quinta-feira, fevereiro 15, 2007

REFLEXÕES II
Emanuel Medeiros Vieira- Brasília
em memória de Myrna Bier Appel
COMPETIÇÃO – O psicanalista Eduardo Losicer observa que “a nova ordem é competir, consumir, produzir, lucrar, assistir a(???) tudo, cultuar o espetáculo. Todas estas condutas são movidas por compulsões que tentam preencher um vazio interno, seja com bens de consumo, imagens fúteis ou drogas. (...) Este vazio da alma dá origem a condutas compulsivas para preencher este vazio afetivo com dinheiro, roupas, trabalho, imagens de jornais, cinema e TV, bebidas ou drogas pesadas. Todos lutam compulsivamente para incorporar tudo o que podem. Vem daí o voyeurismo, o espetáculo por si mesmo, a obrigação do gozo, a imposição do prazer. Até hoje o prazer é uma lei. (...) O orgulho está em baixa. Pouca gente se orgulha da vida que leva. No entanto, todos sabem que a autopromoção é fundamental.” Como complementou o referido analista, a aparência de bom moço, adotada por ídolos do esporte, executivos de empresas e apresentadores de TV (poderia acrescentar: por pastores eletrônicos, atores de novelas, industriais, o diabo), encobre um sujeito dissimulado que cumpre um papel pré-estabelecido. É a nova versão do invejoso, que já não deseja ser o outro, mas algo imaginário e, portanto, irreal.
BUDAPESTE (MAIO DE 2000 – Penso no Império Austro-Húngaro e contemplo o efêmero (o Poder). Tão bela esta manhã primaveril européia (tão clara como as do Planalto Central do meu país). Finitos impérios. Giro de ônibus pela cidade – pessoas que nunca mais verei – e, num sinal de trânsito, esperando que ele abra, vejo uma moça assoando o nariz, olhando o relógio. Para onde ela vai, de onde vem? Gosta de jogar cartas, sabe cozinhar, lê horóscopo, ama alguém às escondidas? Sim, não mais a verei? Terá filhos? Nova travessia do Atlântico e ela continuará andando pelas ruas de Budapeste; abriu o sinal, a moça atravessou a rua, seguiu seu destino, o ônibus continuou. As civilizações também são mortais. Buda e Pest, a ponte Elizabeth, a bela Igreja de São Matias, a espaçosa e impressionante praça dos heróis, estátuas, as guerras, todo o sangue derramado; turista japoneses aos bandos, máquinas fotográficas. Uma folha . Penso em todos os pés que aqui pisaram. Quero dar notícias para a casa, Clarice, Cristiana, para os irmão do Sul, que estão em Porto Alegre, Florianópolis, e também em São Paulo. Folha de papel, também um guardanapo serve, uma caneta: num centenário café escrevo. Brioches, água mineral com gás, um café encorpado. Uma cigana se oferece para ler meu destino. Recuso de maneira cortês, sorrio, há tantos destinos... Sei que pude amar uma cidade bela e cosmopolita. (Penso também na revolta húngara de 1956 em favor da democracia, desafiando a União Soviética. Mas uma reflexão deste naipe mereceria uma análise profunda. Neste 2006, quando escrevo, faz 50 anos do acontecimento. Meu Deus! 50! Parece mentira. Eu estava no colégio “Menino Jesus”, na Rua Bocaíuva, na ilha natal. Uma linda professora: “dona” Alda. Mesmo que fosse uma normalista de 19 anos, a gente chamava as professoras primárias de “dona.”) BANALIZAÇÃO DE CONCEITOS – As noções próprias da cidadania (conceito fundamental que foi tão horrivelmente banalizado – na TV, qualquer mísero candidato quer “resgatar a cidadania”) vão sendo substituídas por conceitos de consumo, como a de popularidade. Como alguém observou, julga-se o potencial de uma político como se fosse uma marca de tênis ou de sabonete. Tudo vira “marquetagem”, paga a peso de ouro, tudo embrulhado ao gosto do freguês, tudo camuflado em vã retórica. Os programas partidários ficaram praticamente iguais, neutros, cheios de lugares comuns edificantes, carregados de platitudes(???). Os eleitores viraram meros clientes. Os candidatos se transformaram em massa amorfa, bonecos iguais: produtos genéricos, feitos da mesma forma, como detectou outro analista. Já perceberam que os políticos reagem cada vez menos a fatos reais e cada vez mais a eventos de mídIa. Isto é, na agenda dos políticos assume cada vez mais relevância aquilo que aparece no vídeo ou aquele que tende a merecer a sua atenção. Com isso, a política estaria sofrendo uma espécie de virtualização em relação à sua realidade efetiva. A videopolítica concebe o eleitor não como agente político, mas como paciente, consumidor de imagens que emocionam. Daí os programas políticos de TV venderem candidatos e temas eleitorais como mercadorias. “(...) Isto talvez esteja a provocar o desaparecimento definitivo da política como fenômeno coletivo. Isto coloca um ponto de interrogação quanto à sobrevivência do Estado concebido como espaço político coletivo de uma comunidade” – percebe alguém. As chamadas pesquisas qualitativas feitas com eleitores, só “vêem” o que eles querem. Vale para o afago e, no geral, para a miserabilidade de idéias, mas não para um país. E triunfam as mistificações, bem encenadas a peso de ouro, sofisticadas, mas sempre mistificações. Como observou alguém, a realidade dos fatos fica à mercê de quem sabe ludibriar melhor. – É o tipo da conduta que não se corrige com a reforma política – percebe uma analista.
