segunda-feira, março 12, 2007

MEYER,MACHADO, CARROLL, BORGES...



Alberto Crusius –Porto Alegre


(...)`Such a
trial, dear
sir, With
no jury
or judge (...)

(Alice in Wonderland)


Surpreendi-me quando me solicitaram obter série de frases para uma reedição de obra do Machado de Assis, de Augusto Meyer, com o que pensaram algumas das grandes personalidades literárias brasileiras sobre o último, em obra para a qual me solicitaram ainda um posfácio.
Grande Augusto Meyer, como o chamou ninguém mais nem menos do que Monteiro Lobato. Grande poeta, acrescentou Mário de Andrade. Não só grande poeta, como grande crítico, emendou Manuel Bandeira.
A poesia de Meyer ganhou adeptos muito respeitados, tais como Vinícius de Morais, que o selecionou para uma antologia argentina com o que considerava nossos grandes nomes. Dela, Carlos Drummond de Andrade afirmou: poesia grave que tem uma doçura meditativa e busca as essências.
Literatura e Poesia, única obra de poemas de Meyer que não utilizava o verso como forma, mereceu de Mário de Andrade comentário entusiasmado: A meu ver, um dos melhores livros de poemas em prosa. Recordo ainda outra frase do admirado Mário a propósito de Meyer: O melhor poeta lírico brasileiro.
São imagens que referem uma idéia de grandeza, e também a respeito de sua crítica: A grandeza dos Leo Spitzer, Dámaso Alonso, Erich Auerbach, e, entre nós, dos Augusto Meyer e Eugênio Gomes, sentenciou Fausto Cunha. Uma das maiores figuras literárias da língua portuguesa, entusiasmava-se o Érico Veríssimo com o qual Meyer, às vezes, era bastante duro. O letrado por excelência, definia Álvaro Lins. O nosso Erasmo, extasiava-se Alceu Amoroso Lima. Não sei de quem escreva, no Brasil, com mais elegância e, ao mesmo tempo, naturalidade, afirmou Antônio Cândido.
Otto Maria Carpeaux postulava, queixoso, a respeito da obra poética de Meyer, cuja interrupção em plena década de cinqüenta freou conhecimento mais amplo por parte do público, talvez não tenha sido bastante apreciada. O alerta afinava com os apreços de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais citados. E, sobre Meyer como ensaísta, anotava, conciso, o que terminou por se tornar geral consenso: Começa nova época da crítica machadiana.
Tudo isso sem falar no estarrecido testemunho pessoal de Alexandre Eulálio, secretário pessoal de Meyer, ouvindo pessoalmente de Jorge Luis Borges em Buenos Aires, que o mesmo afirmava, literalmente, conhecer a obra de Augusto Meyer, e que ela não poderia ser ignorada, quando fora obter autógrafos de Borges para este e familiares.
Assim, sempre foi um grande impacto, para mim, ler, logo ao início de seu, desde o título mesmo, circunspecto À sombra da estante, seu primeiro livro de ensaios sobre literatura universal – os anteriores eram específicos, aquele sobre Machado e outro sobre regionalismo – o que segue, ainda na primeira página, sobre o ato da leitura: “No tapete voador, só há lugar para dois passageiros: leitor e autor.”
E praticava o que afirmava: Havia um ensaio intitulado “Do leitor”, outro “Do autor”. Do crítico? Nada. Aliás, idêntico é o comportamento em Borges, por exemplo no This Craft of Verse, de 1967, editado em 2000, de que li a tradução brasileira, Êsse ofício do Verso, de José Marcos Macedo, editada pela Companhia das Letras em 2001. Borges refere-se antes de mais nada, a “uns poucos críticos como eu...” Adiante, tenta definir-se: Tenho para mim que sou essencialmente um leitor”. Também adiante, esclarece: o que significa ser um escritor para mim? Significa simplesmente ser fiel à minha imaginação.” De passagem, aludira: “A felicidade, quando se é leitor, é freqüente.”
Só longos anos, e livros depois, o termo crítico foi utilizado por Meyer.
Hoje, entretanto, eu entendo o que me chocara quando, adulto, passara a ler o livro, que ele, Meyer, meu tio-avô, autografara para sua mãe, minha bisavó, tão intrincado para quem ainda infante vira brilhar aquele ouro de lombada na encadernação ostentando o tão sisudo título que À sombra da estante parecia para mim.
Num velho armário de livros infantis, dois lances de escada mais abaixo do mesmo casarão intacto, com ligeiras alterações, na Marquês do Pombal, mas vagarosamente se decompondo, em meus sonhos saudosos, com o pior dos terrores, o do tempo real, eu vira, ainda antes, algo que me encantara profundamente, e que nunca mais larguei como devoção e relíquia.
Era a tradução de Monteiro Lobato, de 1930, intitulada “Alice no país dos Espelhos” para o Trough the Looking Glass que Charles Lutwidge Dodgson escrevera sob o pseudônimo Lewis Carroll em 1872.
Fascinava a criança que eu era, talvez mais do que tudo, o quase final de uma só linha, quando, após Alice sacudir a gatinha, ao despertar do sonho, encontrávamos o

“Capítulo XI

Miau! Miau!

