HISTÓRIAS DO BRASIL
Emanuel Medeiros Vieira - Brasília
O Anjo da Morte já foi embora. O Nosso Pequeno Napoleão, vestiu a roupa da sabujice, da vergonhosa adulação e da subserviência, com o seu ego inflado pelos áulicos palacianos e por parcela da mídia chapa-branca. Nosso desafortunado presidente quer porque quer que o Brasil integre o Conselho de Segurança da ONU. E ele, para "salvação" da humanidade, seria o secretário-geral... Crê-se uma figura iluminada, vindo ao mundo para salvá-lo. Numa mistura de onipotência com crassa ignorância, só vê e ouve o que quer. E se é contrariado, humilha o assessor e só diz palavrões (em particular). Suas falas diárias são cada vez piores, mais cheias de platitudes, lugares-comuns que infantilizam ainda mais a mente dos brasileiros. Enfim, discursos que beiram à idiotia. São insuportáveis com suas imagens futebolísticas ou eróticas. Tão intragáveis como o óleo de rícino, que mamãe dava na infância para limpar nossos intestinos. (E a literatura, Emanuel, e a literatura?, indaga uma voz interior.) O que Bush/Lula querem é que nos transformemos em um grande plantação de cana-de-açúcar. Como alguém detectou, o risco desse projeto é voltarmos aos primórdios do século 16, "quando a monocultura dessa mesma commodity engessou nosso crescimentos por séculos". (...) A visita do Anjo da Morte, como disse alguém, faz parte de um "road show". Marca-se presença, há declarações vazias e meramente protocolares, afagos carregados de dissumulação ("diplomacia"), declarações ocas sobre democracia, assinaturas de contratos vagos e que nunca vingarão ou serão cumpridos. Isso não é novo. É sempre assim. E Bush diz claramente: não baixará as tarifas impostas aos produtos brasileiros que chegam ao Império. Sim: é a lógica do colonizador. Outros já perceberam: o foco da visita de Bush é de natureza geopolítica. Escreve Reinaldo Gonçalves: "O primeiro fato relevante é que o Brasil ocupa posição secundária ou terciária na agenda de política externa estadunidense. A docilidade de Lula rebaixa o Brasil na agenda externa do EUA. (...) É claro. Bush sai do país sem se comprometer. No caso do Brasil, o açúcar (álcool), a soja e outros produtos primários, como complementou Gonçalves, implicam na degradação ambiental e na consolidação de estrutura de produções retrógradas. É nesse processo de expansão das exportações agrícolas que Lula - crê Gonçalves - está apostando o futuro do país. E a literatura? E Lula elogia os usineiros. Chama-os de heróis. Isso é um verdadeiro escárnio ao trabalhadores de cana, que vivem num regime de semi ou de clara escravidão. Um deboche às mãos que trabalham 14 horas por dia, sem direitos, sem garantias, humilhados, mal-pagos e, muitas vezes, espancados. Resumindo: a presença de Lula no poder é um dos maiores retrocessos que o país já teve. E um desafortunado e ultra-vaidoso ex-alcaide de Porto Alegre acha que esse é um governo de esquerda... (Esse senhor crê que é um pensador profundo, verdadeiro Gramsci... Pobre homem!) Pobre Brasil! Esse atual ministro subestima a nossa inteligência. o que ele ama mesmo é o poder e os palácios.) A herança, como a anterior, herdada do "Patriarca da Dependência" (FHC), também será maldita. E a longo prazo estaremos todos mortos... Para recuperar esse tempo, novamente haverá o sacrifício de gerações, como imposto a mim e a muitos brasileiros pelo Golpe de 64. E Lula e Collor se confaternizam. Riem juntos. No fundo, são muito parecidos. Origem não significa nada. Caráter sim. Collor fala no Senado, horas a fio, teatraliza como ator de segunda, manipula emoções, engana os membros de uma das mais infelizes legislaturas que o Brasil já teve (na chamada Câmara Alta, que já teve, entre seus membros, Darcy Ribeiro). Um suplente, sem nenhum voto (outra excrescência brasileira: alguém assumir um mandato sem nenhum voto popular) - o titular é um "amigo" e antigo funcionário da Rede Globo - acredita que o "sacrifício" de Collor foi o "sacrifício" de uma geração... Parecia falar de um Che Guevara de Alagoas, amigo dos usineiros.... Meu Deus! Quanta falta de memória! E isso ocorreu há 15 anos. Cobri a chamada "CPI do Collor" para o "Jornal da Câmara." Memória eu tenho. Os inquisidores eram impiedosos. Talvez, esses "torquemadas", agora no poder e no partido dominante, tenham corado, ficado envergonhados pelo que fizeram ou fazem, e devem achar o mal feito pelo defensor dos usineiros de Alagoas, mera brincadeira de escoteiro...
E a literatura? Como consolidar nesse universo fragmentário, despedaçado, onde tudo parece descartável, vazio, mesquinho, sem memória, no qual busca-se o prazer imediato, a celebridade fácil, uma ficção forte densa, que ultrapasse o mero naturalismo? Um conto/novela/romance que não caiam no neo-paransianismo oco nem no panfletarismo fácil. Optamos por um ofício. E se o levamos a sério, como prática diária, e não opção que busque prebendas ou glórias acadêmicas, é preciso - como diziam - estar atento e forte. Sem auto-comiseração. Mas com firmeza e talento. É preciso inventar algo digno, esteticamente valioso. É um desafio. Escolhemos um caminho. Não tem sombra nem água fresca. Vamos tentar? Mesmo que o parto seja árduo, é preciso pegar na flecha. Aceitar no alvo é conseqüência. Sim, tudo isso gera cansaço, nojo, resignação ou impotência. Mas o pessimismo é desmobilizador e encolhe a iluminação criativa. Nivelar todo mundo por baixo só favorece os patifes. Mas de tudo isso - do gosto de fel e vinagre, da destruição de um país, desse ilhamento todo -, quem sabe, possa ser gerado algo belo, que dignifique a todos nós e a literatura brasileira. Peço perdões - motivos relevantes (cirurgia) - por não ter tratado mais cedo da vinda ao Brasil do Anjo da Morte, o marechal texano, o representante provisório doi Império. A reflexão pode parecer superada. Mas isso não é jornalismo. Não creio que perca a validade. "Viva a morte, abaixo a inteligência", berrava um general fascista na Guerra Civil Espanhola. Não: viva a vida e a criação! Sempre!


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