REFLEXÕES V ("Uma Tragédia Americana e outros temas".)
Emanuel Medeiros Vieira- Brasília
Mais uma tragédia americana. Alguém sai atirando numa universidade. Morrem trinta e poucos estudantes. Outros, mataram em escolas secundárias. Sobem nos correios e matam. Sobem em lanchonetes e matam. Atiram de qualquer lugar. Repulsa, análises. Depois: esquecimento. Até a próxima tragédia. É a cultura da morte, do revólver, do hiperindividualismo. Sim. Mas será só isso? O Anjo da Morte conhecido como Bush confessa-se "horrorizado". Não deveria. Pois, a cada dia, ele alimenta a indústria deste "horror" que ele, hipocritamente, condena; enriquece a indústria dos armamentos, os barões do petróleo. Não está ao lado da vida. Está contra um princípo que, na consciência civilizada, não pode prescrever: o da auto-determinação dos povos. Não, não quero pessoalizar. O presidente (vitorioso em eleições fraudadas) encarna um tipo de valor. Antes, davam golpes de estado: nossa América era mero quintal. Foram ao Vietnam. Mataram, jogaram as bombas mais potentes que o mundo já havia conhecido. Mataram, continuaram e mataram. E saíram derrotados. O Iraque é um massacre diário. Ninguém se espanta mais. Estamos jantando e o notícia informa: 60 pessoas mortas, 80, 100. Todos os dias. Sim, é a mesma cultura que gerou escritores- só citando alguns mais "recentes"- como Faulkner, Steinbeck. E cineastas da estatura de Orson Welles e John Ford. Sim, o Brasil gerou Machado de Assis, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa. E Drummond, João Cabral, Vinicíus. E Cartola, Villa Lobos, Lupicínio, e Pixinguinha. E Fleury e todos os torturadores do DOPS, da OBAN, do CENIMAR, do Estado-Novo - que levou o velho Graça para a cadeia, onde rasparam seu cabelo como preso comum. E onde Marighela teve o dente arrancado com torquês e, mesmo a direita reconheceu que poucas vezes na história do Brasil houve um homem tão corajoso como ele para enfrentar a tortura. (Só quem a sofreu - e é difícil escrever sobre ela - sabe como é difícil resistir. Às vezes, é praticamente, impossível.) Os antecessores enforcaram Tiradentes, fuzilaram Frei Caneca. Canudos! (Creio que todo o brasileiro tem a obrigação moral -nem falo da grandeza literária- de ler "Os Sertões", de Euclides da Cunha. E reler.) Os donos do Brasil sempre reprimiriam com violência os movimentos sociais, com o apoio das elites e, quase sempre, (como em 64) da classe média. (Sim, somos poucos sempre seremos. Mas parecemos muitos.) E através da enganação do mito da "cordialidade, do povo "alegre e feliz", foram nos ludibriando, nos livros da história, na falsa convivêcia fraterna. Imperou a lei do trambique, da enganação.
NÃO ESQUEÇAMOS NUNCA DOS QUASE 400 ANOS DE ESCRAVIDÃO.
Internalizada nos corações e nas mentes, no elevador de serviço para empregada, no baixar a cabeça para o doutor. E a degenerescência contaminou todos os poderes. Bicheiros compraram escolas de samba, como manipularam resultados de concursos. Tornaram o carnaval uma putaria para gringos, loiras e ricos. E o narcotráfico penetrou em todas as instâncias. Movimenta bilhões de dólares Penetram no Judiciário, no Legislativo, no Executivo. E aí estamos. São presos pela Polícia Federal. Operações espetaculares com nomes sofisticados. Depois, o "habeas-corpus". Advogados caros que se especializaram em salvar a pele dos grandes ladrões e velhacos da República. Entendo quando Lênin, desconfiado dos advogados, dizia: "Advogados? Nem os do partido..." Lógico, generalizo. Sou bacharel e conheço as entranhas do que chamam de "Justiça": não acredito na prática de um Direito formal que só está preocupado com os rito (e os ricos...) e não com a verdade. A herança maior do Existencialsmo - que muito me marcou, e ajudou a aderir ao movimentode "esquerda" que achava mais digno- foi a "autenticidade". Falam muito nela. Praticam pouco.