GOLPE DE DE 1964 – Prendeu, torturou, matou, exilou. Já estava sendo gestado. Agosto de 54, suicídio de Getúlio Vargas; tentativas de impedir a posse de JK- Aragarças, Jacareacanga; o contra-golpe preventivo de Lott, em prol da democracia (“retorno às normas institucionais vigentes”); renúncia de Jânio; ações para impedir a posse de Jango, a Campanha da Legalidade, que postergou o golpe por três anos. O golpe: democracia rifada, bloqueada; padre Peyton, passeatas em favor da Família, Deus, Pátria e Liberdade, Ouro para o Bem do Brasil; Essa história agente conhece. Quinhentos e quatro anos, meu Deus! Milagre brasileiro, miséria interna. As responsabilidades não foram apuradas: esquecimento, perdão. Não poderia ter dado certo. Não se tem notícia de alguém ter assumido que amarrou seres humanos no pau-de-arara, seviciou-os com choques elétricos, matou-os a pauladas, sumiu com seus cadáveres e tenha requerido perdão legal. “Não há acusação e punição, inexiste anistia” – raciocina Mário Magalhães. Para ele, considerar a anistia como salvo-conduto aos torturadores poderia sugerir um direito non sense: o regime que promoveu a barbárie teria a prerrogativa de se auto-anistiar. “Estimularia o preceito segundo o qual o autor do crime pode ser também autor do perdão a si mesmo”, escreveu o jornalista citado. Na sua visão (na minha também), voltar os olhos para o que passou não é exercício de arqueologia política. Ajuda a entender o presente. Para ele, é difícil acreditar que o emprego disseminado da tortura hoje, em dependências policiais, não seja herdeiro da impunidade que amparou os torturadores de outrora. “Não basta que a história conte a tortura. É preciso conhecer os algozes e puni-los, como exemplo às gerações. Recorrer ainda ao clichê da ‘fragilidade da democracia brasileira’ para desculpar os torturadores é expediente destinado a eternizar o temor de reabrir feridas. Elas nunca cicatrizaram. (...) Ao mandar os velhos torturadores para a cadeia, a Argentina avisa: nunca mais. Ao deixar para lá os seus, o Brasil dá sinal verdade a novas tragédias” – conclui. A serpente estava no ovo. Sempre está. “Mas as telecomunicações melhoraram.” Vale a pena destruir uma geração para obter tal benefício? Só por isso? Pagamos até hoje. Pagaremos mais. Como já foi dito aqui e insisto porque acho valioso: a guerra continua. A guerra é sempre. Ela não termina com o armistício. Ficam as seqüelas, as muletas, as viúvas. Não seria o reino da democracia formal, a partir de 1985, que mudaria isso.