...e realmente a Rainha-boneca virou num gatinho.”

O título original do capítulo era, em Dodgson, Waking, despertando. A linha única de conteúdo do capítulo era “...and it really was a kitten, after all”.
Da tradução de Lobato, em 1930, no belo livro encadernado originalmente, em bela capa azul escura, até uma tradução editada em 1978, da respeitável Europa-América, a licença poética em prosa não mudou muito. O título, nessa tradução portuguesa, está traduzido por O Despertar. O texto, por “...e afinal era mesmo uma gatinha.”
Mais tarde, adolescente e depois adulto, lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas, eu me deliciava, secretamente, com o final do capítulo VII, o Delírio, quando o narrador, em seu sonho, vê que “...um nevoeiro cobriu tudo, - menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era, efetivamente, um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...”
Ora, capítulo de uma só linha, como o de Dodgson, se quiserem, é, também, o CXXXVI, do mesmo Brás Cubas, intitulado Inutilidade, e que se resume a: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.”
Inútil, não, meu caro velho bruxo ápice de nossa literatura. Você sempre dava pistas.
Deu uma pista a mais sobre um dos mais atormentados e discutidos (literalmente) capítulos da nossa literatura.
Escrevi há muito tempo que o Delírio de Brás Cubas era quase uma imagem literal da concepção de Spinoza sobre a natureza, que estudávamos em aula. Meyer, que já abordara o tema Spinoza em Machado muito antes de mim, além de lembrar o poema a Spinoza concordara comigo num diálogo pessoal.
Mas nenhum de nós mencionou nunca o Trough the looking glass como fonte, e nem como semelhança. Ora, é preciso cuidado. Estamos lidando com gigantes, literariamente falando. Machado faz sua referência, ao que tudo indica, espalhada em dois momentos, como descrevi, dois capítulos diferentes. Lobato, especialista brincalhão para crianças, me deixa estupefato com sua capacidade de guardar sigilos. Talvez para sua geração, como para a minha quando criança, “miau-miau”, com o gesto de levar as mãos à cabeça, fosse sinônimo de, brincadeira plena e total – escárnio absoluto, diria um adulto. E torna o sexo do pequeno felino idêntico ao de Machado...
O mais discutido texto brasileiro seria, ao final, referência a um texto de uma obra considerada, em princípio, para crianças, embora de muita releitura adulta posterior. A montanha de textos brasileiros sobre Machado ignora o fato, se desconsiderarmos meu posfácio à citada reedição da obra em que Meyer mais trata de Machado Meyer. Naquele posfácio, abordo em nota a semelhança entre o capítulo do nosso Machado e o de Dodgson, posfácio, aliás, escandalosamente, resumido por terceiros. E sem meu consentimento, como em muitos outros casos que me tem sido narrados. Pior: há erro de português na versão resumida. Apesar do volume indicar a presença de duas pessoas em revisão. E das frases solicitadas para a última capa, nada exceto as que salvei para o meu posfácio.
Penso ter feito bem chamando a Lewis Carroll, ali, apenas “Dodgson”. É criptografia banal, mas pode ser útil, quando se trata de não confiar. Quem não é confiável para publicar um texto tal como recebido pelo autor, ou que o resume sem concordância do mesmo, e ocasionando erro, não é digno de receber o sigilo que merecem quaisquer revelações antes de estarem editadas. Pelo menos enquanto não soubermos se a semelhança entre Dodgson e Machado nunca foi apontada. Mas, seja lá quem tiver sido o primeiro a mencioná-las, precisamos começar a falar sobre isso.
Em tempo, noutra publicação de reedição do mesmo órgão editor de obra escrita por Augusto Meyer, no caso, Prosa dos pagos, menciona-se A sobra da estante (!) para citar o mencionado À sombra da estante, e aliás o erro de revisão está, mais uma vez, em texto que não era do editor, mas autoral, e não meu.
Constatar que não se trata de algo pessoal, pois outros nomes que respeito passaram pelo mesmo, em tempos recentes, não é consolo. Ouvir, intensamente surpreso, a confirmação do resumo, quando reclamávamos do fato, e, mais, pedíamos dele a reparação – e até mesmo com testemunha ocasional, é agravante.
Depois de tantos anos de tanta democracia não temos o direito de nos expressar da forma que queremos? Aliás, nos tempos em que não tínhamos as liberdades atuais, nunca tive textos diminuídos à custa de erros no conteúdo e sem minha autorização – nem mesmo quando um editor me partiu em dois um texto sobre cinema, jogando-o para dois jornais diferentes, por necessidades de tamanho em página jornalística, num deles com título não meu.
Até quando a elegância do silêncio (e o sereno horror ao bate-boca) de quem escreve vai ser usado como tranqüilidade para escarafunchar descarada e predatoriamente em seus textos, numa demonstração de profunda falta de respeito não apenas para com os mesmos textos, mas para o que seja um texto em geral?
Um texto é a expressão da idéia – a matéria-prima de que a humanidade extrai seus variados rumos, e a única forma de fixá-las para tal.