sexta-feira, março 09, 2007

CONFISSÕES

Emanuel Medeiros Vieira- Brasília

(Lembrando Geraldo Vandré, Luiz Travassos, Elis Regina, Raul Seixas, Taiguara, João Antônio, Caio Fernando Abreu, Carlos Carvalho, Paulo Fontoura Gastal, Glauber Rocha e tantos outros.)

No reino da mistificadora "cordialidade brasileira" e da tremenda empulhação de todos (todos!) governos pós-ditadura, fiz um exercício de memória. Eu não quero esquecer.. Anistia? Pensei nos choques elétricos que recebi na OBAN - nas mãos, nos ouvidos, no cacete. Lembrei da "cadeira-do-dragão." Pensei nos meses passados no DOPS paulista. Os torturadores brasileiros sabim detudo. "Gosta de lamber feridas", "quer se auto-louvar", "não consegue esquecer", "vive no passado", "não sabe perdoar, "quer aparecer como nostálgico do sacrifício", "cristão das catacumbas": isso também falaram. Às vezes não diretamente, mas por terceiros que depois me contam. Pela frente são tão gentis.... Pimenta na boca dos outros... Eles foram anistiados e esquecidos. Não por mim. Me responde, de onde estiveres, amigão Luiz Travassos? Você conseguiria esquecer? "Ele anda repetitivo e redundante. É uma obsessão." Outra observação que fazem. E fiquei lembrando também dos que se diziam tão "puros", detentores do monopólio da virtude e do bem, disseminando seu assembleísmo compulsivo, suas taras por reuniões e mais reuniões - tão longas, quanto inúteis e masturbatórias. (Esse efeito patético continua nos partidos, nos departamentos universitários...) O grau de obsessão de poder pelo poder dessa gente excedeu até o pessimismo dos mais céticos. Sua taxa de traição e de podridão interna atingiram graus de ignomínia mais intensos do que o previsto pelos mais infernais prognósticos. Deslumbramento, corrupção, mediocridade, apego voraz a cargos, volúpia por prebendas, comissões, "boquinhas", vil parelhamento do Estado, não pelos melhores, mas pelos mais espertos, com ligações com a cúpula do poder e do partido. Perderam a utopia. Isso é doloroso. Mas pior ainda é perder a dignidade. Mas não abdicaram da tática do hegemonismo e da crença numa onipotência eterna. Não esqueceram também das práticas autofágicas. Para destruir o outro, todo os métodos são válidos. Poderiam repetir as palavras de um (ex) ministro justificando seu apoio ao AI-5, de 13 de dezembro de 1968: "Às favas com os escrúpulos!". Outro que assinou o referido ato - que levou à tortura e à morte tantos amigos - foi "dono" e "czar" da economia brasileira no auge da ditadura, do "milagre econômico" e da tortura -, é amigão e íntimo assessor do nosso pequeno Napoleão. (Que agora quer acabar com o direito de greve do funcionalismo...) Até quando? A ditadura caiu de podre. Mas no fundo, "nunca" acabou. Ela determinou, como num decreto imperial: "cuidem de si; se esqueçam dos outros." E foi assim que aconteceu. Foi a vitória do "salve-se quem puder". da Lei do Gerson, da praga terrível dos vis marqueteiros, do hiperindividualismo do consumismo voraz, "obrigando" os brasileiros a comprar um montão de porcarias. As porcarias continuam. A barbárie venceu, com a violência, com o narcotráfico, com a corrupção policial, com a falência dos três poderes (e com a resignação de quase todos, a mera "reclamação" sem qualquer efeito da classe média), a sede obsessiva de aparecer na TV, em programas imbecilizantes ou na edição de revistas idiotas com suas ilhas fúteis e suas cabeças oligofrênicas. Essa é a herança maior da ditadura. "Eles" foram muito astutos. A guerra não terminou com o acordo tancrediano, o colégio eleitoral, a derrota das diretas- já, com o armistício selado pela aliança "liberal" da Nova República: ficaram as seqüelas, as muletas, os retratos, as viúvas, as cicatrizes. Sim, o Haiti é aqui. E essa gente que está no poder poderá naufragar de maneira ainda mais infamante, pois ao contrário da ignorância de certos membros da caserna, eles prometeram um Brasil "ético". "limpo" e "justo". E juraram criar o partido mais digno do Brasil. E geraram um montão de stalinistas caipiras. Mas irão embora. E e a cultura? O ministro da Cultura continua sendo o bobo-da-corte do nosso Napoleão médiocre e narcísico, paródia melancólica de um sub-Macunaíma. A "Academia" não o critica, pois ele veio "de baixo". Como isso fosse prova de caráter. Sem ser adepto de teorias conspiratórias, creio que têm razão os que diziam que o astuto Golbery queria dividar a esquerda brasileira, e o PT seria a quinta-coluna do projeto. Golbery deve estar sorrindo* *Prometo voltar a falar de literatura**.
**Falando nisso, acho que o ministro da Cultura nunca leu um livro na vida. Um livro inteiro. Não falo das porcariass de auto-ajuda. Só sabe elaborar aquele discurso vazio e pernóstico, como um míistico de butique. Espremendo suas palavras, não sai nada. E consegue enganar os incautos. Tinhorão nele... Eles logo passarão. Mas como disse alguém, o pior é ficar com os herdeiros das capitanias hereditárias, que nunca deixaram de mandar. São os os donos do Brasil. Para sempre? Desse jeito... Nota final: Collor é da base aliada de Lula. O dois têm se elogiado mutuamente. Não importa o que foi dito pelo Fernandinho de Alagoas, hoje senador da República, a respeito de Lula e de sua filha na campanha de 1989. Memória?: para quê?