ESPÍRITO DA ÉPOCA – Superlativa exasperação; cinismo; rostos duros; vastos medos/descrença; o sol nasce, o sol se põe; todos parecem mais contraídos, contrafeitos, as relações parecem duras, áridas, cada passo mais penoso; só colhemos fragmentos da complexidade; o mundo tal como estudávamos (e que os antigos conceberam nas aulas de Filosofia do extinto Curso Clássico (que pena e que burrada terem acabado com ele!) e na Universidade, não existe mais; desapareceram as referências iluministas e humanistas. Salve-se quem puder. Antes, no pôr-do-sol, na “Hora do Angelus”, às seis da tarde, queria-se paz; e dormir pacificado, abraçado a Deus, orando: hoje predomina nos morros das grandes cidades o ruído de balas; gente morrendo a todo momento; a hegemonia é dos traficantes, pastores eletrônicos, corretores da Bolsa, políticos profissionais, loiras oxigenadas apresentando programas de TV; quase ninguém quer mais ler, é muito demorado; tudo é instantâneo e logo se dissolve; é preciso buscar outro prazer, outro ídolo, outra moda, e depois outro, outro, sem parar, numa ansiedade permanente, sem fim, onde não há mais presente, nem passado, nem futuro. Nos programas vespertinos, quase só baixaria, propaganda de porcaria, exploração dos desvalidos. A aventura acabou no mundo? (Minha velha indagação.). Não haverá mais nada digno de luta? Entre mortos e feridos, todos perdidos? Estaremos sempre confinados? A História é um pesadelo: tudo será sempre caos?
HISTÓRIA DO BRASIL – Tiradentes enforcado,Frei Caneca fuzilado, Maringhela tocaiado. (Não apenas rimas, Carandiru, Candelária, Carajás, Vigário Geral, Diadema – todos os dias, sempre, nos fins de mundo deste país. Para a classe dominante, o enraizamento do mito da gente sempre alegre, feliz, bem disposta, não poderia ser de mais utilidade.
SAMBA DO CRIOULO DOIDO – Mais Golpe de 64: pesquisa com jovens mostra que 72% não sabem que o golpe militar ocorreu no Brasil há 40 anos. O ditador Franco foi apontado o general mais importante e Tiradentes um dos torturados no período. Professores atribuem o resultado à má qualidade do ensino. Numa redação, um rapaz escreveu que Tiradentes foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury... Não se estranha quando um jovem universitário (universitário!) afirma que Rimbaud é a versão francesa do Rambo. (É errado dizer que o modelo perdeu a parada. Seus formuladores não queriam isso? Não desejaram a destruição do bom ensino, do talento, da inteligência? Conseguiram. Isso não muda com uma geração. Foram anos de destruição. Perdoem a sinceridade: acho que isso não tem mais volta. Hoje (embutido no que foi escrito acima): a pessoa entende o que ouve, mas não o que lê, pois para ela, apenas a audição está associada ao significante.) DOPS – Natal de 1970, paulicéia, Largo General Osório. Pela minha Cela 6 passou Flávio Império, já falecido. Vi em outra o arquiteto Sérgio Ferro. E tanta gente anônima. Numa noite de dezembro, algemado, chegou Augusto Boal. Levaram-no direto para a solitária, que ficava no final do longo corredor. Uma fria cela. Fazendo uns sinais (que a longa vivência na cadeia política havia inventado), por intermediário e um modesto suborno de um carcereiro (maço de cigarros), ofereci um paletó para que o teatrólogo pudesse enfrentar a cela gelada, apesar de ser dezembro. (Anos depois, quando saiu a Anistia, em agosto de 1979, depois de assistir em Brasília a um espetáculo teatral de sua autoria, procurei-o, lembrando do episódio. Naquela cela, quando cheguei no Dops, em 19 de dezembro de 1970, estava uma senhora do PCdoB, que tossia muito à noite, arrebentada pela tortura. Na cela 5, ao lado da nossa, de manhãzinha vi chegar um frade franciscano, magro, que havia sido torturado toda a noite pelo delegado Fleury e sua equipe. Ele chegou carregado. Não sei se agüentou. Acho que não. Nunca soube o seu nome. Nunca mais o vi. Na cela, quando cheguei, havia um grupo que formava uma célula operária do Partido Comunista de uma cidade do ABC, acho que de Santo André. As pessoas que formavam a célula eram muito pobres. Quando recebiam algo dos seus familiares, que vinham de madrugada de trem, era apenas pães e bananas. Como os outros, haviam sido muito