dessas programações, há personagens como Jô Soares cujo programa copia os modelos de talk show norte-americanos, e que tem por objetivo de fazer rir permanentemente uma platéia escolhida de estudantes, que autentica a mediocridade das entrevistas. Quando eles riem, a entrevista vai bem, quando eles ficam quietos é hora de chamar as vinhetas e trocar o entrevistado.
Em recente entrevista realizada com o poeta Affonso Romano Santana que divulgava dois livros seus de poesia, na ânsia de agradar o auditório, ele pergunta se o Affonso não conhecia nenhuma quadrinha de banheiro.
Pior que essa, só a tv italiana ou da Libéria, se a Libéria tiver tv aberta.