domingo, maio 06, 2007

PRAGA DO DIA DAS MÃES

Emanuel Medeiros Vieira- de Brasília


É como a chegada do verão, do outono. De cada dia. O mercantilismo não pára. Agora é a praga do "Dia das Mães". (Entendam: a praga não é a mãe. É o mercado do capitalismo tapuia.) Nada que eleve o espírito humano. Nada que dignifique o ser. A impressão é que todas as mães querem um celular. Que todas mães querem "coisas". (Talvez, na internalização desses valores, queiram mesmo.) Muitas são fúteis, tratam melhor seus cachorros que os meninos de rua; pagam pessimamente as domésticas, mas não deixam de lado a jóia e o vestido novo, além da plástica anual. (Não adianta, senhora: ficará velha de qualquer jeito.)
E as empresas privadas de telefonia (protegidas por gente graúda do "país cordial"), privilegiadas no reinado de privatização do "príncipe" FHC - o dia em que forem abertos os arquivos das privatizações do reinado tucano será descoberto um dos mais profundos e tenebrosos escândalos de corrupção e favorecimento da República -, onipotentes, cobrando caro, apenas "respeitando" o consumidor em propagandas maciças na TV, se dão bem às custas da ignorância ou da sede de consumo. "Troquem seu celulares e sejam felizes". Ou as duas coisas juntas: infinita ignorância e enorme vontade de consumir. (Tente reclamar de uma conta errada, de algum, engano. Mergulhe no inferno tecnológico. Disque 3. Disque 4. Disque para o inferno. Escute uma musiquinha, a voz mecanizada, plastificadamente erotizada de uma moça terceirizada. A ligação cai. Se conseguir outra, terá que novamente passar todas as informações que já deu, identidade, endereço, CPF, o diabo.)
É o inferno refrigerado, de que falava Henry Miller. Tenha o seu carrinho, o seu empreguinho, faça amor 3 vezes por semana com sua mulherzinha. Tudo no diminutivo... Dê-se bem na vida às custas da desgraça de todos os danados do Brasil. E vá levando sua vidinha; veja a novela das 9, o "Jornal Nacional"- espremendo, ele também faz jorrar sangue. Como entende-se a angústia de um Nietszche diante da mediocridade humana! Quem se lembra? Transamazônica (que o mato comeu), Capemi, Proer, Grupo Delfin, Anões do Orçamento, República de Alagoas, sanguessugas, mensaleiros, correios, compra de votos para a reeleição de FHC, o abafamento de CPIs, concessão de canais de rádios e de tevê o perdão de um "impoluto senhor do Pará", hoje deputado federal, pelo governo Lula- cada vez pior, cada vez dizendo mais baboseiras, cada vez mais incompetente e narcísico. E, gravíssimo: a contaminação de parcela de altos escalões do Judiciário nas teias de uma corrupção, que parece cada vez maior. Sim: quem se lembra? Compre uma TV e seja feliz! Não pense! Dê um celular para a sua querida mamãe e faça um mulher feliz! Livro não. A vista da genitora ficará cansada. "Livro é caro": o álibi dos que não suportam ler. (É caro sim, mas não pelas razões dos analfabetos funcionais.) E vá à tripa forra no espeto-corrido do domingo das mães ou no macarronada com a sogra, antes do Faustão. E eleve seu espírito com o grande humanista! Cresça mais um pouco com o "Fantástico". Parabéns.

AINDA SOBRE DROGAS:

A postura de passar a mão na cabeça de viciados, não é humanista, não ajuda o dependente. É uma maneira de exorcizar culpas: pela ausência, pelo egoísmo, pelo desinteresse real em relação à educação do filho, pela desustruturação familiar, celebrando casamentos às pencas como se o ritual fosse um piquenique. A hegemonia absoluta do meu prazer é sempre a negação do outro. Sim, uma geração foi brutalmente reprimida. Uma outra, pegou o rescaldo. É essa, talvez, a que mais me entristece, que viveu muito tempo num purgatório existencial, sem projeto, impotente, calada, restando o "consolo" das drogas, do vazio e da poesia neo-parnasiana, conretista (essa é o horror dos horrores!), realmente ruim e alienada. Essa geração - que tem hoje, arredondado, uns 50 anos -, pela impotência, me parece mais sofrida que a minha, a que nasceu no final da guerra, em 1945. (Sim, viveu na clandestinidade, foi torturada, foi para o exílio, mas - para o bem ou para o mal - tinha um projeto para o Brasil.) "Mas perderam", dirão. Sim. Perdemos. Mas isso faz parte da vida. A anterior à nossa, gerou epígonos do concretismo, professores universitários medíocres mas presunçosos, e uma gigantesca massa de vis imitadores de Guimarães Rosa ou adeptos de um psicologismo que pensam ser herança de Clarice Lispector. Ah, existem também os imitadores de Osman Lins e João Cabral. Pobre Clarice, tão maior que essa gente presunçosa e, literariamente, tão ruim. (Uma das experiências mais dolorosas é ler um imitador de Guimarães Rosa. Talvez seja pior que ler uma tese de mestrado...) Voltemos ao pai que foi reprimido e quer "compensar" o filho: crê que exorcizará a dura educação que recebeu, fazendo tudo o que o filho quer ou "manda". Dá presentes, faz agrados, aumenta a mesada, é pai complacente, idiotizado, sem autoridade. Ou tem medo do filhote. (Sim, autoridade. Não falo de autoritarismo, não estou falado de Médici.) O que este perdido pai está deixando? Uma geração desfibrada, covarde, "corajosa" só em gangues ou grupos; o guri crê que é muito "macho" se beijar 100 mulheres numa festa. (Não sabe que quem beija 100, não beija nenhuma..) Sim, houve uma ditadura. Mas isso não é alibi para pais,- que fumaram "baseados", acharam que Florianópolis era um paraíso (foi um lugar bom para se viver, mas há muito tempo, antes de ser loteado pelos ricos de todos os lugares, inclusive meus conterrâneos, não só gaúchos e paulistas e a praga dos argentinos - que nunca leram Borges, mas sabem invadir terrenos de vizinhos); e acenderam "incenso", internalizando um misticismo de araque, lendo idiotices de auto-ajuda. De calças ou de saias: estas são supostamente mulheres mais profundas, mas que só escrevem platitudes, lugares-comuns sentimentais, melosos, enriquecendo e dando palestras a peso de ouro às custas da burrice geral brasileira. Posso e devo ser amigo de meu filho. Mas ANTES sou pai. Para agradar, os chamados modernosos, permitem que a filhinha durma em casa com o namoradinho. Tudo no diminutivo. É obrigado a ver o garotão andar de cuecas pela casa, abrir a geladeira, refastelar-se no sofá. E agüentar calado. Sem trazer o chicote... Nada disso. Và à luta, rapaz! Não moraram em repúblicas, ganham mesadas, não fazem um trabalho de voluntariado, têm o seu carrinho e não conseguem tirar uma nota digna na escola. É preciso, tendo consciêntica ética e não sendo um sepulcro-caiado, remar contra a corrente, mesmo recebendo pauladas à direita e à esquerda. É o preço a pagar pela nossa autenticidade. É essa complacência que gera esse conformismo propício à germinação de formas novas de fascismo. A rapaziada vira uma massa amorfa. Podem vestir uma camiseta com a foto do Che, como fosse sinal de inconformismo. Como se o guerrilheiro fosse um moleirão passivo e não renunciasse à vida fácil. Pobre Che, incorporado ao mais sórdido capitalismo. Enternecer-se sem peder a dureza. Nunca. Cada governo tem o povo que merece...