torturados. Eu seria o único naquela cela que recebia regularmente “carinhos” e oferendas dos meus irmãos, irmãs: doces, pães, chocolates, cigarros, coisas gostosas (depois de um período, quando os interrogatórios já haviam sido realizados, isso era possível; ainda mais para a gente, que havia vindo da Operação Bandeirantes – Oban, o lugar mais próximo do inferno que conheci em minha vida). Uma vez me disseram (um delegado que não torturava que se passava por intelectual, que eu poderia trocar de cela. Poderia ir para uma onde estavam alguns universitários. Acho que haviam planejado o seqüestro de um embaixador (Qual? Essa memória dos 60 anos agora falha). Nessa cela, lembro, estava o Sérgio Ferro. Podiam ouvir rádio, receber alguns livros. Haviam apanhado muito. É verdade: foram barbaramente torturados. Naquele período, os algozes já os haviam deixado sossegados. Não aceitei o convite. Se saísse da cela em que estava, os pobres membros daquela célula não receberiam o que minhas irmãs e irmãos traziam. Gesto cristão? Sim. Não deveria contar? Não há, acreditem, qualquer auto-exaltação. Apenas a verdade. Sim: é impossível viver sem compaixão. Os universitários presos naquela cela tinham que escrever muito, a caneta ou numa máquina de escrever portátil, o que os homens da Oban e do Dops, chamavam de “Crítica da Revolução Brasileira”. Em quase todas as madrugadas, escutávamos o tilintar de chaves, levando alguém para interrogatórios (onde a tortura corria solta) no 3º andar (as celas ficavam no subsolo) ou de volta (o pavor maior) à Oban. Por incrível que pareça, alguém havia deixado num canto, um volume de Franz Kafka, O Castelo. A capa estava rasgada, edição antiga, já amarela. Não é folclore: é verdade. Eu pedi e a mana Cida comprou (deixaram entrar), A Ilhado Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Propositalmente, colocaram na nossa cela um preso comum de apelido Tarzan. Às vezes botavam agentes, alcagüetes (que se diziam pertencentes a grupos armados de esquerda, para contar aos policiais o que conversávamos na cela). O apelido havia sido dado porque ele era fortíssimo e, segundo me contaram depois, fora brutalmente torturado em delegacias (havia matado o patrão para o qual trabalhava numa fazenda – acho que foi isso) e não abrira o bico. Apanhou violentamente e ficou calado. De extrato humilde, ele estranhava o fato de eu receber cigarros, doces, pães, chocolates, comidinhas gostosas e de distribuir irmãmente, e ele estava incluído. Um dia, ele me disse: – Falaram (os policiais) que vocês eram maus, que queriam matar muita gente, que comiam criancinhas, que roubavam nossas mulheres, que eram comunistas malvados. Então, porque você me deu cigarros e chocolates e não distribuiu só para seus amigos? – Ele estava absolutamente surpreso. Ele era semi-analfabeto. Um grupo de colegas deu algumas aulas para ele. Na noite em que fui embora definitivamente do Dops, 17 de fevereiro de 1971, cantaram para mim (“Minha jangada vai partir pro mar...”). Todas os presos cantavam, formando uma espécie de coral. O regulamento era esse: quem entrava pela Oban, como eu, tinha que sair por lá; então, tive que dormir mais uma noite, sem tortura, na Rua Tutóia e, no dia 18 de fevereiro de 1971, voltei para casa. Não disseram que eu iria embora, mas eu sabia, porque alguém me falara secretamente. E nessa noite de despedida, Tarzan perguntou se eu tinha algum inimigo. Queria retribuir o que eu havia feito por ele.– Você me tratou bem. Na vida, ninguém me tratou bem – disse. – Se você tiver algum inimigo, você pode me dar o nome que, quando sair daqui, eu vou mata-lo – complementou. E deu o endereço de algumas mulheres, “caso eu precisasse”, me olhando com sorriso malicioso. Ele falava com muita sinceridade. Antes, escrevera com um canivete (não sei como entrara lá) meu nome numa pilastra que havia na cela. Se não foi demolida, o nome ainda deve estar lá. Quando saí, ele havia dado seu endereço, eu e a mana Cida, com auxílio de outros familiares, fizemos um rancho para a sua família e fomos levar na sua casa. Acho que o bairro se chamava Casa Verde. Não, Tarzan, não precisas matar ninguém por mim, e ele me deu um abraço que quase quebrou os meus ossos.