PARA QUE SE QUEIRA QUE O OUTRO ACREDITE EM MIM, NO QUE DIGO E NO QUE FAÇO, EU PRECISO ACREDITAR PRIMEIRO. Isso é Bachelard. Isso se chama autenticidade. Teoria e pática. Sim, não basta que nossas idéias sejam justas e boas. E foi nos "contaminando" a cultura da trapaça, das pequenas às grandes: ultrapassar sinal vermelho,falar ao celular no trânsito, furar fila do banco, do mercado, tentar subornar o guarda, quando estacionamos em lugares proibidos, e puxar o tapete alheio. "SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?" A casa grande, a senzala. Vamos germinando a grande tragédia brasileira. Da patifaria institucionalizada. Não, não me importam pesquisas que colocam o presidente nas alturas. Consultas feitas a um povo que recebe um bolsa-esmola, de uma cultura resignada, massacrado por uma midia televisiva dia e noite, que não dorme nunca, colonizando corações e mentes, não me desaninam (antes, me entristeciam- percebia vitória da máquina tenebrosa dos marqueteiros e publicitárioa). E o movimento neo-petencostal de direita entrou em todas as tribos índigenas. Sem teoria conspiratória, fontes confiáveris, dizem que é um projeto da CIA. Tudo fica normal. Um Cristo alineado, um Deus punitivo. Tudo é pecado. E os "bipos universais" enriquecem, compram tevês, rádios, invadem a África. Todos ficamos resignados. Que nos devolvam o Cristo não mercantil que nos foi roubado! O Vaticano acabou com a Teologia da Libertação. Restou a Teologia da Prosperidade. A violenta mídia direitona (como certas revistas semanais, notoriamente sionistas-não herdeiras do humanismo judaico- isso é outra coisa), beirando o fascismo na abordagem da política internacional) colocou ajudou a enterrar o evangelho libertador. E achincalhou padres, missionários e bispos que deram sua vida em busca de um Cristo do povo. E a matança de nossos jovens, nas favelas, nas periferias, continua. Pobres, jovens, negros, vindos de famílias desestruturadas. Diária, anônima, constante. Segundo pesquisa, morreram mais jovens brasileiros que americanos- que viveram em guerras -, desde a de Secessão até a do Vietnam. A morte banalizada. Preto, pobre, descartável, jovem. (Mas a novela mostrando uma elite trambiqueira, feliz, seduz a platéia, como os programs infames como o do "grande irmão", com seu tipos idiotas, beirando à imbecilidade, mas que se acham o máximo, com corpos malhados nas academias da moda. Que seduzem "pistoleiras", quase prostitutas de luxo de mente vazia. Afora as idiotices domingueiras, os programas religiosos, os "milagres". Um povo carente e miserável aceita tudo. (Numa igreja de "bispo" aqui em Brasília, onde "templo é dinheiro",disseram que um homem não tinha diabetes, mas sim o demônio, e determinaram que ele parasse de tomar insulina. Morreu pouco tempo depois. Quem fala? Quem se lembrará? Quem chorará por ele? Anônimo, descartável.) Como captar esse "insconsciente coletivo"? Para um romance ou novela. Não, nem peço um romance-cadetral. Nessa miséria mental, hoje talvez ele se impossível. Não, não sai "Guerra e Paz", não sai "Vidas Secas", não sai "Dom Casmurro", não sai "Grande Sertão: Veredas", nem "Quarup". Teremos trágicos como Dostoievski? Por-que a filosofia não prosperou nos trópicos? Mas poderia sair um romance/novela forte, bem escrito, denso. Material temos. Desistimos? Há uma grande fonte para a literatura que queremos inventar. Lógico, literatura de qualidade, plural, sem querer destruir o outro, respeitando os estilos, as gerações. Convergindo. Mas que tenha valor. Não, não tem Adão literário em nosso ofício. Acredito mais em "confluências" que "influências." Reinando a intriga, a "panelinha", o "latifúndio literário", as grandes editoras publicando sempre as mesmas vacas sagradas, não poderemos ir para frente. Mesmo os ditos suplementos literários não enriquecem o debate: consolidam os latifúndios, publicam, sempre os mesmo- que, ocupam espaço como ele fosse usucapião literário, numa vaidade desvairada, contando com contactos na imprensa ou por filiação. Pais na academia, pais na política, pais no exército ou "esquerdistas profissionais"- filhos de nomes ilustres e honrados, que tergiversam até para chamar "mensaleiros" de ladrões. Até a "unanimidade" Chico Buarque tergiversou, mudou de assunto. Defende Lula e pronto. Vaca sagrada não pode se questionada. Mas vamos questionar. (Prefiro ler Kafka mesmo e não epígonos.)
Há muita covardia e oportunismo. E nas editorias dos suplementos, há jovens que acreditam que a literatura começou com eles. Precisamos - não desistir-, mas lutar, mesmo com eventuais desânimos de maneira mais forte ainda Romper a crosta do pessimismo imobilizador e segura as pontas das eventuais depressões (normais). Não somos deuses. Somos de carne e osso, num país, no começo de um novo século e, repito, com quase 400 anos de escravidão nas costas. Vamos ler. Vamos escrever. Vamos nos ajudar. Sempre: mal rompe a aurora, parodiando a expressão de Drummond.


1 Comments:
Emanuel: O caminho é bom mas a trajetória será bem longa, difícil e complicada...
Já disseram que deus teria falado que aqui se teria uma terra em que em se plantando tudo daria e se teria uma natureza maravilhosa mas que aqui se haveria de ter o pior povo do mundo...
Embora se deva ter cuidados com esse conteúdo, parece que a realidade brasileira não está muito longe desses "adágios"...
Com abraços do,
Gerônimo - Fpolis (SC) BR.
Postar um comentário
<< Home